Fotomontagem: Alex Freitas
Fotomontagem: Alex Freitas

No campo: a dança dos Ronaldos

Alternância dos craques: como o futebol expõe valores que a vida embaralha, confunde, oculta, perverte

José Miguel Wisnik*, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2009 | 22h45

Os deuses do futebol recente inventaram uma dinastia de Ronaldos a se suceder no posto de Número Um do mundo: Ronaldo Nazário, Ronaldo Gaúcho e o craque português Cristiano Ronaldo. A coincidência dos nomes faz ver com certa ironia a alternância de subidas e descidas, a gangorra cruel das ascensões e dos declínios, a constelação de sagração e desgraça com que o futebol dá um sabor mítico à concorrência desenfreada do capitalismo contemporâneo.

Enquanto as jogadas financeiras, as metas empresariais e os deslocamentos do capital são restritivos, implacáveis e impalpáveis ao alcance da maioria, o campo de futebol é a grande tela reconhecível em que a ação humana, o acaso e o destino contracenam de maneira lúdica e trágica, épica e dramática, cômica e lírica. Com todo o peso do mercado, nele é ainda a medida humana, coletiva e individual, física e mental, que testa seus limites, e é a performance visível, em jogo com os acasos e com o poder decisório e implacável do apito final, que dirá o que pode a sorte e o valor de cada um.

Em certa medida, o futebol torna verificáveis os valores e os méritos que a vida embaralha, confunde, oculta, perverte. Mas o futebol só faz isso até certo ponto: ele é o jogo de bola mais sujeito à interpretação, ao questionamento do feito e do mérito, à discussão da justiça e da injustiça de um resultado, à disparidade das preferências por diferentes estilos, à distorção imaginária. Toda essa nebulosa de demandas pelo reconhecimento converge na figura do jogador máximo, cuja eleição é a forma atual do fetiche idolátrico: nela, a cabeça coroada é posta a prêmio para ser cobrada e negada com a mesma virulência da sua consagração. Pois se o Número Um é, na sociedade da concorrência, o lugar mítico por definição, o limite que ele alcançou, sendo inultrapassável, é quase que necessariamente o trampolim da sua desgraça, já que dele não se aceitará mais a "áurea da mediocridade", a volta pacífica ao patamar da mediania - é o holofote ou o ostracismo, a idolatria ou a difusa maldição (onde foi parar Rivaldo, por exemplo?).

Essa dança alternada, sujeita a alturas e quedas correspondentes - a que temos assistido cada vez mais - ganha um colorido sem igual na figura de Ronaldo I, o Fenômeno. Sua história e seu mito, que dão um novo giro com a volta ao Brasil jogando pelo Corinthians, insistem na sua quase inacreditável capacidade de ressuscitar quando tudo parecia dado já por findo.

Ronaldo foi o primeiro emblema da era do futebol globalizado: quando a Nike buscou o perfil de um jogador emergente inequívoco, capaz de corresponder ao que fora Michael Jordan para o basquete, que projetasse mundialmente a marca perante as novas audiências conquistadas pela televisão a cabo, não encontrou ninguém melhor do que ele, que jogava então no Barcelona, para cumprir o papel. Chegou à Copa de 1998 nesse lugar de máximo prestígio, em plena ascensão da Roda da Fortuna, indo cair no entanto na famosa "convulsão" logo antes da partida final daquela Copa, em que o Brasil perdeu da França por 3 x 0. Dois anos depois sofreu uma contusão gravíssima no joelho direito que o manteve afastado por mais de um ano do futebol, para o qual renasceu, no entanto, na Copa seguinte, vencida pelo Brasil e tendo nele seu grande protagonista artilheiro. Segue-se um período menos brilhante, em que um menor vigor físico parece apontar difusamente na direção da decadência, indicação que o famigerado excesso de peso na Copa de 2006 converteu em motivo de chacota. Às sucessivas pequenas contusões, no seu período final no Milan, sobreveio então uma nova contusão de gravidade máxima, desta vez no joelho esquerdo, que mais uma vez parecia tirá-lo definitivamente de campo. Foi durante esse segundo exílio que se costurou seu retorno ao Brasil, numa aposta que tinha tanto de oportuna engenharia de imagem como de futebolisticamente duvidosa.

Uma vez em campo, no entanto, Ronaldo ressuscitou, não só a si mesmo - mais uma vez -, mas a comoção nacional, que parecia extinta, de ter um dos maiores craques de sua história disputando campeonatos brasileiros. A primeira impressão, quase constrangedora, de um corpo roliço demais, deslocando-se com certa dificuldade, embora imediatamente clareando espaços, chutando com uma fulminância inesperada e, logo, conquistando gols (como o primeiro, dramático e milimétrico, de cabeça, contra o Palmeiras no último minuto do segundo tempo), alimentava ainda a galhofa. Galhofa esta que foi pulverizada na segunda partida das semifinais do campeonato paulista, contra o São Paulo, quando, lançado na corrida, deixou o zagueiro comendo poeira - num paradoxo análogo ao da lebre e da tartaruga, traduzido para algo assim como o do cavalo e do hipopótamo, que se transformasse no entanto em garça, trocando de pé na hora exata do arremate perfeito no único vão possível deixado pelo goleiro que fechava o ângulo.

