Museu Hermitage
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No bicentenário da morte de Napoleão, a França redescobre Joséphine Bonaparte, sua mulher

Enigmática mulher, cuja vida se entrelaçou intrinsecamente com a de Napoleão, permanece silenciosamente marginalizada, mas sua história tem muito a dizer sobre conflitos de gênero, raça e poder

Barbara Noe Kennedy, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2021 | 10h00

Correções: 02/09/2021 | 14h17

A estátua retratava uma mulher elegante num vestido imperial com curvas fluidas - Joséphine Bonaparte, a mulher de Napoleão Bonaparte, que encomendou essa estátua quando da morte dela em 1814. Inaugurada em 1859, a obra se encontrava em meio à beleza idílica de um parque na cidade natal de Joséphine, em Fort-de-France, Martinica, até 1991, quando manifestantes antirracistas a decapitaram. Eles a pintaram com tinta vermelha cor de sangue e gravaram as palavras crioulas “Respe ba Matinik. Respe ba 22 Me” (Respeite a Martinica, Respeite 22 de maio) no pedestal. Essa foi a data em que uma rebelião em 1848 finalmente pôs fim à escravidão na Martinica, território ultramarino no Caribe que continua parte da França.

A estátua sem cabeça permaneceu no local até um ano atrás, quando uma multidão enfurecida a derrubou.

Este ano, a França comemora o bicentenário da morte de Napoleão, ao passo que esta enigmática mulher, cuja vida se entrelaçou intrinsecamente com a de Napoleão, permanece silenciosamente marginalizada. Mas Joséphine nos lembra os conflitos de gênero, raça e poder dos tempos atuais. Vários locais, na Martinica, Itália e França, lembram sua história.

Tudo começou na Martinica, onde Marie-Josèphe-Rose Tascher, de La Pagerie, nasceu em 1763, num canavieiro em Les Trois-Îlets. Hoje, tudo o que restou da riqueza de La Pragerie foram as ruínas de uma usina de açúcar, reformada para dar lugar ao Museu de la Pagerie. Essa era a casa da infância de Joséphine, que ela lembrava com saudade quando a trajetória da sua vida a levou para a França e o centro da monarquia. A cozinha da família foi convertida num museu que mostra sua vida, incluindo sua cama e as cartas de amor de Napoleão.

“Ela sempre foi uma mulher das ilhas”, disse Élisabeth Caude, diretora do Museu Nacional do Château de Malmaison, residência amada de Josephine no subúrbio de Paris. “Ela tinha um sotaque, e como crioula, uma certa displicência”.

Próximo dali, La Savane des Esclaves, museu que abrange casas de pau a pique, é chamada de Williamsburg da escravidão, que foi abolida na Martinica em 1794, e reinstalada por Napoleão no início dos anos 1800 até a rebelião de 1848. Algumas pessoas acreditam que Napoleão tomou essa decisão para ajudar a plantação da família de Joséphine, em dificuldades, e que o envolvimento implícito dela em permitir que a escravidão continuasse explica a destruição da sua estátua.

“Não é impossível que ela tenha usado sua influência (para perpetuar a escravidão), disse o chefe da divisão de documentação, Christophe Pincemaille, num dossiê postado no site do museu Malmaison.

Aos 16 anos, os pais de Joséphine a enviaram para a França para se casar com Alexandre de Beauharnais, com o objetivo de salvar o pai da crise financeira. Ela se tornou a viscondessa de Beauharnais e teve dois filhos. Seu marido gostava de se divertir com amantes, assim ela aprimorou seus encantos e se tornou uma das grandes socialites de Paris (e famosa por seus próprios casos tempestuosos com homens influentes).

Tudo isso mudou com a chegada da Revolução Francesa. Seu marido foi decapitado e ela foi presa, salva da guilhotina no último minuto com o fim abrupto do Reinado do Terror, em 1794.

No ano seguinte, ela conheceu um homem corso magro e desajeitado chamado Napoleão, que havia se tornado figura proeminente nos últimos dias da revolução. Desesperada por um casamento conveniente, ela usou toda a sua sensualidade para o seduzir. Ela tinha 31 anos, seis anos mais do que ele, com dentes podres por causa da cana de açúcar (que ela ocultava com um sorriso de boca fechada), mas com sua figura lendária e os seus arrojos sociais, ele não teve chance.

“Sua imagem e os prazeres intoxicantes da última noite não deram descanso aos meus sentidos”, Napoleão escreveu.

