Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

No centenário de Antonio Candido, três livros homenageiam sua obra

Autor foi um dos principais críticos literários do Brasil e autor do projeto do 'Suplemento Literário' do 'Estado'

Wilson Alves-Bezerra*, Especial para o Estado

22 Dezembro 2018 | 16h00

Qual o sentido de homenagear Antonio Candido (1918-2017) em 2018? Sua contribuição para a crítica literária brasileira foi imensa, tanto no jornalismo cultural quanto na universidade. Seu papel de teórico foi ímpar. No Brasil de hoje, entretanto, acredito ser importante repensar, com Candido, a relação entre literatura e sociedade a partir de sua intervenção na cena brasileira.

Ao longo dos anos 1940, quando Candido já era crítico literário e resenhava livros como, por exemplo, o primeiro de contos de um certo Guimarães Rosa, Sagarana, a respeito do qual percebeu, “não é um livro regional como os outros (...)” , observou que “Mario de Andrade, se vivo fosse, leria, comovido, este resultado esplêndido de libertação linguística, para que ele contribuiu com a libertinagem heroica da sua”, para finalmente concluir: “Guimarães Rosa vai reto para a linha dos nossos grandes escritores”. No ano seguinte, 1947, Candido recebia das mãos de Graciliano Ramos a reedição de seu Caetés (1933), autografada com a seguinte dedicatória: “A culpa não é apenas minha: é também sua. Se não existisse aquele seu rodapé, talvez não se reeditasse isso”.

Candido ainda foi o responsável por conceber, na década seguinte, em 1956, o projeto do Suplemento Literário do Estado, o qual, com a colaboração do editor Décio de Almeida Prado, viria a tornar-se o exemplo precursor e melhor acabado das relações profícuas entre pensamento universitário e jornalismo. Nas palavras de Elizabeth Lorenzotti, em seu Que Falta Ele Faz! (2007), o Suplemento tornou-se “modelo de todos os cadernos culturais que o sucederam”. Tanto que em 2010, no mesmo Estado, o caderno Sabático, capitaneado por Rinaldo Gama, rendia homenagem ao Suplemento

Na mesma época em que finalizava um trabalho de mais de uma década, sua ambiciosa e influente Formação da Literatura Brasileira: Momentos Decisivos (1959), obra na qual estabelecia as bases do que ele veio a chamar o sistema literário brasileiro, Candido ia abandonando sua relação acadêmica com a área de Ciências Sociais, na qual se formara e na qual era professor, e criando uma ligação mais estreita com as Letras, campo no qual fundaria a pós-graduação em Teoria Literária. Tudo isso até os 40 anos. Ora, não é difícil perceber o caráter desbravador do pensamento e da ação de Candido. O ano de seu centenário, porém, pede que se comemore outra dimensão de sua figura pública: a de humanista, mesmo em contextos de convulsão social. Três dos livros recém-lançados para celebrar o centenário de Candido de algum modo lançam luz sobre tal legado.

Organizado pelo crítico uruguaio Pablo Rocca, Conversa Cortada traz a público mais de 20 anos de correspondência entre Candido e o uruguaio Ángel Rama (1923-1983). Tais cartas são reveladoras em muitos sentidos: elas mostram uma amizade intelectual e produtiva entre dois professores que tinham o “espírito da resenha” e a ambição de permitir que as literaturas das duas bandas das América Latina fossem melhor conhecidas na outra. Assim, desde o dia em que se conheceram, em 1960, até a morte trágica de Rama em um acidente de avião, em 1983, trocaram cartas compartilhando projetos de publicação mútua. Havia ainda algo maior, formulado por Rama em 1973: “Reescrever a história da literatura latino-americana, isso que nunca se fez e que nós estamos obrigados a fazer” (p. 80). Uma das manifestações deste projeto foi a Biblioteca Ayacucho, concebida por ele em Caracas – onde estava exilado durante a ditadura uruguaia – e que buscava reunir, nas palavras do próprio, “aproximadamente uns 300 volumes onde queremos selecionar os mais importantes autores e obras, na literatura, no pensamento e na história, de nossa América (a espanhola, a portuguesa e a francesa), desde suas origens até hoje”. Candido se ocupou da seleção dos autores brasileiros e da indicação de possíveis responsáveis por prólogos, seleção e notas entre os críticos do Brasil. Acompanhar o diálogo entre os dois sobre a produção da coleção é um dos pontos altos do livro. 