Os dois gols contra o Santos no domingo passado, por sua vez, arremataram o mito da volta. A matada antológica de um chute a esmo do meio do campo que lhe chega ao pé esquerdo completamente amansado pelo direito e já pronto para a conclusão fulminante, no primeiro caso, e o desfecho por cobertura de fora da área, no segundo, num desses relances em que o mundo inteiro só realiza o perigo de gol quando a bola já desce mansamente para as redes, acabaram com qualquer veleidade de objeção. A perfeição refinada da parábola que a bola traçou é inseparável do efeito surpresa: nada no movimento do chute prometia um arremate mortal daquela distância, e Ronaldo, ao chutar, não se deu ao luxo de "avisar" o goleiro Fábio Costa, olhando-o (já tinha olhado o suficiente um instante antes e durante todo o primeiro tempo da partida).

A palavra "gordo" passou a desfrutar então daquela ambivalência afetiva e festiva dos signos que polarizam no seu contrário. Enquanto a nação corintiana entra em frenético estado de graça, palmeirenses, são-paulinos e santistas como eu se veem na condição insólita de se surpreender em certos momentos quase festejando o gol sofrido: é que o instinto de quem ama o futebol salta de si, no mesmo momento em que outras zonas da psique se abatem. (Mas hoje tem jogo e o Santos está vivo.)

Posta a questão em outros termos, ocorre que Ronaldo foi o primeiro da fila de craques nacionais que partiu para a Europa muito cedo, sem ter sido "embalado" pela torcida brasileira, que não assistiu ao seu crescimento na Holanda e nem acompanhou de perto seu apogeu no Barcelona e na Inter de Milão. As vicissitudes que cercam seu retorno e seu sucesso atual, jogando num grande clube popular de massa, funcionam como uma espécie de reparação tardia dessa falha. Não deixa de ser significativo também que, no mesmo momento, e numa difusa sincronia com as brechas abertas pela crise econômica mundial, o culto do dinheiro a qualquer custo se vê relativizado por pequenos e significativos gestos como o de Kaká recusando oferta sem precedentes do Manchester City e Adriano deixando-se levar pela vontade intempestiva de um retorno ritual à favela de origem e a um clube brasileiro.

Uma etimologia de algibeira dá ao nome Ronaldo o sentido de "aquele que governa com mistério". O mistério de Ronaldo Fenômeno, no caso, é a força com que ele retorna do nada, quanto mais fundo tenha sido o mergulho. Um exemplo disso pelo lado contrário: na Copa de 2006 - quando a seleção brasileira tomou um soporífero chamado Parreira - nenhuma fibra em Ronaldo parece ter se motivado para um esforço correspondente de superação.

Mas o caso de Ronaldo II, o Gaúcho, é mais misterioso. Há tempos não joga o que jogou na temporada de 2004 e 2005, quando foi, pelo Barcelona, um craque avassalador e uma verdadeira antologia em ato das criações do futebol brasileiro. O elástico de Rivelino, os chapéus de Pelé, a cobrança de falta de Zico, o passe em concha de Ademir da Guia, a finalização de Romário, o calcanhar de Sócrates, a folha seca de Didi e a pedalada de Denílson se juntavam num festival maneirista que não perdia o poder de fogo conclusivo e decisivo. Ninguém explica esse eclipse relativo, muito menos ele, que costuma ser evasivo e genérico nas suas falas, além de muito mais reservado no plano pessoal. Ao contrário de Ronaldo Fenômeno, cujo joelho vimos, aterrados, se decompor no ar, a ferida de Ronaldo Gaúcho é difusa, invisível, insondável, menos física do que psíquica.

Mas aqui há um outro complicador. Além dos seus prováveis fantasmas subjetivos, talvez desconhecidos dele mesmo, Ronaldo Gaúcho é barrado também, num circuito vicioso, pelo limite externo a que me referi no começo: o ex-Número Um é jogado numa zona maldita e difusa onde lhe é vedado não ser menos do que ele já foi. A pena é a negação daquilo que ele fizer. Em seus jogos pelo Milan e pela seleção brasileira, nos últimos tempos, atuações muito superiores às de jogadores medianos foram dadas muitas vezes como se irrelevantes e dispensáveis, num mecanismo perverso, e quase invisível, da época que decidiu se espelhar e se medusar no Número Um da vez.

*Compositor, ensaísta e professor de literatura brasileira na USP, é autor, entre outras obras, de Veneno Remédio - O Futebol e o Brasil (2008), O Som e o Sentido - Uma Outra História das Músicas (1989) e O Coro dos Contrários - A Música em Torno da Semana de 22 (1977)

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