Nas crises, o impossível às vezes se torna inevitável

Acontecimentos das últimas semanas podem ser só o prelúdio, não o clímax, de uma situação assombrosa

Anatole Kaletsky*, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2008 | 21h35

O espantoso nas crises financeiras é como os acontecimentos podem avançar diretamente do impossível ao inevitável sem nem sequer passar pelo improvável. Veja também:O capitalismo no espelhoGo home, Chicago boys!Entre o touro e o bezerroDuas semanas atrás, ninguém teria imaginado que, antes de o mês terminar, a administração de George W. Bush teria nacionalizado a maior companhia de seguros do mundo, dois dos quatro maiores bancos de investimentos globais estariam acabados e o governo americano assumiria a responsabilidade por três quartos dos novos empréstimos hipotecários do país.Infelizmente, os acontecimentos das duas últimas semanas podem ser apenas o prelúdio, e não o clímax, dessa crise assombrosa. Até o aparente salvamento do Halifax Bank of Scotland (HBOS) pode resultar numa crise maior se ele arrastar seu salvador, o Lloyds TSB, para o fundo. Se isso acontecer, cada banco da Grã-Bretanha, com a possível exceção do HSBC, terá de ser nacionalizado, ao estilo do Northern Rock.O mesmo poderá se tornar inevitável nos Estados Unidos se os especuladores no mercado que foram ricamente premiados pelo governo por afundar Fannie Mae, Lehman Brothers e AIG virarem sua atenção para o próximo grupo de instituições financeiras claudicantes na linha de fogo: Washington Mutual, Wachovia, Bank of America, Morgan Stanley e Citibank. Se qualquer um desses gigantes feridos desabar, os outros cairão como peças de dominó e todo o sistema financeiro americano terá de ser nacionalizado. Numa crise financeira, o impossível pode se tornar inevitável em um dia, como se viu na Quarta-feira Negra na Grã-Bretanha.Mas a palavra operativa aqui é "pode". Para compreender o que ainda pode ser feito para impedir que essa crise se transforme num verdadeiro desastre é preciso olhar imparcialmente para as conseqüências inesperadas nos mercados das recentes ações do governo. Isso significa afastar-se dos slogans moralistas sobre "ganância" ou "salvamento de banqueiros irresponsáveis".A principal resposta a essa crise foi uma disputa furiosa sobre quem permitiu que os bancos entrassem nesse imbróglio e como se poderia acabar com a imprudência. Isso equivale ao debate acalorado entre políticos franceses, quando as divisões Panzer alemãs entravam em Paris, sobre quem tivera a estúpida idéia de construir a Linha Maginot. Haverá um momento para repartir culpas e infligir punições e reformar estruturas regulatórias. Agora, porém, a única questão é como evitar uma catástrofe nas próximas semanas.Está claro que a maioria das ações tomadas recentemente por autoridades reguladoras e governos exacerbaram a crise. Em vez de usar o poder de fogo financeiro ilimitado de seu governo para defender o sistema financeiro, o secretário do Tesouro, Henry Paulson, virou a arma contra seu próprio lado, liquidando investidores de longo prazo que tentavam escorar importantes instituições financeiras, enquanto premiava especuladores que tentavam derrubá-las.Paulson estava acionando uma Máquina do Juízo Final financeira, impelida por uma reação em cadeia de ações de especuladores no mercado acionário, agências reguladoras, agências de classificação de crédito e contadores. Os detalhes desse mecanismo são complexos, mas a idéia central é simples - se o preço da ação de um banco cai abaixo de um nível crítico, seu crédito é degradado; ele precisa vender ativos a preços de liquidação; isso enfraquece ainda mais seu capital, levando as autoridades reguladoras a questionar sua solvência; isso provoca uma queda no preço de suas ações e o círculo vicioso dá mais uma volta. O que Paulson fez há dez dias foi entregar aos especuladores no mercado acionário a chave dessa Máquina do Juízo Final.Isso pode parecer uma acusação exagerada - em especial contra um suposto gênio financeiro que já foi presidente do Goldman Sachs -, mas considere-se o acontecimento que desencadeou os ataques do mercado ao Lehman Brothers, AIG e HBOS. Eles se seguiram à decisão punitiva de Paulson, em 7 de setembro, de basicamente expropriar os U$ 20 bilhões de capital injetados na Fannie Mae e Freddie Mac por acionistas nos 12 meses anteriores. Os acionistas de longo prazo fizeram esses investimentos encorajados pelo governo americano, para estabilizar a Fannie e o Freddie. Enquanto isso, um bando de especuladores de curto prazo vendia os mesmos papéis, convencido de que as duas companhias seriam impelidas à concordata.Ao premiar os vendedores a descoberto eliminando investidores que acreditavam numa recuperação no longo prazo que restauraria a lucratividade das gigantes de hipotecas, Paulson enviou a mensagem mais clara possível aos mercados financeiros de todo o mundo. Todo investidor que puser dinheiro numa instituição financeira americana que possa ficar com falta de capital o verá ser expropriado pelo governo americano. Por outro lado, os vendedores de ações de bancos e companhias de seguro americanas seriam ricamente recompensados se pudessem desestabilizar qualquer companhia financeira o suficiente para forçá-la a recorrer à ajuda do governo.Nos dias recentes, o mesmo padrão de incentivos perversos foi repetido na concordata do Lehman e no "salvamento" do AIG. Em ambos os casos, Paulson decidiu liquidar os investidores que bancavam uma recuperação enquanto premiava vendedores a descoberto desestabilizadores.A questão chave é se essa estratégia de terra arrasada se tornará um princípio firme das respostas de Paulson a futuros ataques a instituições financeiras americanas. A opinião alternativa é que Paulson pode ter astutamente escolhido os acionistas de Fannie, Lehman e AIG como bodes expiatórios, para mostrar sua firmeza com "banqueiros gananciosos"- e tendo deixado isso claro, ele agora será capaz de sustentar instituições mais importantes como Bank of America e Citibank se elas forem atacadas.Os acontecimentos dos próximos dias revelarão se é astúcia ou incompetência a explicação para a estratégia aparentemente suicida de Paulson, mas, enquanto isso, o turbilhão financeiro deslocou-se de Nova York para Londres - e com ele, a responsabilidade por respostas políticas certas ou erradas.Enquanto escrevo, os termos da fusão Lloyds-HBOS são desconhecidos, mas o critério principal para julgar sua eficácia é bastante claro - e é exatamente o oposto do princípio adorado por Paulson. (O Lloyds TSB comprou o HBOS pelo equivalente a US$ 22 bilhões.)Se a fusão Lloyds-HBOS oferecer ao banco ampliado algum tipo de rede de segurança governamental firme - não apenas para depositantes, mas decisivamente também para acionistas -, ela provavelmente será bem-sucedida e agirá como um anteparo contra a crise financeira deste lado do Atlântico. Se, porém, a fusão for apresentada como uma "pura solução do setor privado", sem nenhum suporte do governo aos acionistas, ataques de mercado contra o HBOS serão rapidamente retomados e redirecionados contra o banco resultante da fusão.Isso deixará apenas uma solução - a nacionalização de todo o sistema bancário britânico. O impossível se tornará subitamente inevitável. * Anatole Kaletsky escreveu este artigo para o jornal britânico The Times, do qual é o principal comentarista econômico. É autor de Os Custos da Moratória (Paz e Terra)

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