Um ano depois, eles se casaram e ela adotou o nome Joséphine a pedido dele.

De 1796 a 1797, o casal residiu no Palazzo Tornielli, perto de Torino, onde Napoleão assinou um acordo de paz entre a República de Gênova e a Primeira República Francesa. No período em que ali estiveram, Napoleão encomendou um retrato nupcial do pintor neoclássico italiano Andrea Appiani, intitulado Josephine Bonaparte Crowning the Myrtle Tree, 1796, retratando uma jovem donzela grega num vestido largo de musselina. A pintura hoje pertence à galeria Robilant+Voena (de acordo com o site da instituição, a pintura está à venda), embora o Château de Malmaison tenha um esboço preparatório da obra. A residência, aberta como uma pousada, continua quase a mesma, sua essência viva nos afrescos do século 18 na sala de jantar e um adorável caramanchão de glicínias.

Quando Napoleão ascendeu ao poder, ele criou diversas residências reais, incluindo a de Fontainebleau, que reformou pouco antes da sua coroação em 1804. As sedas nas paredes do quarto de Joséphine pertenceram à rainha Maria Antonieta, que morreu na guilhotina, e estão adornadas com instrumentos musicais, flores e perdizes com seus filhotes - lembrete nada sutil do papel importante de Joséphine de gerar herdeiros.

Quando Napoleão foi coroado imperador, em 2 de dezembro de 1804, na Catedral de Notre-Dame, Joséphine se tornou imperatriz. Jacques-Louis David, o mais influente pintor da época, registrou a ocasião num grande quadro, A Coroação de Napoleão, hoje à mostra no Louvre, retratando uma Joséphine jovem e bela, mas ela tinha 41 anos na época, com um vestido de renda, se ajoelhando, numa posição submissa com o marido lhe entregando a coroa de imperatriz.

Mas ela e Napoleão não tiveram filhos. Nas suas tentativas para engravidar, os médicos a encorajaram a “experimentar as águas” de Plombières-les-Bains, no leste da França. Nas Termas de Napoleão, que abrirão em 2022 depois de uma reforma, os visitantes poderão compartilhar vários tratamentos com água que Joséphine usou no final do século 18.

Mas por mais que ela tenha adorado a pequena cidadezinha, as águas não ajudaram. Sua relação atribulada, que também sofria com os casos extraconjugais de ambas as partes, os seus gastos vorazes e ciúmes, estava condenada. O casamento foi dissolvido em 1809 numa cerimônia na Sala do Trono, que foi demolida, no palácio das Tulherias em Paris.

Mas sobretudo, o lugar que transpira Joséphine é o Château de Malmaison, palácio nos arredores de Paris que Napoleão lhe ofereceu e onde ela se refugiou após o divórcio. Ela está sepultada numa igreja perto dali.

“Tudo em volta lembra Joséphine em Malmaison”, disse Elisabeth Caude.

Aquele foi o lugar em que ela foi mais feliz e sua marca está impressa em tudo: no seu quarto suntuoso em vermelho e ouro, seu boudoir e no closet onde guardava suas roupas, onde mantinha um desfile crescente de vestidos, sapatos e luvas. E especialmente o seu jardim. Ela importou plantas do mundo inteiro, e também animais como pavões, cangurus e a primeira zebra da Europa.

Quando morreu de pneumonia em 29 de maio de 1814, aos 50 anos, Napoleão, agora exilado, foi informado que ela morrera de desgosto. “Ela realmente me amou, não?”, ele teria supostamente respondido.

Assim, no 200º aniversário da morte de Napoleão, o que será lembrado da vida de Joséphine? Ela deveria ser lembrada como a sobrevivente que escapou por pouco da guilhotina e acabou se tornando uma das mulheres mais poderosas da França, talvez do mundo? Uma mulher que criou tendências de um gosto refinado, popularizou os vestidos do império, desenvolveu novas variedades de rosas e se tornou a primeira a decorar uma sala com um tapete com a figura de um leopardo? Uma vítima que foi marginalizada por um homem poderoso porque não conseguiu lhe dar um filho? Ou uma pessoa responsável pela escravidão que não usou seu poder para assegurar um fim permanente de uma instituição desumana cruel?

Como muitas coisas da história, é complicado. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Correções
02/09/2021 | 14h17

Diferente do que foi publicado originalmente, Napoleão foi coroado imperador em 2 de dezembro de 1804, e não em 1904.

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