Nem os Simpsons escaparam

A esta altura, tanto faz ser personagem real ou imaginário: todos estão sujeitos às calamidades da recessão

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2009 | 22h14

Se ela causou estragos de Spokane a Key West, por que pouparia Springfield? Ela é a crise no mercado imobiliário dos Estados Unidos, e Springfield é a cidade dos Simpsons. Domingo passado toda a América ficou sabendo: a família mais famosa da televisão também perdeu sua casa por falta de pagamento da hipoteca. Lá se foi mais um sonho da casa própria.

 

Para sorte (e humilhação) dos Simpsons, seu vizinho Ned Flanders arrematou o imóvel (742 Evergreen Terrace) num leilão público e o alugou a seus antigos proprietários. Pelo menos sem teto, ao contrário de milhares de outros americanos vitimados pela farra dos financiamentos subprime, Homer, Marge, Bart, Lisa e Maggie Simpson não ficaram. Mas agora são meros inquilinos. Sem garantias de que o pior já passou. E se a usina nuclear em que Homer trabalha começar a demitir em massa? O que será da economia de Springfield se a cervejaria Duff fechar as portas?

Coitado do Homer. Uma semana antes de receber a ordem de despejo, sonhara com Marge, sua mulher, beijando uma amiga na boca; para ele, um pesadelo geneticamente fundamentado: Patty, a irmã mais velha de Marge, é gay. Mesmo aos trancos e barrancos - ou barracos (com Ned Flanders, os gays, o Brasil, os argentinos, até com a Apple) - o preconceituoso e cínico pater familias dos Simpsons e seu filho Bart sobreviveram aos vigilantes do politicamente correto; mas nem eles nem outros personagens do imaginário televisivo, membros da classe média ou da alta burguesia, anárquicos ou morigerados, desbocados ou puritanos, conseguiram se livrar dos efeitos do "reality blow", do choque de realidade que a crise econômica sobrepôs à voga (ou à praga, como queiram) dos "reality shows".

O ex-presidente Bush suspirava por uma América "mais próxima dos Waltons que dos Simpsons". Há controvérsias. Os Waltons eram uma família de cândidos rurícolas de Schuyler, na Virgínia, tentando sobreviver aos estragos da Grande Depressão, numa série de televisão de enorme audiência nos anos 1970. Se mais próxima de Homer e sua disfuncional prole, a América seria certamente mais divertida. Os Waltons ficaram uma década no ar; Os Simpsons acabam de emplacar duas. Os americanos fizeram sua escolha.

Se os Waltons ainda estivessem no ar, sua fazendola correria o risco de ser hipotecada. A essa altura dos acontecimentos, tanto faz ser um Walton ou um Simpson, morar na roça ou na cidade, em apartamentos ou condomínios: todos estão sujeitos às calamidades da recessão.

"A situação está preta em Wall Street e em Wisteria Lane", informou o New York Times de quarta-feira. Ou seja, complicada no epicentro do terremoto financeiro e no subúrbio habitado pelas bovaristas donas de casa da telessérie Desperate Housewives. Ninguém por lá hipotecou seu teto - por enquanto. Mas Susan Mayer, a desesperada esposa encarnada por Teri Hatcher, viu-se forçada pelos tempos bicudos a pegar um batente extra para ajudar o ex-marido a bancar a mensalidade escolar do filho do casal. E ainda é preciso sobrar algum para ela continuar indo à pizzaria Scavo's, que, com a debandada dos fregueses nos últimos meses, ameaça lacrar seu forno.

Em 2005, bem antes da quebradeira em curso, Paul Krugman fez um epitáfio da classe média americana, cuja renda, que dobrara entre 1947 e 1973, cresceu apenas 22% de 1973 a 2003. E depois estacionou. Só entre 2003 e 2004, os americanos mais ricos ficaram 17% ainda mais ricos.

(Esse "D'oh!" ao fundo foi um grunhido do Homer Simpson.)

Também há quatro anos Benjamin M. Friedman publicou uma ode ao crescimento econômico sem freios, atrelando o progresso e a felicidade geral do planeta a um mercado desregulamentado, fazendo coro com, entre outros, o colunista do Financial Times Martin Wolf, que meses antes publicara uma exaltação à globalização ("Why Globalization Works"), explicando como e por que ela funcionaria infalivelmente.

Wolf já se retratou de seu exagerado otimismo; com um travo pessimista que muitos de seus fiéis leitores talvez tenham considerado excessivo. Em sua coluna de domingo passado, Wolf decretou a superação irreversível da economia de mercado em vigor, tão obsoleta, segundo suas próprias palavras, quanto a revolução socialista. Friedman, contudo, continua nas encolhas. Não é o único. Jim O?Neill, principal economista da Goldman Sachs, que em julho do ano passado avisou à praça que as perspectivas econômicas eram as melhores possíveis ("The outlook is rosy"), tampouco se dignou a ir a Canossa.

Embalada pelo "rosy outlook", a televisão estimulou a gastança recomendada pelo presidente Bush depois do 11 de Setembro, através, sobretudo, de programas sobre o estilo de vida (& consumo conspícuo) dos ricos e famosos, nem sempre curtido pela classe média apenas vicariamente. Nenhum outro gênero de distração de massa captou melhor o zeitgeist cultural e econômico da era Bush do que esses shows de exibicionismo e apoteótico desperdício. A conta chegou, a era Bush acabou, mas, ao contrário do que aconteceu durante a Depressão de 70 anos atrás, o escapismo não dará a tônica à teledramaturgia da era Obama.

Seus previsíveis vilões já começaram a desfilar nas séries cômicas e dramáticas. Há dias, um financista yuppie, que até pouco tempo vivia de forma obscenamente nababesca, acabou mal na telessérie Law & Order, Unidade de Vítimas Especiais. Um sucedâneo do megaespeculador Bernard Madoff e uma versão nova-iorquina de Sérgio Naya apareceram, há pouco, em Lie to Me, da Fox. Ex-banqueiros ligados ao Lehman Brothers foram vistos procurando emprego sem maiores qualificações na comédia 30 Rock, da NBC. Em Flashpoint, da CBS, três mutuários sequestraram recentemente o executivo de uma firma de hipotecas, que os deixara ao deus-dará e embolsara US$ 22 milhões de bonificações salariais.

Outros da mesma espécie virão. A oferta de vilões, no mundo financeiro, continua superando a demanda.

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