Universal Pictures
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No bicentenário de 'Frankenstein', livros analisam legado de Mary Shelley

Livro clássico deu origem à ficção científica moderna e foi adaptado para o cinema diversas vezes

The Economist

24 Fevereiro 2018 | 16h00

Era, literalmente, uma noite escura e tempestuosa. A erupção do Monte Tambora, na distante Indonésia, havia deixado a Europa sob uma pesada e insistente nuvem. O ano de 1816 seria conhecido como “aquele sem verão”. Chovia nas margens do Lago Genebra na noite de meados de junho em que cinco jovens se reuniram numa luxuosa villa para uma singular competição: criar histórias de fantasma. 

O anfitrião do encontro, Lord Byron, aos 28 anos já era um superastro. Escondia-se de um escândalo na Inglaterra. Com ele estava John Polidori, médico de 20 anos, um desses ambíguos agregados atraídos pelas luzes da fama. A eles se uniram no jantar três jovens ingleses descolados. Eram Percy Bysshe Shelley, poeta de 23 anos de quem o público pouco ouvira falar; sua namorada, Mary Goodwin, de 18 anos, solteira, mãe de dois filhos de Shelley. O terceiro do trio era uma meio-irmã de Mary, Claire Claremont, também de 18 anos, que vinha dormindo com Byron e provavelmente também com Shelley. 

O desafio literário produziu duas ideias que se tornaram dois clássicos góticos. Um deles foi O Vampiro, de Polidori, originalmente pensado como a sátira a Byron e à natureza devoradora da celebridade. O outro, de Mary, que se tornaria infinitamente mais famoso, contava a história de um cientista que criou um humanoide a partir de partes de cadáveres. Durante a competição à beira do lago, Mary chegou a se sentir inibida pelos afetados companheiros homens. Mas estava determinada a prosseguir. Nas semanas seguintes, a história se tornou Frankenstein, publicado pela primeira vez há dois séculos, em 1818.

Poucos romances tiveram um começo tão mítico e poucos ganharam o status de mito como Frankenstein. O livro deu origem à moderna ficção científica e vem sendo recontado à exaustão de diferentes formas – talvez apenas O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, e Drácula, de Bram Skoker, tenham se mostrado tão férteis. Cada geração de seus leitores encontra novas alegorias das ansiedades e ambições do que tomam por modernidade. O monstro que cada um vê é um reflexo de si mesmo. No entanto, no centro da história, bem como na biografia de Mary, estão loucuras e medos primais.

A vida de Mary é contada com conhecimento e empatia por Fiona Sampson em In Search of Mary Shelley, o mais engajado de uma safra de livros publicados para marcar o bicentenário do romance. Mary Shelley (como logo passaria a ser chamada) nasceu na aristocracia radical de sua época. Os pais eram ilustres e intimidadores: William Godwin, filósofo-guru, e Mary Wollstonecraft, uma pioneira do feminismo. A mãe morreu logo após o nascimento de Mary, vítima de uma infecção pós-parto que a medicina de então não podia curar. Esse trágico prenúncio reaparece no romance, que descreve os perigos da paternidade e uma criatura que destrói o pai.

Ao contar a imaginária história de um ser jogado na vida por Victor Frankenstein, Mary chega aos limites da ciência da época, incluindo o galvanismo e a eletricidade. De fato, como Kathryn Harkup mostra em Making the Monster, ela esboçou sua trama como se a própria ciência estivesse sofrendo as dores do parto. No ano da publicação do romance, foi feita uma experiência na qual correntes elétricas passavam através de um cadáver numa fracassada tentativa de ressuscitação. O cadáver sofreu convulsões e seus dedos se torceram. Mas ele continuou resolutamente morto – ao contrário do monstro de Frankenstein.

“Com uma ansiedade que chegava quase à agonia, reuni os instrumentos a minha volta com a intenção de arrancar uma centelha de vida da coisa inerte a meus pés... No que restava da luz quase apagada, vi os olhos baços da criatura se abrirem; ela respirava pesadamente, e um espasmo convulsivo agitava seus membros.” 

