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Naomi Alderman estava escrevendo sobre uma pandemia; e então veio o coronavírus

Escritora inglesa, autora do romance distópico 'O Poder', chegou a interromper a escrita de seu próximo livro em respeito às vítimas

Alex Marshall, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2020 | 16h00

LONDRES – Há dois anos, Naomi Alderman, autora do romance distópico O Poder, de 2017, vinha trabalhando no seu livro seguinte. Então, em fevereiro, quando já havia escrito 40 mil palavras, decidiu que precisava parar. A história que ela imaginara, sobre executivos bilionários da tecnologia que fugiam de uma pandemia, agora parecia demasiado próximo da realidade.

“Pensei, ‘Bobagem! Não vou conseguir escrever este livro’”, contou Naomi em uma entrevista por telefone. “Parecia uma extrema falta de respeito para com as inúmeras pessoas que haviam perdido seus entes queridos. E refleti, ‘Deus sabe onde esta pandemia irá explodir, e como será o mundo depois dela’”.

Em seu livro, intitulado inicialmente The Survivals, ela falava de uma pandemia muito pior do que a do coronavírus. “As agências de notícias a denominaram a gripe dos pombos”, dizia um trecho do livro, “porque durante algum tempo pensavam que o rápido alastrar-se da doença tivesse sido causado por pombos. Em Paris, apareceu uma série de fotografias da milícia local usando lança-chamas contra os pombos, com as asas pegando fogo. Parecem gotas chamejantes, gritando”.

Durante semanas, Naomi não tocou no livro, concentrando-se ao contrário em exercícios de escrita. Mas acabou reconsiderando e decidiu que poderá terminá-lo, mas possivelmente com grandes mudanças. É provável que venha a ser cortado a primeira terça parte do livro, que explicava o que é uma pandemia e incluía o toque emocional para que as pessoas se dessem conta de como essas coisas são assustadoras. “Isto poderia ser resumido em duas sentenças”, ela disse com uma risada.

Na entrevista, ela contou como mudou o curso do livro e comentou se os romancistas deveriam incorporar o coronavírus em sua ficção.

Abaixo alguns trechos editados da conversação.

Antes de mais nada, como foi que teve a ideia de escrever sobre uma pandemia?

Estou interessada no que as pessoas fazem em situações extremas. Tinha lido um artigo na New Yorker sobre alguns executivos bilionários da tecnologia que estavam investindo em bunkers na Nova Zelândia para sobreviver a um possível colapso da sociedade, para o qual provavelmente eles mesmos tivessem catalisado ou contribuído. Fiquei impressionada porque me dei conta de que se tratava de um território extremamente fértil, o enorme fosso entre a retórica do Vale do Silício e a realidade. Além disso, parecia que estávamos caminhando para uma pandemia. Estas doenças acontecem a cada 100 anos aproximadamente, e a última ocorrera em 1918-19. Então juntei as duas coisas: ‘E se eu seguisse estes bilionários em suas tentativas de ir para os seus bunkers?’. Não antecipei absolutamente que isto poderia acontecer de fato.

Você ouviu falar do coronavírus em janeiro. Isto influenciou a sua escrita inicialmente?

No esboço do romance, eu falava de uma pandemia que começava na América do Sul. E quando vi que isto acontecia na China, pensei: ‘Por que não mudar a história para lá? ’Por isso, durante provavelmente o mês de janeiro, e grande parte de fevereiro, pensei: ‘É uma coisa bastante oportuna. Fantástico. Quando as pessoas lerem isto, vão pensar: ‘Ela está olhando para o que teria acontecido se aquele pequeno surto saísse do controle’. Então em meados de fevereiro, só consegui pensar: ‘Meu Deus’”.

O que fez você sentir que poderia voltar para o seu projeto?

Em meados de abril, de repente achei que, embora a covid não seja brincadeira pela escala das consequências, na realidade é bastante suave. Nós esquecemos de que é perfeitamente possível que uma doença deste porte possa matar de maneira desproporcional bebês ou crianças. Então pensei: "E se este livro for escrito em um mundo depois da covid, 10 ou 15 anos mais tarde, e o que eu estou escrevendo é sobre uma doença muito menos suave?". Também achei que seria muito útil, prazeroso e recompensador procurar pensar como seria um mundo depois da covid, e o que teria de ser diferente para torná-lo melhor. É assim que eu olho a coisa. Mas sem dúvida, o livro ainda está fluido, o que acredito que uma pessoa deva permitir quando sofreu um golpe na cabeça, como tudo isto aconteceu.

O que você pegou de certo e de errado a respeito da pandemia?

Eu peguei os vídeos do YouTube. No romance, as pessoas descobrem o que está acontecendo no mundo não tanto do noticiário, mas das pessoas que carregam os vídeos. Peguei bem o sentimento de pânico, acho. E peguei uma parte horrível, surpreendentemente cuidadosa, onde as coisas foram extremamente ruins na Itália; e os trens precisam voltar e os hospitais estão sobrecarregados. O que achei surpreendente é como foi algo cansativo. Eu o comparei na minha mente à experiência de mudar para outro país onde você precisa reaprender tudo: como atender à porta, como caminhar na rua, como ir para o mercado. Há uma fantasia generalizada na internet segundo a qual todos passaremos a usar este tempo para nos tornamos fluentes em outra nova língua e peritos no arco.

O jornal 'The Guardian' publicou um artigo este mês em que alguns autores discutem se deveriam modificar os seus livros a fim de incluir coisas como máscaras faciais ou eliminar cenas em que seus personagens estão em um bar. O que você lhes aconselharia?

Não se estressem. Ambientem sua obra em 2017. Ou em 2023. Se você está escrevendo um romance em que o personagem principal é dono de uma cadeia de bares, e todo o enredo fala de sua capacidade de impedir que esta cadeia de bares afunde, e você quer que seja realista e contemporâneo, talvez devesse adotar as normas do distanciamento social. Mas se você tem personagens que se encontram acidentalmente em um bar, isto vai voltar. No começo de Little Dorrit, de Dickens, há um grupo de personagens que estão se despedindo. Por que será que eles se conheceram nas duas ou três últimas semanas? Porque estavam todos de quarentena, e regressaram da Europa, onde houve um surto de uma doença. E Dickens nunca se preocupou em explicar o que eram as regras do distanciamento social ou como eles tiveram realmente de ficar em quarentena ou onde ficaram hospedados. Ele disse apenas: ‘Bom, isto aconteceu, por isso vamos seguir adiante com a história.’ Este me parece um bom modelo.

Como alguém que passa o tempo tentando ter uma ideia do futuro, você acha que isto terá um profundo efeito na ficção científica?

Não terá um efeito no tipo de futuro profundo, essas coisas de ficção científica espacial com invasões de aliens e espaçonaves. Mas acho que para a ficção da ciência social é possível que sim. Há uma parte da ficção científica apocalíptica que aparentemente imagina que a maioria das pessoas só espera uma desculpa para virar um canibal. A Estrada (de Cormac McCarthy) é um livro excelente, mas na realidade não acho que  seja verdade que o que a maioria das pessoas fará se o mundo enlouquecer, será: “Oba, finalmente uma chance para satisfazer minha ambição de comer carne humana!”. Não é assim que os seres humanos sobreviveram nos últimos milhões de anos. Como nós sobrevivemos de fato foi trabalhando juntos, formando comunidades, criando o intercâmbio, na maior parte tentando manter a paz.

E isto é válido mesmo para os bilionários da tecnologia do seu livro?

Bom, acho que os bilionários da tecnologia constituem um subconjunto à parte da humanidade. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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