Não vale culpar Keynes

Economista dizia que nações devedoras têm pouco a fazer para resolver crises

George Monbiot*, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2008 | 20h23

Na conferência de Bretton Woods, em 1944, o economista inglês John Maynard Keynes propôs um sistema engenhoso para convencer as nações credoras a gastarem seu dinheiro excedente nas economias das nações devedoras. Mas sua idéia foi rejeitada, e foi assim que nasceu o Fundo Monetário Internacional (FMI). Para compreender o motivo pelo qual a economia mundial continua entrando em crise, políticos - e jornalistas - hoje precisam compreender o que se perdeu em 1944. Keynes nunca foi tão criticado pela imprensa mundial como na cúpula do G-20 realizada na semana passada. Não propositalmente: a maior parte das mentes pouco brilhantes que noticiaram o encontro acredita que foi ele quem propôs e fundou o FMI. A verdade é mais interessante. Na conferência de Bretton Woods da ONU, em 1944, John Maynard Keynes apresentou uma idéia muito melhor. Depois que ela foi descartada, Geoffrey Crowther - então diretor da revista Economist - alertou que "lorde Keynes estava certo ... o mundo lamentará amargamente o fato de seus argumentos terem sido rejeitados". Mas o mundo não lamenta, porque quase todos - assim como a própria Economist - se esqueceu do que ele propôs.Um dos motivos pelos quais ocorrem crises financeiras é o desequilíbrio de comércio entre as nações. Os países acumulam dívidas em parte porque precisam financiar o déficit comercial. Eles podem tornar-se presas fáceis de uma espiral negativa: quanto maior a dívida, mais difícil será gerar um superávit comercial. Como Keynes reconheceu, as nações devedoras não têm muito que fazer.Somente os países que mantêm um superávit comercial têm uma representação real, portanto são eles que devem ser obrigados a modificar suas políticas. A solução apresentada por Keynes foi um sistema engenhoso para persuadir as nações credoras a gastarem seus recursos excedentes nas economias das nações devedoras.Ele propôs um banco global, a União Internacional de Compensações. O banco emitiria a própria moeda - o bancor - que poderia ser trocada pelas moedas nacionais a taxas de câmbio fixas. O bancor se tornaria a unidade monetária corrente entre as nações, o que significa que seria usada para medir o déficit ou o superávit comercial do país.Todo país teria uma linha de crédito em sua conta em bancors na União Internacional de Compensações, equivalente à metade do valor médio de seu comércio em um período de cinco anos. Para que esse sistema funcionasse, os membros da União precisariam de um poderoso incentivo para a compensação de suas contas em bancors até o final do ano: acabar sem déficit nem superávit comercial. Mas qual seria o incentivo?Keynes propôs que todo país que registrasse um grande déficit comercial (equivalente a mais da metade de sua capacidade de crédito em bancors) teria de pagar juros sobre sua conta. Também seria obrigado a reduzir o valor de sua moeda e impedir a exportação de capital. Mas - e esta era a chave do seu sistema - ele insistiu em que as nações com superávit comercial fossem sujeitas a pressões semelhantes. Todo país com um saldo de crédito em bancors superior a 50% de sua capacidade de crédito teria de pagar juros à taxa de 10%. Também seria obrigado a valorizar sua moeda e a permitir a exportação de capital. Se, até o fim do ano, seu saldo de crédito superasse o valor total do seu crédito permitido, o superávit seria confiscado. As nações com um superávit teriam um poderoso incentivo para se livrarem dele. Com isso, elas compensariam automaticamente os déficits de outras nações.Quando Keynes começou a explicar sua idéia aos jornais publicados em 1942 e 1943, ela explodiu na cabeça de todos que leram a respeito. O economista inglês Lionel Robbins escreveu que "é difícil exagerar o efeito eletrizante para o pensamento em todo o aparato do governo ... jamais havia sido discutido algo tão criativo e tão ambicioso". Os economistas do mundo inteiro se deram conta de que Keynes solucionara o problema. Enquanto os Aliados se preparavam para a conferência de Bretton Woods, a Grã-Bretanha adotou a solução de Keynes como sua posição oficial nas negociações. Mas houve um país - na época o maior credor do mundo - no qual a proposta não foi tão bem recebida. O chefe da delegação americana em Bretton Woods, Harry Dexter White, respondeu do seguinte modo à idéia de Keynes: "Somos totalmente irremovíveis a esse respeito. Nossa posição é absolutamente não". Em lugar disso, ele propôs um Fundo Internacional de Estabilização, que deixaria todo o ônus da manutenção do equilíbrio comercial às nações endividadas. O fundo não imporia limites ao superávit que os exportadores bem-sucedidos pudessem acumular. Ele sugeriu também a criação de um Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento, que forneceria o capital para a reconstrução econômica depois da guerra. White, com o respaldo do prestígio financeiro do Tesouro americano, venceu. O Fundo Internacional de Estabilização tornou-se o Fundo Monetário Internacional. O Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento continuou sendo a principal agência de empréstimos do Banco Mundial.As conseqüências, principalmente para os países endividados mais pobres, foram catastróficas. Agindo em nome dos ricos, impondo condições que nenhum país livre toleraria, o FMI os fez sangrar até secar. Como Joseph Stiglitz mostrou, o fundo agravou as crises econômicas existentes e criou crises onde não havia antes. Desestabilizou o câmbio, exacerbou os problemas de balanço de pagamentos, obrigou os países a se endividarem e a entrar em recessão, arruinou os serviços públicos e destruiu os empregos e as rendas de milhões de pessoas.Harry Dexter White garantiu que os EUA jamais perderiam. Ele concedeu ao país poderes especiais de veto nas principais decisões tomadas pelo FMI ou pelo Banco Mundial. No sábado atrasado, os líderes do G-20 admitiram que "as instituições de Bretton Woods precisam ser amplamente reformadas". Mas as únicas sugestões concretas que fizeram foram que o FMI deve receber mais dinheiro e as nações mais pobres "deveriam ter mais voz e representatividade". Já vimos o que isso significa: um aumento mínimo de seu poder de voto, que em nada contribui para contestar o controle do fundo que está nas mãos dos ricos e muito menos o veto dos EUA. *George Monbiot, jornalista e escritor, colunista do jornal britânico The Guardian, é autor, entre outros livros, de A Era do Consenso (Record)

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