Nas ruas, uma tradição que vem desde 1776

Para historiador, o movimento Ocupar Wall Street reflete os anseios de larga faixa da sociedade americana e incorpora uma antiga prática que remonta aos tempos de Thomas Jefferson

CHRISTIAN SCIENCE MONITOR , JONATHAN ZIMMERMAN LECIONA HISTÓRIA , E EDUCAÇÃO NA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK. , É AUTOR DE SMALL WONDER: THE LITTLE RED SCHOOLHOUSE IN HISTORY AND MEMORY , (YALE UNIVERSITY PRESS), O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2011 | 03h07

JONATHAN ZIMMERMAN

A maioria dos manifestantes do movimento Ocupar Wall Street em Nova York e seus imitadores pelo país parece deliberadamente mal-ajambrada - como você estaria se estivesse dormindo num parque da cidade há vários dias. E alguns ainda estão vestidos como "zumbis corporativos", com o rosto pintado de branco, cantando "eu cheiro dinheiro". De modo que pode ser tentador para as pessoas acharem que são extremistas desajustados, à margem da sociedade.

Pense de novo. Tendo como alvo a corrupção e a cobiça corporativa, os manifestantes incorporaram uma tradição venerável do populismo americano ("populismo", neste artigo, tem sentido de participação popular, e não de prática demagógica). Desde a alvorada da república até um passado recente os americanos respeitam pessoas que trabalharam duro e denunciam os magnatas financeiros que mergulham como aves de rapina sobre elas.

Por mais imoderados ou excessivos que tenham sido seus protestos, eles provocaram algumas das nossas mais importantes reformas sociais, incluindo a regulamentação e o controle do próprio setor financeiro.

A começar com o autor da Declaração de Independência, Thomas Jefferson, que temia que uma "aristocracia endinheirada" prendesse a jovem nação em novas correntes. "Acredito sinceramente ... que os estabelecimentos bancários são mais perigosos que exércitos em posição de combate", Jefferson afirmou. E manifestou desdém especial pela especulação financeira, que rotulou de "uma espécie de aposta que destrói a moralidade".

Algumas décadas depois, Andrew Jackson denunciou o Second Bank dos Estados Unidos como, essencialmente, uma trapaça para enriquecer os abastados às custas do trabalhador. Ele também contribuiu para o fim de normas exigindo que uma pessoa tivesse propriedades para poder votar e ocupar um cargo, normas que, declarou com desprezo, "tornavam qualquer homem branco semelhante aos especuladores das bolsas, corretores e apostadores".

No final do século 19, quando grandes instituições financeiras começavam a se instalar em Lower Manhattan, o sentimento populista encontrou novo alvo: Wall Street. "Nome mais detestado não será encontrado no vocabulário da política americana", trovejou Tom Watson, nomeado candidato à vice-presidência pelo recém-criado Partido do Povo, em 1896. "Eis o que realmente é Wall Street: vemos aqui os verdadeiros dirigentes da república... O governo se inclina sob o tacão de ferro em cima do seu pescoço."

Cinco anos depois, quando Theodore Roosevelt chegou à Casa Branca, o populismo também ingressou na política mais conservadora americana. Na ala republicana, Roosevelt amaldiçoou os "malfeitores da grande riqueza" - especialmente os financistas de Wall Street - por corromperem a política americana. Do mesmo modo se manifestou Woodrow Wilson, porta-bandeira dos democratas, preocupado com o fato de que "todas as nossas atividades estão nas mãos de um punhado de homens".

Mas os ataques mais ferozes vieram do primo distante de Theodore Roosevelt, Franklin Delano Roosevelt, que assumiu a presidência em meio à pior crise financeira da história americana. Ele não tinha nenhuma dúvida sobre quem eram os responsáveis por ela: os próprios financistas.

"O problema principal dessa turma da bolsa de valores é ... sua incapacidade de entender o país, ou o público, ou suas obrigações para com seus camaradas", disse Roosevelt a um assessor. Na sua primeira "conversa ao pé do fogo" na rádio nacional, o presidente afirmou categoricamente que "pouco menos do que umas três dezenas de bancos privados" controlavam "todo o fluxo de capital americano".

