Nasa
Nasa

'Nebulosa' é uma ficção científica entre a memória e o futuro

Épico espacial é pensado para a geração atual, que encara a ciência com dúvidas e sofre as consequências disso

Cláudia Fusco*, Especial para o Estadão

24 de abril de 2021 | 15h00

As primeiras páginas de Nebulosa (editora Patuá, 2021), de André Cáceres, já revelam a paixão do autor por obras fantásticas. Ao seu modo (que contempla cenários interplanetários e cavalos robóticos), Cáceres presta homenagem a uma das introduções mais poderosas da literatura: o início de Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez. É a partir de uma bela memória de Dédalo, um das personagens centrais da trama, que mergulhamos nas particularidades desse universo, repleto de jogos políticos, tecnologia de ponta e vidas entremeadas.

As homenagens de Cáceres à literatura prosseguem com o avanço da narrativa. Algumas delas são nominais, como as Leis de Clarke, um clássico da ficção científica, que despontam em um momento crucial do texto. Outras são mais sutis, como a existência de um pequeno grupo científico-religioso que sustenta os mistérios do universo, assim como em Um Cântico Para Leibowitz, de Walter M. Miller, Jr. Além disso, é inevitável associar o uso da cliodinâmica, uma ciência do mundo real que integra diversos campos do conhecimento e é essencial à trama de Nebulosa, à psico-história de Fundação, obra elementar de Isaac Asimov. 

Para os amantes de mitologias, em especial a grega, Cáceres também dá algumas piscadelas narrativas que são verdadeiros tesouros. Ao leitor atento, essas referências podem, inclusive, dar pistas sobre o desfecho de alguns personagens da trama. Aqui, basta dizer que nenhum nome é escolhido em vão; tudo se encaixa nas bonecas russas narrativas de Nebulosa. Cáceres sem dúvida faz uso primoroso do caldeirão de histórias, elaborado por J.R.R. Tolkien: a cada vez que um conceito antigo é invocado em uma nova narrativa, traz consigo muitas camadas de significado. É natural que um personagem chamado Ícaro deseje voar. 

Mas não se engane – a obra passa longe de ser refém do passado da ficção científica ou dos mitos. Pelo contrário: Cáceres não demonstra hesitação em contrariar seus mestres até nas menores escolhas. Neste universo, por exemplo, armas a laser são interessantes, mas pouco funcionais. Não espere por cenas intermináveis de batalhas interestelares: o cerne da narrativa pulsa especialmente na troca de olhares, em diálogos afiados e no jogo político aflitivo entre indivíduos com interesses muito diversos. 

Os personagens, inclusive, são um acerto muito importante na obra de Cáceres. O autor nos entrega um universo repleto de personagens complexos, sem hesitar na representação do feminino dentro da obra. Ao contrário de Asimov, que raramente acertou nesse aspecto, Nebulosa é povoado por mulheres de diferentes tipos, índoles e vivências, sem apequená-las ao lado de grandes heróis, como a ficção científica do século 20 fez tantas vezes. 

Um outro destaque da obra certamente é a construção das complexas relações familiares entre os elementos centrais da trama. Intencionalmente, o autor nos deixa uma trilha de pão que seguimos, a princípio, sem questionar, até que as respostas gradualmente se revelem a partir de detalhes. Esse aspecto de Nebulosa transborda inspirações contemporâneas (e subversivas) da melhor qualidade. Seus twists narrativos, especialmente temporais, são uma surpresa deliciosa, que lembra em partes o trabalho da premiada autora N. K. Jemisin. 

Darko Suvin, um estudioso importante da ficção científica, nos aponta que toda boa obra de ficção científica nos provoca estranhamento cognitivo: a percepção de que há algo de errado naquilo que é familiar, ou que há algo de reconhecível até nas narrativas mais alienígenas. Enquanto lemos, questionamos. Se esse era o objetivo de Cáceres com Nebulosa, ele foi prontamente atendido, afinal, é uma narrativa deliciosa, com capítulos ágeis e fluidos, mas que desvelam muitos mistérios. 

Boa parte das provocações presentes na obra também se devem também a um subtexto, bastante sutil, de identificação com o tempo presente. Nebulosa é pensado para a geração atual, que encara a ciência com dúvidas e sofre as consequências disso. Os últimos capítulos da obra soam como um suspiro longo, um brinde triste às escolhas infelizes da sociedade contemporânea. 

Mas como uma caixinha de surpresas, o último capítulo de Nebulosa é esperançoso e emocionante. Isso nos deixa a sensação de que, acima de tudo, a obra de Cáceres é um trabalho de amor. Este amor está presente das mais diversas formas entre vários personagens, que anseiam por se reencontrarem em um universo, por vezes, hostil demais; amor pela memória da imaginação humana, seja ela representada pela ficção científica ou por deuses remotos; e por fim, amor ao conhecimento e à permanência da humanidade, que pode encontrar maneiras mais belas de encarar o futuro e tudo que ele nos reserva. 

*CLÁUDIA FUSCO É MESTRE EM ESTUDOS DE FICÇÃO CIENTÍFICA PELA UNIVERSIDADE DE LIVERPOOL, ESCRITORA E PESQUISADORA INDEPENDENTE DE FANTASIA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.