Ninado com política

Escritor lembra convivência com a família de Campos, do futebol ao Movimento Armorial

Raimundo Carrero, O Estado de S. Paulo

16 Agosto 2014 | 16h00

“Eduardo, vai comprar a cerveja de Carrero.”

Por causa dessa frase – mais que um pedido, uma ordem –, o ex-governador de Pernambuco e candidato à Presidência da República, Eduardo Campos, passou a infância com raiva de mim. É que fui amigo do seu pai, o grande escritor pernambucano Maximiano Campos, e de sua mãe, Ana Arraes, e costumava visitá-los nos domingos pela manhã, quando Dudu jogava futebol com os amigos na década de 1970, ainda com 7 ou 8 anos de idade. O menino interrompia o jogo já irritado comigo, desejando que eu não aparecesse mais. Desde a noite anterior perguntava aos pais a que horas eu chegaria no domingo. Talvez para começar o jogo mais tarde... O episódio da cerveja foi revelado pelo próprio Eduardo durante a saudação que me fez em novembro de 2009, quando fui homenageado pela Bienal do Livro de Pernambuco, no Centro de Convenções, em Olinda.

A casa de Eduardo Campos ficava na Rua do Chacon, no bairro de Casa Forte, em frente à casa de Ariano Suassuna. Maximiano e Ariano, estudiosos e inquietos, passavam as tardes discutindo o destino do Brasil, refletindo sobre Euclides da Cunha, José de Alencar, Sérgio Buarque de Holanda e todos os grandes autores que procuraram desvendar o destino desta nação. Mais tarde, se juntaria a eles a presença definitiva de Miguel Arraes de Alencar, voltando do exílio e preparando-se para reassumir, em eleições apaixonadas, o governo de Pernambuco, de onde fora retirado pela força das baionetas. 

Foi nesse ambiente que Eduardo cresceu ao lado do irmão, Antônio. Quase de berço, portanto, os dois escutavam os pais conversarem sobre a política pernambucana e brasileira, com o surgimento do golpe militar em 1964 e a deposição do avô, Julião e as Ligas Camponesas, os partidos políticos e a solidariedade do povo pernambucano. Em meio a isso, devotavam-se a admirar os trabalhos dos artistas plásticos Gilvan Samico e Francisco Brennand, ainda mais estudados por Ariano Suassuna como exemplos de arte do Movimento Armorial, que o autor do Auto da Compadecida lançou em outubro de 1969.

O Movimento Armorial, aliás, causaria forte impressão no jovem Eduardo, que o defendia com unhas e dentes, tanto que o transformaria em programa de governo para a área de cultura durante suas gestões no governo de Pernambuco – de 2006 a 2010 e de 2010 a 2014 –, quando passou o bastão a seu vice, o deputado João Lyra Neto, para se candidatar à Presidência da República.

Mas, no pantanoso terreno político, nem tudo foram flores nessa trajetória. Voltando ao avô, tão logo recolocou os pés em Pernambuco Miguel Arraes mostrou seu interesse em retornar ao Campo das Princesas, “entrando pela mesma porta da qual saiu”, expressão que se transformou em mote popular, imediatamente rejeitado pelas lideranças políticas de esquerda de Pernambuco, entre as quais o então deputado federal Jarbas Vasconcelos. As dificuldade eram grandes. Ainda um pouco antes, Arraes teve que enfrentar uma eleição para deputado federal, lutando contra os políticos pernambucanos naquele bloco que se convencionou chamar de MDB autêntico. Trabalhou muito e reuniu todas as forças para conseguir a indicação, porque muita gente defendia a candidatura de Evaldo Cajá, jovem envolvido com grupos mais radicais. 

Até que o confronto se tornou inevitável no início da década de 1990, quando Eduardo foi lançado à disputa pela prefeitura do Recife. Era o candidato preferido do líder Arraes, para desgosto e discordância radical de Jarbas Vasconcelos. Tornou-se impossível uma negociação de paz. E Eduardo mostrava-se determinado e decidido na luta pelo cargo, embora tenha ficado apenas no quinto lugar, com a vitória de Jarbas. A partir de então deixava de ser o “neto de Arraes” para se tornar Eduardo Campos, com todas as qualidades e todos os defeitos naturais de um líder político. Eduardo não admitia, por exemplo, qualquer discordância ou divergência, mesmo com a incrível habilidade para costurar acordos com os adversários e partidos opositores. Afastava com facilidade quem tentasse interromper sua trajetória. Mostrava-se fiel e compreensivo com os amigos e correligionários, mas duro e difícil com os opositores e infiéis. Em nenhum momento cedeu aos caprichos de Jarbas, em quem via um opositor vigoroso, embora nos anos mais recentes tenham mantido um relacionamento civilizado e correto. 

Além de determinado, Eduardo era forte nas suas convicções. E não negociava princípios.

Raimundo Carrero é escritor, autor de A Minha Alma é Irmã de Deus (Prêmio São Paulo 2010 e Prêmio Machado de Assis)

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