Certamente, do seu lado mais sombrio, o populismo facilmente se encaminharia para a paranoia e o ódio, especialmente com relação aos judeus. O "banqueiro judeu" tornou-se a imagem símbolo para antissemitas como Henry Ford, o padre Charles Coughlin (o padre da rádio) e Henry Adams, romancista e historiador famoso.

Henry Adams escreveu em 1893 que "numa sociedade de judeus e corretores da bolsa, um mundo constituído de maníacos por ouro, eu não tenho lugar". Seu irmão, Brooks Adams, também um importante escritor, compartilhava o mesmo sentimento. "Roma foi um abençoado jardim paradisíaco apesar dos reles, assexuados, trapaceiros e mentirosos judeus, representados pelo JPMorgan e a gangue que tem manipulado nossa economia", disse Brooks a seu irmão Henry.

Franklin Roosevelt explorou os temores do país com Wall Street para estabelecer regulamentos para bancos e transações com títulos, e o governo federal se tornou o baluarte contra as trapaças financeiras. Mas o seu New Deal também marcou o ápice do populismo anticorporativo, que se dissipou na relativa prosperidade das décadas de 40 e 50.

Nesse ínterim, uma forma diferente de populismo começou a criar raízes. Incitado pelos conservadores no oeste, ele atacava o governo muito intervencionista, e não os grandes bancos. Em 1980, Ronald Reagan levaria esse populismo de direita para a Casa Branca. Como líderes anteriores, Reagan atacou uma força distante, sem rosto, que empobrecia o homem comum. Mas essa força alienígena era Washington, D.C., que substituíra Wall Street como pesadelo.

Quem conseguirá reverter essa fórmula, reconectando o populismo a sua história anticorporativa? Provavelmente não será Barack Obama, que tem se mostrado um bom liberal, mas um péssimo populista. Os liberais anseiam por muitas das coisas com que os velhos populistas sonhavam, especialmente um Estado controlador forte, mas também prezam o diálogo e o compromisso, duas falas favoritas de Obama. O populismo, pelo contrário, é uma linguagem da retidão e da ira: em vez de procurar um lugar comum, ele une os americanos na defesa dos seus direitos inatos contra tiranos e usurpadores. E essa não tem sido uma característica de Obama desde que ele assumiu a presidência.

Nos últimos anos, na verdade, apenas o Tea Party fez uso, com sucesso, da tradição populista. Mas usou seu poder de fogo quase exclusivamente contra o governo - e, na maior parte das vezes, contra o próprio Obama. Milhões de americanos ainda acham que o presidente Obama não nasceu nos Estados Unidos, o que o tornaria inelegível para a Casa Branca. Dizem que ele é um usurpador.

Você ouvirá afirmações igualmente absurdas nos protestos contra Wall Street, onde uma Declaração de Ocupação acusa as grandes empresas americanas de envenenarem os alimentos e perpetuarem o "colonialismo". Mas não deixe que declarações as mais extremas representem o todo, nem descarte os manifestantes como tipos esquisitos.

Numa pesquisa realizada em janeiro pela Public Policy Polling, a questão proposta para os americanos foi a seguinte: qual das duas declarações melhor representa sua opinião sobre a situação econômica atual: "A cobiça das empresas contribuiu para chegarmos à crise financeira e suas práticas precisam ser controladas para recuperarmos nossa economia"; ou "Agora não é hora de coagir as empresas, quando estamos tentando recolocar nossa economia nos trilhos". Você pode ficar surpreso ao saber que 59% das pessoas questionadas selecionaram a primeira declaração, enquanto 33% preferiram a segunda.

Essa pesquisa indica que os protestos contra Wall Street refletem as frustrações de uma grande camada da sociedade americana. Os manifestantes estão falando uma língua tão antiga quanto os Estados Unidos, convocando os cidadãos que estão enfrentando dificuldades a se libertarem do jugo das empresas privadas. A única questão, na verdade, é se nossos líderes ouvirão. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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