Nas garras da oleodependência

Não adianta culpar pelo desastre do golfo só a BP ou a sede de energia: a culpa é de toda a cadeia produtiva, viciada em petróleo

Frederico Brandini

19 de junho de 2010 | 16h00

Mais fundo. Perfuração petrolífera na Bacia de Campos, Rio de Janeiro.

 

 

Em uma manhã ensolarada de domingo, acordei de bem com a vida, com o colesterol abaixo dos níveis de referência, as contas pagas e tentando fazer o primeiro filho. Daí decidi dar uma de maridão esperto e, sob o olhar carinhoso e agradecido da jovem esposa orgulhosa, inventei de instalar aquela prateleirinha branca na parede do banheiro. Foi mais pra inaugurar o kit furadeira Bosch. Assim que mirei cuidadosamente a broca 8 mm entre o reboco de dois azulejos direto num ponto quase que mentalmente georeferenciado… pimba! Jorrou um jato de água fria que, se não tivesse parado no meu olho, teria invariavelmente batido na parede oposta. Acertei em cheio o cano d’água do edifício.

 

No desespero de evitar a molhadeira na virilha e no tapete do corredor, a bronca da mulher e a censura do síndico, minha reação foi imediata e involuntária. Em questão de segundos meti heroicamente o mata-piolho no buraco pra estancar a hemorragia aquática descontrolada. Ali fiquei p. da vida em pé, com cara de bocó e escravo da própria burrada, enquanto minha cúmplice no episódio buscava na lista amarela o socorro de um encanador 24 horas. Ele chegou duas horas depois que eu (muito esperto!) substituí meu dedo por um cabo de escova de dentes enrolado num pano de chão imundo.

 

Agora imaginem um vazamento enorme e descontrolado de óleo cru de um buraco no fundo do Golfo do México, com temperaturas congelantes e uma pressão capaz de esmagar um botijão de gás em milésimos de segundos. Multiplique por 100 o mesmo clima emocional gerado pelo episódio doméstico do meu banheiro. É mais ou menos assim o clima na diretoria da BP. Não é a virilha nem o tapete do corredor, é todo o mar do Golfo de México (por enquanto); não é a bronca da mulher ou a censura do síndico, é toda a comunidade internacional. Ambientalistas, políticos, empresários e milhares de comerciantes ao longo da costa sul dos EUA cobrando soluções e reparações pessoais e coletivas. No caso da BP, a preocupação com o vazamento foi inicialmente financeira - como em toda empresa privada que se preza. O impacto ambiental ficava por conta da solução rápida do problema antes que fugisse ao controle. Só que, agora, no mundo globalizado e transparente, com a divulgação em massa de informações via internet, governos e empresas foram forçados a ter responsabilidade socioambiental e, para a infelicidade da BP, a censura internacional cresce a cada dia com a demora na solução. Cedo ou tarde ela aparece, mas o problema só está começando.

 

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Política rasa em águas profundas

Código do desflorestamento

 

As consequências ambientais ao redor do golfo são irreparáveis a curto e médio prazo. O ambiente ainda convalesce de vazamentos históricos nas últimas décadas em todo o mundo, como os do Alasca, sul da África e Espanha. Vazamentos pequenos ocorridos há décadas ainda deixam pistas do óleo derramado no sedimento de marismas e manguezais da costa americana. Sim, o óleo no mar se dispersa, volatiliza, sedimenta ou é transformado químio e biologicamente (bactéria adora petróleo, pode?). Mas deixa resquícios de contaminação na teia alimentar com hidrocarbonetos e metais pesados. Sem falar no impacto das alterações físicas e químicas da água devido à lambuzeira geral. Esta é visível a olho nu, seja no pelo e penas dos animais marinhos que sufocam e (haja fígado!) se intoxicam até a morte, seja na pele dos comerciantes que sofrem com a queda do turismo em suas praias emporcalhadas de piche. Mas de quem é a culpa, afinal? Apenas da BP? Ou da demanda mundial por energia? É a velha hipocrisia da condenação de traficantes. Eles só existem porque alguém socialmente ou psicologicamente doente consome e paga caro pela droga.

 

Não, a culpa é de toda a cadeia produtiva. E nós, coletivamente, somos responsáveis por tudo isso porque nos acomodamos na conveniência dessa dependência dos combustíveis fósseis como matriz energética. Primeiro o carvão, que abriu os caminhos para a Revolução Industrial, atualmente o petróleo e, se os alertas contra o aquecimento global decorrente da poluição atmosférica não mudarem os rumos da matriz energética mundial, o gás deve substituir o óleo (sorte da Bolívia e dos taxistas).

 

O fato é que, por enquanto, estamos na era do óleo e dependemos quase totalmente de sua exploração e do beneficiamento industrial de seus derivados. Olhe ao redor da sala, do ônibus ou de onde quer que você esteja agora, aponte qualquer coisa da qual você dependa direta ou indiretamente pra "sobreviver" que não tenha o dedo do petróleo e, conscientemente, atire a primeira pedra. Por enquanto, somos todos culpados, mas podemos e devemos nos redimir por meio da mudança de comportamento e hábitos de consumo. Mas isso só vem no longo prazo, com a educação de várias gerações e a consciência coletiva sobre a importância de equilibrar bem-estar social e qualidade ambiental - seja no mar, seja na terra, seja no quintal da sua casa.

 

* Frederico Brandini é professor titular do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP)

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