'Netanyahu matou o processo de paz'

Para o ex-presidente americano Bill Clinton, o governo israelense distanciou-se da política de paz levada por Ehud Barak em 2000

FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2011 | 03h08

JOSH ROGIN

Quem deve ser acusado pelo fracasso permanente do processo de paz do Oriente Médio? O ex-presidente Bill Clinton declarou essa semana que a culpa é do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu - cujo governo mudou as regras do jogo ao assumir poder, razão chave para não se chegar a nenhum acordo de paz entre israelenses e palestinos.

Bill Clinton, numa mesa redonda com blogueiros, à margem da Iniciativa Global Clinton, em Nova York, fez um amplo relato sobre a deterioração do processo de paz no Oriente Médio desde quando ele pressionou ambas as partes para firmarem um acordo final em Camp David, em 2000. Clinton disse que hoje não há paz abrangente na região por duas razões principais: a relutância do governo Netanyahu em aceitar as condições do acordo de Camp David e uma mudança demográfica em Israel que está tornando a sociedade israelense menos receptiva à paz.

"As duas grandes tragédias na política moderna do Oriente Médio, que faz com que você se pergunte se Deus deseja a paz ou não na região, foram o assassinato de Yitzhak Rabin e o derrame cerebral de Ariel Sharon", disse o ex-presidente.

Ariel Sharon estava convencido de que precisava formar uma nova coalizão de centro, de modo que fundou o Kadima e conseguiu o apoio de líderes como Tzipi Livni e Ehud Olmert. Ele vinha trabalhando para obter consenso para um acordo de paz quando foi acometido pela doença. Todo seu esforço caiu por terra quando o Likud voltou ao poder.

"Os israelenses sempre reivindicaram duas coisas que acabaram conseguindo, mas não atraíram Netanyahu. Eles queriam ter certeza de que tinham num governo palestino um parceiro para a paz, e não há dúvida - e o próprio governo israelense já disse isso - que este é o melhor governo palestino que a Cisjordânia já teve", afirmou Clinton.

"Em mais de uma ocasião os líderes palestinos disseram claramente que, se Netanyahu apoiasse o acordo que lhes foi oferecido, o meu acordo, eles o aceitariam", disse o ex-presidente, referindo-se ao acordo de Camp David, em 2000, rejeitado por Yasser Arafat.

Mas o governo israelense distanciou-se muito da política adotada por Ehud Barak, que chegou tão próximo da paz em 2000, e hoje qualquer negociação com o governo de Netanyahu implica condições completamente diferentes - que os palestinos não se dispõem a aceitar.

"Por razões que, mesmo depois de todos estes anos, ainda não sei ao certo, Yasser Arafat rechaçou o acordo que apresentei e foi aceito por Ehud Barak", disse ele. "Havia um governo israelense que estava disposto a ceder Jerusalém Oriental como a capital do novo Estado da Palestina."

Israel também deseja uma normalização de relações com seus vizinhos árabes para acompanhar um acordo de paz. Bill Clinton disse que a Iniciativa de Paz Árabe, patrocinada pelos sauditas em 2002, representou uma resposta à reivindicação israelense.

"O rei da Arábia Saudita começou a reunir todos os países árabes para dizer aos israelenses que 'se vocês chegarem a um compromisso com os palestinos, imediatamente reconheceremos Israel como Estado e também lhes ofereceremos uma parceria política, econômica e na área de segurança'", afirmou Clinton.

"Essa era uma tremenda oferta!"

O governo Netanyahu recebeu todas as garantias exigidas pelos governos israelenses anteriores, mas agora não aceita essas condições para firmar a paz, disse o ex-presidente dos EUA.

"Agora que têm tudo o que pediram, parece que já não é tão importante para o atual governo de Israel, em parte porque é um país diferente. Neste ínterim, chegaram todos aqueles imigrantes vindos da União Soviética, que não têm raízes históricas em Israel, de modo que as reivindicações tradicionais dos palestinos não têm peso junto a eles."

Bill Clinton reafirmou o que disse na conferência do ano passado, que a sociedade israelense pode estar dividida em grupos demográficos que não têm o mesmo grau de entusiasmo para fazer a paz.

"Os israelenses mais defensores da paz são os árabes; em segundo lugar, os sabras, israelenses que nasceram ali; em terceiro os ashkenazi, judeus europeus que vieram de todo o mundo para Israel na época da sua fundação", afirmou Clinton. "Os mais contrários à paz são os israelenses ultraortodoxos, que acham que têm direito à Judeia e Samaria, os grupos de colonos e aqueles que você poderia chamar de territorialistas, pessoas que vieram recentemente para Israel e não têm uma ligação histórica com a região."

Bill Clinton afirmou que os Estados Unidos devem vetar a resolução palestina no Conselho de Segurança das Nações Unidas, que confere status de Estado para a Palestina, porque os israelenses precisam de garantias de segurança para aceitarem a criação desse Estado. Mas o governo Netanyahu rejeitou um consenso para a paz, o que tornou mais difícil um acordo final que conferisse o status de Estado para os palestinos.

"Foi o que ocorreu. Todos os americanos precisam saber disso, como chegamos ao ponto em que estamos. As pessoas realmente céticas acreditam que os constantes apelos do governo de Netanyahu no sentido de negociações no caso das fronteiras e assuntos afins significam que ele não vai ceder a Cisjordânia."

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