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Nietzsche questiona a utilidade da história e prega esquecimento

'Sobre a Utilidade e a Desvantagem da História para a Vida' é ensaio recém-lançado do filósofo

Flávio Ricardo Vassoler*, Colaboração para o Estado

02 Setembro 2017 | 16h00

Em 1874, Friedrich Nietzsche publica o ensaio Sobre a Utilidade e a Desvantagem da História para a Vida (Editora Hedra, tradução de André Itaparica), ao longo do qual o filósofo alemão polemiza com algumas correntes historicistas – nomeadamente, a filosofia de Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) e suas influências sobre os hegelianos de esquerda, entre os quais despontaria o socialista Karl Marx (1818-1883). 

Para Nietzsche, os historicistas não teriam suportado a redução das igrejas a mausoléus após a morte histórica de Deus. Assim, a atribuição de um sentido para a história seria equivalente à exumação divina. Ao invés de um Deus que, amparado por um séquito de anjos, quase resvala a mão de Adão no teto da Capela Sistina, os historicistas elegem uma nova teodiceia, segundo a qual a história, como um processo teleológico e universal, tenderia à emancipação da humanidade. Nietzsche então nos diz que “os fenômenos, um após o outro, começam a escapar do acaso cego, da liberdade sem lei, para inserir-se harmoniosamente num todo coerente – que só existe na imaginação do historiador”. 

Como, em termos nietzschianos, a vida é uma torrente cega de eventos que não têm sentido algum – a não ser o sentido de nossa marcha para a morte –, a subordinação das pessoas à lógica historicista, segundo a qual fazemos parte de grandes processos universais (a revolução, a emancipação), tenderia a arrefecer a nossa vinculação com a única coisa que podemos vivenciar (e logo já não podemos), a única coisa que temos (e logo já não temos): o instante. Para Nietzsche, o historicista sempre à cata de fatos que demonstrem a logicidade histórica torna-se um legista do presente (que já está se esvaindo) para subordiná-lo ao passado como causa e ao futuro como previsão. 

Assim, o historicista equivaleria à formiga prudente (e ressentida) que, ao ouvir o canto ardente e apaixonado da cigarra, começa a adverti-la de que o inverno já vai chegar. 

Como antídoto para o veneno historicista, Nietzsche nos propõe a ontologia do esquecimento. Para o filósofo, “toda ação exige esquecimento, assim como toda vida orgânica exige não somente a luz, mas também a escuridão. Um homem que quisesse sentir as coisas de maneira exclusivamente histórica seria semelhante àquele que fosse obrigado a se privar do sono, ou a um animal que só pudesse viver ruminando continuamente os mesmos alimentos. É portanto possível viver, e mesmo viver feliz, quase sem qualquer lembrança, como o demonstra o animal; mas é absolutamente impossível viver sem esquecimento”. 

Se quiséssemos exercer o papel de advogados do diabo – papel bem propício à filosofia de Nietzsche –, poderíamos assumir algumas premissas do historicismo para questionarmos a noção nietzschiana de esquecimento. 

É bem verdade que, diante da vida a ser ceifada pela morte, o instante é a única coisa que nos resta (e logo nos abandona). 

Mas será mesmo possível vivenciar a paixão, com a alma da cigarra, esquecendo que nós gostaríamos que ela perdurasse para muito além de meros instantes? 

O animal talvez viva feliz sem qualquer lembrança. (Se fôssemos animais irracionais, nós não poderíamos dizer.) O animal social, por sua vez, é coagido a se lembrar: acossado pela fome e pelo desemprego; embrutecido pela competitividade e pela desconfiança, como é possível esquecer? (À revelia da noção nietzschiana de esquecimento – isto é, à revelia da entrega visceral ao instante vital –, a prescrição em massa de antidepressivos sentencia que nós já não precisamos nos lembrar.)

Ainda como advogados do diabo, podemos entrever temerários traços aristocráticos no pensamento de Nietzsche. O filósofo alemão nos diz que ainda “virá um tempo em que abdicaremos de elaborar uma história da humanidade, uma época na qual não se levarão mais em conta as massas, isto é, os anões ruidosos e turbulentos que se agitam aos pés dos verdadeiros indivíduos, os arquitetos da república dos gênios. O fim da humanidade reside somente nos seus exemplares superiores”. 

Ora, quando falamos de pintores italianos, filósofos alemães e escritores russos, a república dos gênios, de fato, parece o sentido da humanidade. As correntes mais progressistas do historicismo chegaram a imaginar que a humanidade como um todo um dia poderia conhecer Leonardo da Vinci e Michelangelo, Hegel e Nietzsche, Dostoievski e Tolstoi. Mas e se, entre os exemplares (supostamente) superiores, começarem a despontar estadistas belicosos, para os quais não levar em conta “os anões ruidosos e turbulentos que se agitam a seus pés” signifique aniquilá-los como moscas em guerras e câmaras de gás? 

Nesse caso, os sobreviventes dos mais diversos genocídios diriam a Nietzsche que o homem não é apenas um ser que se lembra. O homem, antes de mais nada, é um ser que não pode esquecer. 

*Flávio Ricardo Vassoler é doutor em letras pela USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA) 

Sobre a Utilidade e a Desvantagem da História para a Vida

Autor: Friedrich Nietzsche

Tradução: André Itaparica

Editora: Hedra

150 páginas

R$ 28,90

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FilosofiaFriedrich Nietzsche

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