Narrativa fundadora da tradição literária ganha nova edição no País

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'Ele que o Abismo Viu: Epopeia de Gilgámesh' recebe atualização após descobertas sobre os documentos originais

Dirce Waltrick do Amarante*, O Estado de S.Paulo

13 Janeiro 2018 | 16h00

Não é a primeira vez que a epopeia de Gilgámesh é publicada no Brasil. Em 1992, a editora Ars Poetica trouxe à tona a história do quinto rei de Uruk depois do dilúvio, Gilgámesh, Rei de Uruk, na tradução do poeta e tradutor português Pedro Tamen. Tratava-se de uma tradução do texto em inglês de autoria da estudiosa inglesa N. K. Sandars, que transformou em prosa os versos do épico mesopotâmico. 

De lá para cá muita coisa mudou, novos documentos sobre esse texto foram descobertos e novos manuscritos até então desconhecidos vieram à luz, de modo que uma nova tradução dessa epopeia fazia-se necessária. Essa lacuna é preenchida agora com a publicação, pela editora Autêntica, de Ele que o Abismo Viu: Epopeia de Gilgámesh, em tradução acurada, direta do acádio e em versos, de autoria do pesquisador e professor de Língua e Literatura Grega da Universidade Federal de Minas Gerais Jacyntho Lins Brandão. Além da tradução, Brandão assina o prefácio e as exaustivas notas e comentários que acompanham o texto. É, sem dúvida alguma, o trabalho mais relevante sobre esse mito mesopotâmico em português. 

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A importância da epopeia de Gilgámesh é imensa; basta para tanto pensarmos no primeiro texto escrito de que se tem conhecimento. Lembra o professor da Universidade de São Paulo Norberto Guarinello, autor do prefácio de Gilgámesh, Rei de Uruk, que até meados do século 19 era a Bíblia o mais antigo texto escrito conhecido. A propósito, é na epopeia de Gilgámesh que se lê pela primeira vez a história do dilúvio (“Sete dias e sete noites/ Veio vento, tempestade, vendaval, dilúvio”) que se repetirá séculos mais tarde no Antigo Testamento. Jacyntho Brandão acrescenta ainda que, até pelo menos a primeira metade do último século, a “nossa tradição literária” começava com a Ilíada, de Homero. 

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De fato, foi há pouco mais de um século apenas que a epopeia de Gilgámesh se introduziu no cânone da literatura antiga, e não só ela, mas uma série de poemas em sumério e acádio, provenientes das civilizações da Mesopotâmia, segundo Brandão.

A história de Gilgámesh como a conhecemos hoje, afirma Guarinello, não é obra de uma única pessoa nem mesmo de um único povo, “mas um produto coletivo, reelaborado por quase 2 mil anos pelas culturas do antigo Oriente Médio, o ‘berço da Civilização’: caldeus e assírios, hititas e fenícios conheceram o mito e legaram-nos trechos variados da história, expressos em diversas línguas”. O maior e mais completo texto com a história de Gilgámesh foi encontrado na biblioteca do rei Assurbanípal na metade do século 19 em meio a mais de vinte mil tabuinhas ou fragmentos, que podem ser vistos hoje no Museu Britânico. Brandão conta em seu prefácio que o assiriologista inglês George Smith (1840-1876), ao ler a tabuinha sobre o dilúvio, teria gritado: “Sou o primeiro a ler este texto após 2 mil anos de esquecimento.” 

E assim milênios esquecidos foram trazidos à luz, quando essas placas de argila foram desenterradas do deserto iraquiano.

De acordo com Jacyntho Brandão, a versão clássica da história de Gilgámesh se apresenta numa “série de doze tabuinhas com seis colunas, três na frente e três no verso, cada coluna contendo entre quarenta e cinquenta versos, cujo total, por tabuinha, varia de duzentos e cinquenta a trezentos versos”. O autor desse texto teria sido Sin-léqi-unnínni, que, por volta do ano 1300 a.C., deu a “forma final ao poema”. É justamente desse texto que se vale Brandão em seu livro, que não visou “produzir um texto compósito, em que as lacunas nos manuscritos do poema clássico se completassem com as lições da versão antiga, de fragmentos das versões médias ou mesmo de traduções para outras línguas, em especial o hitita, como muitas vezes se fez, oferecendo ao leitor um texto que jamais existiu em época alguma ou lugar”. 

O título adotado por Brandão não é aquele que comumente conhecemos – Epopeia de Gilgámesh – mas o título original, Ele que o Abismo Viu, que é também, aliás, o primeiro verso do poema: “Ele que o abismo viu, o fundamento da terra,/ Seus caminhos conheceu, ele sábio em tudo,/ Gilgámesh que o abismo viu, o fundamento da terra,/ Seus caminhos conheceu, ele sábio em tudo.” 

O poema, cheio de repetições, conta a história desse rei, dois terços deus, um terço homem, ao mesmo tempo perverso e sábio – “explorou de todo os tronos/ De todo o saber, tudo aprendeu,/ O que é secreto ele viu, e o coberto descobriu,/ Trouxe isto e ensinou, o que antes do dilúvio era” –, cujas revelações se dão através dos sonhos. Narra também suas aventuras por terras desconhecidas, acompanhado de seu amigo Enkídu, e sua busca incansável pela vida eterna, concedida aos deuses e não aos homens, como se revela ao final. 

*Dirce Waltrick do Amarante organizou e traduziu, entre outros, 'Finnegans Wake (Por um Fio)', de James Joyce, pela editora Iluminuras 

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