O outro é nos depararmos com os obstáculos enfrentados por ambos no contexto da perseguição política da época: moviam-se entre as brechas das ditaduras. A certa altura, em 13 de outubro de 1973, Candido fala da publicação inaugural da revista Argumento, da qual era membro do corpo editorial e colaborador: “A revista saiu no dia 2, com 25.000 exemplares e se esgotou quase imediatamente. A polícia apreendeu exemplares em diversos lugares, mas ainda não sei em que proporção”. A revista resistiu apenas por quatro edições. Rama, por sua vez, precisou abandonar seu Uruguai natal e exilar-se na Venezuela, e depois se mudar para os EUA, de onde foi forçado a sair, já sob o governo de Reagan, por suas ideias socialistas. A correspondência, como diz o sugestivo título, é entrecortada: cartas se perdem, projetos atrasam, pois sustentar um pensamento humanista em tempos bárbaros é sempre um desafio sem par. Não são poucos os exemplos de obstáculos ao fluxo de ideias, cartas, livros e pessoas no mundo da Guerra Fria. A resiliência humanista dos dois escritores é lição para nossos tempos. 

O livro da jornalista e professora da Unifesp Joana Rodrigues, Antonio Candido e Ángel Rama: Críticos Literários na Imprensa, funciona como excelente contraparte ao livro das cartas. Rodrigues adota uma linguagem clara e precisa, emulando Candido, para dar conta do trabalho do brasileiro e do uruguaio na grande imprensa. Destaca de Candido seu período à frente da Folha da Manhã, de 1943 a 45, quando publicou 96 artigos, incluídos aí resenhas dos primeiros livros de Clarice Lispector e de João Cabral de Melo Neto. A influência e o papel do crítico são mapeados com precisão, num período precursor do jornalismo cultural que já não mais existe. De Rama, o livro destaca o ano de 1960, no semanário uruguaio Marcha. Rodrigues traz ainda dois breves estudos biográficos sobre Rama e Candido, além de dois depoimentos de Candido e outro de Pablo Rocca. Trata-se de um livro que tem muito a contribuir ao panorama nacional, não apenas pelo ineditismo do tema, mas também pelo que pode trazer de reflexão para um momento em que o sistema literário brasileiro passa por mudanças profundas, com grande prejuízo à circulação de ideias e livros entre nós.

Outro importante livro é Antonio Candido 100 anos, organizado por Maria Augusta Fonseca e Roberto Schwarz: nele, reúnem-se mais de trinta estudiosos brasileiros e estrangeiros para discutir diversos aspectos do legado de Candido: Alfredo Bosi, Beatriz Sarlo, Davi Arrigucci Jr, Flávio Aguiar, José Miguel Wisnik, Ismail Xavier, Celso Lafer, Rita Chaves, Pablo Rocca, Iná Camargo Costa e um longo etecetera. O livro quer dar conta da multiplicidade de Candido ao abordá-lo como professor, radical, estudioso da América Hispânica e da África, pensador da cultura e da política e crítico. Os organizadores tiveram ainda a delicadeza de reproduzir as dedicatórias recebidas por Candido de escritores do modernismo brasileiro, Mario de Andrade, Oswald de Andrade, Graciliano Ramos e Manuel Bandeira. Há ainda um depoimento do próprio Candido, de fevereiro de 2016, no qual explica como se fez crítico.

Ressaltam, nas três obras tão diversas, a clareza do estilo, a argúcia das análises e a importância de Candido como humanista em meio a distintos períodos sombrios da história – como ele mesmo diz em seu depoimento, sua formação como teórico deu-se nos anos 1930 e 1940. Suas ideias podem e devem ser objeto de debate e superação no meio universitário, mas sua intervenção no campo social é absolutamente vigente, e com ela há muito a se aprender: escrever, criticar e ensinar, mesmo sob coerção e perseguição, eis o seu legado. 

*Wilson Alves-Bezerra é professor da Ufscar e autor de 'Vapor Barato' (Iluminuras)

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