As preocupações do romance com o lado obscuro do progresso nunca tiveram tanta ressonância quanto no século 21. As questões levantadas pelo surgimento da vida artificial não são mais hipotéticas. Modificações genéticas e robótica tornaram-nas urgentes. Essas analogias são delineadas em Frankenstein: How a Monster Became an Icon, uma coletânea de ensaios editada por Sidney Perkowitz e Eddy von Mueller. O livro inclui um oportuno sumário da posição atual de cientistas sobre o conjunto de técnicas comumente conhecidas como “brincar de Deus”.

Através dos séculos, o monstro tem sido evocado como metáfora da transformação. A mãe de Mary foi a Paris com um espírito de idealismo democrático para acompanhar a Revolução Francesa, mas ficou traumatizada pelo Terror. No livro, essa experiência se reflete na rebelião do monstro. Em 1874, um cartunista americano retratou a ferrovia como um “monstro do capital”, atropelando os direitos da gente humilde em seu caminho. 

Enquanto Frankenstein perdia o controle sobre sua criatura, a história de Mary espalhava-se pelo mundo de um modo que ela nunca poderia imaginar. Num livro com belas ilustrações, Frankenstein: The First Two Hundred Years, Christopher Frayling mostra parte do legado de Mary. O livro reúne uma rica coleção de imagens, incluindo desenhos das primeiras produções dramáticas baseadas na história. Em 1823, o público londrino ficou hipnotizado pela performance do mímico Thomas Potter Cook, que representou o monstro usando um colante azul e uma minitoga, com o rosto pintado de verde e amarelo.

Em grande parte do século 20, Frankenstein foi associado à imagem do ator Boris Karloff. No célebre filme em preto e branco de 1931, Karloff representou o monstro usando parafusos no pescoço. O monstro de Mary no entanto, não está confinado a livros, teatro e cinema. Toda vez que uma criança estica os braços e imita um andar trôpego e aos arrancos, ele volta a viver. Frankeinstein entrou no imaginário como personificação do medo e do perigo. 

Quem lê pela primeira vez o romance esperando algo como um filme B de horror por ele inspirado se surpreende com uma narrativa complexa e erudita. Mary foi discípula do pai filósofo e, apesar de toda ciência envolvida, a preocupação básica do romance é ética. A descrição do nascimento do monstro, que se tornou a principal cena dos filmes, na verdade é bastante superficial. O objetivo principal da obra foi explorar a ideia – derivada de John Lock – do recém-nascido como tabula rasa, do caráter sendo mais determinado pela experiência que pelas qualidades inatas. Mas, como a criatura é desprezada e privada de freio moral, se torna monstruosa e busca vingança. “Eu era bom e tolerante”, diz, pateticamente, a Frankenstein. “A miséria fez de mim um monstro. Devolvam-me a felicidade e voltarei a ser virtuoso.” 

O erro comum de chamar de Frankeinstein o monstro e não seu criador pode ser explicado não apenas pela falta de nome da criatura no romance, mas também pelo fato de, na primeira peça de sucesso no teatro o personagem vir designado simplesmente como “...”. Entretanto, mais que consequência de um erro, a troca de nomes captura a simbiose de dois conceitos: o da crueldade mútua entre filhos rebeldes e pais omissos e o da eterna verdade do abandono e suas sequelas. / Tradução de Roberto Muniz

Leia mais. O escritor iraquiano Ahmed Saadawi, laureado em 2014 com o Prêmio Internacional para a Ficção Árabe, tomou emprestado o monstro de Mary Shelley para explorar os efeitos da guerra ao terror promovida no Iraque pelos Estados Unidos. No livro ‘Frankenstein in Baghdad’ (2018, Oneworld Publications, £12.99), Hadi é um comerciante de sucata que encontra um nariz na rua e o leva para casa, onde o encaixa no rosto de um defunto mutilado, uma das muitas vítimas da violência no país. Ele faz isso para que o morto tenha um enterro digno, mas o espírito de uma vítima de um atentado terrorista acaba por se apossar da criação, que ganha vida e foge enquanto Hadi está dormindo. / André Cáceres

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