The Criterion Collection
The Criterion Collection

No baú do YouTube, cineastas consagrados participam de brincadeira cinéfila

Nomes como Guillermo del Toro, Edgar Wright, Barry Jenkins e Bong Joon-ho escolhem seus filmes favoritos da Criterion Collection em vídeos curtos

Luiz Nazário*, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2020 | 16h00

Um dos programas mais fascinantes para um cinéfilo fazer na quarentena é assistir aos Closet Picks da Criterion Collection no YouTube. Trata-se de uma brincadeira culta que é um misto de teatro da crueldade, programa de auditório da TV do tipo “leve tudo o que conseguir agarrar”, listas improvisadas dos melhores filmes de todos os tempos (segundo cada ator e diretor) e ensaio de psicanálise vertical dos homens e mulheres do cinema. 

As regras do jogo não são muito claras. Quantos DVDs o cinéfilo pode levar? Quantos minutos ele pode ficar no closet fazendo suas escolhas, os seus picks? A maioria parece acatar a suposta regra de que podem escolher cinco ou seis de seus filmes favoritos “ao vivo” num prazo médio de cinco minutos. Outros – como o filósofo cinéfilo Slavoj Zizek – quebram a regra e escolhem seus filmes antes da gravação: passam uns 40 minutos fazendo seus picks e depois dedicam os 5 minutos gravados aos comentários dos filmes.  Há quem seja modesto e pegue apenas dois ou três filmes, como o ator Alec Baldwin, que se encontrava de passagem por Nova York atuando numa peça da Broadway; ou o cineasta alemão Volker Schlöndorff, que conta já estar de retorno à sua casa com uma mala pequena. 

Outros se entregam à gula cinéfila e enchem sem qualquer pudor suas sacolas, como o diretor sul-coreano Bong Joon-ho, o cineasta negro Barry Jenkins, os independentes irmãos cineastas Josh e Benny Safdie – geralmente artistas jovens e ambiciosos, que ainda não possuem um grande acervo. O diretor mexicano Guillermo del Toro, por exemplo, foi modesto: levou apenas meia dúzia de DVDs, pois já havia adquirido toda o acervo da Criterion... 

O jovem cineasta argentino Matías Piñeiro – que encheu sua sacola até a borda – sentiu-se num programa de auditório de seu país, no qual o convidado tem apenas cinco minutos para levar o que puder de um supermercado: “Estou certo que um programa desse tipo deve ter aqui também”, apostou. Há em todo mundo, pois assisti criança a programas assim e até hoje os brasileiros podem ver a atração requentada em Comprar é Bom, Levar é Melhor no Domingo Legal do SBT. Ou seja, o Closet Picks da Criterion Collection é a versão intelectual do clássico da fantasia televisiva de terror psicológico do consumismo.

Um dos cinéfilos mais desesperados – e com o qual eu mais me identifico – é o extraordinário cineasta marginal canadense Guy Maddin, que vai jogando para dentro de sua sacola todo DVD que vê pela frente fechado no Closet dizendo “Bag!” (Sacola!). O seu foi o primeiro das dezenas de Closet Picks que vi ao longo dos anos, e o mais engraçado de todos para mim até hoje. Não canso de ver e rever.

Enquanto escolhem os DVDs e Blurays Criterion de seus filmes prediletos, que os marcaram de uma forma ou de outra, ou que desejam presentear alguém especial, os cineastas e atores recordam pequenos eventos e histórias pessoais encantadoras pelo simples fato desses cinéfilos serem quem são. 

O jovem cineasta britânico Edgar Wright ao ver o DVD de Os Olhos sem Rosto (Les Yeux sans Visage, 1960), de Georges Franju, contou que seu pai sempre lhe falava do filme mais horripilante que vira em toda sua vida: um filme francês, em preto e branco, sobre um cirurgião que retirava os rostos de jovens sequestradas para transplantá-los no da filha desfigurada num acidente de carro, em cenas de puro horror. Só não conseguia lembrar o título. 

Cinco anos atrás, ao ver o filme de Franju num cinema, Wright descobriu ser aquele o tão espantoso filme mencionado por seu pai. Tudo se encaixava. Telefonou então triunfante para ele dizendo: “Pai, descobri o nome daquele seu filme. Ele se chama Os Olhos sem Rosto”. Mas o pai respondeu: “Não... O título do filme não é esse, não...”. Agora ele poderia presentear o pai com o DVD para provar que aquele era o título do filme, sim.

Outra pequena história maravilhosa é contada por Philip Kaufman ao tocar no Box Jean Renoir da Criterion: “Certa vez, num cinema de Los Angeles, cheguei um pouco atrasado para a estreia de um filme, e me sentei, afobado, ao lado de um senhor alto. O filme já começava quando outro senhor atrasado disse para a pessoa ao lado: “Olá, Fritz”. E esse respondeu: “Olá, Jean”. Então eu percebi, de um golpe, que estava sentado ao lado de Jean Renoir e de Fritz Lang!”

Ter nas mãos o DVD de uma obra-prima do cinema é como tocar com os dedos algumas de nossas memórias mais preciosas, trazendo novamente à tona, juntamente com essas memórias, as emoções decantadas que permanecem vivas no fundo de nossas almas, de quando vivemos o momento mágico e irrepetível de ver os filmes que marcaram nossas vidas na tela escura do cinema. 

Levar para casa o DVD do filme amado traz ao cinéfilo a ilusão tão necessária à sua esperança de que ele pode de alguma forma preservar vivas as emoções que experimentou ao vê-lo pela primeira vez, ainda que de forma espúria e solitária, antes que elas desapareçam para sempre, “como lágrimas na chuva”. 

É o que explica a emoção autêntica que vemos nesses jovens e veteranos cinéfilos caindo na armadilha do Closet da Criterion Collection, que parece pedir a crianças agitadas que se comportem como adultos diante de uma montanha de doces deliciosos que lhes são oferecidos, podendo retirar dela e levar consigo para casa apenas meia dúzia dessas guloseimas.

*LUIZ NAZARIO É PROFESSOR DE TEORIA E HISTÓRIA DO CINEMA NA UFMG E AUTOR DE ‘O CINEMA ERRANTE’ (PERSPECTIVA)

 

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