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Netflix acena para salas de cinema em busca da corrida do Oscar

Produtora lança filmes na tela grande antes do streaming, mas ainda há muita desconfiança em torno dessa estratégia

Ben Kenigsberg, The New York Times

24 Novembro 2018 | 16h00

Rompendo com sua posição de longa data, a Netflix anunciou no final de outubro que começaria a lançar filmes selecionados nos cinemas antes de colocá-los em sua plataforma de streaming, e não no mesmo dia. Mas para A Balada de Buster Scruggs, o novo filme dos irmãos Coen e o primeiro título da Netflix a ser distribuído dessa forma, o lançamento exclusivo em cinema foi uma espécie de miragem.

Nos Estados Unidos, o filme foi exibido em apenas três cidades – Nova York, Los Angeles e São Francisco – em um Cine Landmark em cada uma delas, e por apenas quatro dias, de 8 a 11 de novembro, em vez da semana padrão.

Anunciado com pouco mais de uma semana de antecedência, o lançamento cinematográfico da quinta-feira – que saiu de uma abertura simultânea para os streaming e cinemas em 16 de novembro – não foi bem divulgado. No Twitter, os espectadores reclamavam que o filme estava sendo exibido apenas em pequenos cinemas.

Após o fim de semana de abertura, qualquer um que quisesse ver o filme entre segunda e quinta-feira desta semana estaria sem sorte. (Na sexta-feira, o filme dos Coens foi relançado em alguns cinemas no mesmo dia em que começa a ser transmitido pela Netflix. Quanto ao número de ingressos vendidos na semana passada, a Netflix não divulgou informações sobre o faturamento bruto nas bilheterias.)

Para aumentar a confusão, o filme estreou na quinta-feira, e não numa sexta-feira, quando a maioria dos filmes é lançada domesticamente. Jared Gores, um podcaster e produtor de documentários na área da baía de San Francisco, leu a notícia do lançamento teatral repentino, mas ainda achava que o filme dos Coens seria lançado na sexta-feira. Ao comprar ingresso para outro filme, no Embarcadero Center Cinema, em San Francisco, naquela quarta-feira, ele viu que A Balada estava para entrar no dia seguinte.

“Foi uma coincidência que eu estivesse olhando para o lugar certo para vê-lo”, disse Gores.

Ele acrescentou, no entanto, que não tem um problema com o Netflix. “Eles colocaram dinheiro atrás de coisas que provavelmente não seriam nem feitas”, disse ele.

Para alguns – como o colunista de premiações do New York Times, Kyle Buchanan – a atenção recém-descoberta da Netflix à distribuição para cinemas é uma cortina de fumaça: um caso de criar a aparência de interesse nos cinemas para manter a próxima divulgação, como o bastante aguardado Roma, de Alfonso Cuarón, que estará na corrida do Oscar. Os eleitores da Academia até agora têm sido céticos em premiar os títulos da Netflix. Em três anos de competições, a empresa teve apenas um longa-metragem, o documentário Ícaro, levando para casa uma estátua.

Roma, lançado em 21 de novembro, será o próximo teste da sinceridade do interesse da Netflix nos cinemas e também das limitações de seu plano de lançamento. As principais redes de cinemas, incluindo a AMC e a Regal, disseram que não apresentarão os filmes produzidos pela Netflix, a menos que a empresa os coloque à disposoção para streaming depois de 90 dias de seu lançamento nos cinemas. A Netflix disse que lançará Roma nos cinemas em mais de 20 países, embora o número de cinemas ainda seja desconhecido. A empresa não respondeu às perguntas para este artigo.

A empresa também disse que planeja realizar exibições de Roma no formato raramente utilizado de 70 mm, um tratamento luxuoso e incomum para um filme que foi filmado digitalmente. Mas o número de salas disponíveis para essas apresentações é limitado. Em Nova York, por exemplo, exibições em 70 mm de Dunkirk e Trama Fantasma foram feitas no AMC Loews Lincoln Square – mas os cinemas da AMC estão de fora neste caso.

A rede Alamo Drafthouse, que não foi barrada pela Netflix, não exibirá Roma em seu cinema, que fica no Brooklyn, com capacidade para 70 mm. O fundador da rede, Tim League, disse em um comunicado que não estaria exibindo o filme por causa de “uma variedade de circunstâncias que incluem compromissos anteriores com outros parceiros de estúdio”. League acrescentou que esperava oferecer exibições selecionadas do filme em outros locais depois do Dia de Ação de Graças.

Dois lançamentos de dezembro, Mogli: Entre Dois Mundos, uma nova versão cinematográfica de O Livro da Selva, de Rudyard Kipling, com um elenco que inclui Benedict Cumberbatch e Cate Blanchett; e Caixa de Pássaros, um thriller estrelado por Sandra Bullock, também testarão o compromisso da Netflix com os cinemas. Tradicionalmente, eles serão lançados em milhares de cinemas – não em três.

O comediante Dan Telfer, que também viu Buster Scruggs na semana passada e recomendou a outros no Twitter que fizessem o mesmo, descobriu que sua sugestão foi recebida com perplexidade: as pessoas não tinham percebido que o filme havia sido lançado.

“Minha opinião é que eles não tinham planos e lançaram isso de última hora”, disse ele sobre a exibição do filme em Los Angeles. “Poderia ter sido um acontecimento, e não foi.” / Tradução de Claudia Bozzo

Netflix e os festivais

A 71.ª edição do Festival de Cannes foi marcada pela desistência da Netflix, que retirou cinco filmes da programação, entre eles O Outro Lado do Vento, inédito de Orson Welles. A polêmica ocorreu após declarações de Thierry Frémaux, diretor do festival, que afirmou que apenas os filmes lançados nas salas de cinema deveriam concorrer. Já Alberto Barbera, diretor do Festival de Veneza, que premiou Roma, de Alfonso Cuarón, produzido pela Netflix, afirmou que “Cannes defende o cinema do passado.”

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