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No centenário de Antônio Maria, pesquisador prepara antologia do cronista

Guilherme Tauil lança 'Vento Vadio' e escrutina personagem a partir das raízes nordestinas e de 'complexo de inferioridade'

Matheus Lopes Quirino , O Estado de S.Paulo

17 de março de 2021 | 10h00

O Brasil é terra de cronista. Com nomes que vão do mineiro Fernando Sabino ao capixaba Rubem Braga, os anos de ouro da crônica, compreendidos entre as décadas de 1950 a 1970, segundo a fortuna crítica, estão aclimatados no Sudeste. Contraponto a essa tradição, o escritor Guilherme Tauil lançará no final do ano Vento Vadio, pela editora Todavia, na qual prepara um recorte inédito sobre o escritor e letrista pernambucano. “Antônio Maria era nordestino no grupo majoritariamente carioca e mineiro, com exceção de Rubem Braga, que era do espírito Santo. Era uma coisa muito sudeste. Ele se queixava no disso no diário”, conta Tauil ao Estadão.  

Embora fosse o único cronista da grande imprensa da época com ascendência negra, Tauil considera que a discussão racial na obra de Maria está em segundo plano. A questão maior é a origem do escritor, que muitos acreditam ser carioca. “Você não consegue compreender o Maria quando resume ele a um bairro, Maria é do Recife, se formou no Nordeste, o sentimento de deslocamento, de estar fora da terra, fora do seu lugar repercute em toda sua obra.” 

O escritor e compositor Antônio Maria viveu pouco, mas é da safra dos que viveram intensamente, como seus amigos Vinicius de Moraes e Tom Jobim. Morto aos 43, vítima de um infarto agudo no miocárdio, ele caiu na calçada de uma boate em Copacabana, seu reduto particular da boemia. Ali, foi colocado um ponto final na vida fervilhante do homem que retratou como ninguém a vida noturna da então capital federal. Maria escrevia em ritmo industrial, levando consigo a máquina de escrever, que neste dia não bateu. 

Injustiçado no terreno da crônica, cuja bibliografia pouco reuniu de sua obra em vida – mesmo depois de sua morte –, Antônio Maria ganha uma nova seleta de crônicas no ano em que se completam 100 anos do nascimento do escritor pernambucano. Vento Vadio, segundo Tauil é inspiração no próprio Maria. “No final da vida, Maria já estava pensando em organizar uma antologia com este título, mas não deu tempo”, conta o pesquisador que mora em Taubaté, que retoma, então, à ideia do próprio cronista. 

Estudioso da crônica, Tauil fez o mestrado sobre o escritor na USP. “Há pouca coisa disponível na fortuna crítica acadêmica sobre Maria, fiz o mestrado sempre pensando em uma edição, fiz um estudo para interpretar a poética dele, para editar uma antologia que desse conta da obra do Maria”, diz o jovem pesquisador, responsável pelo maior acervo de raridades de Chico Buarque no YouTube, que também é cronista dos bons, tendo lançado há cinco anos a seleta do gênero Sobreviventes de Verão (Zepelim). 

Cronista da noite, Maria chegou ao Rio depois de temporada como locutor em capitais nordestinas, como Fortaleza. Na década de 1940, veio com a turma de narradores de sport como Theóphilo de Vasconcellos e Abelardo Barbosa, que viraria o saudoso Chacrinha. A primeira passagem pelo Rio foi rápida, sua hora não havia chegado. A virada chegou em 16 de julho de 1950, final da Copa do Mundo com Brasil versus Uruguai. Foi Antônio Maria, dividindo microfone com Ary Barroso, quem narrou a derrota dos canarinhos. A partir do lance no rádio, Maria seguiu com o “rabugento” Barroso no programa líder de audiência Rio, eu gosto de você!.

Maria manteve por anos coluna no diário carioca O Globo, Mesa na Pista, onde registrava não só o caráter etéreo dos figurões entorpecidos por lança-perfume e já ébrios embalados pelos “tim-tim-tins” da Bossa Nova. Concorridíssima, a coluna de Maria cravou um retrato escrachado das excentricidades da High Society carioca, com textos saborosos sobre as modas da época, penteados das moças, fantasias de carnaval, os últimos lances em matéria de tecnologia, e a comida boa – especialmente apreciada por Maria – ostentados pelos frequentadores da boate Vogue, templo da noite carioca do século passado. 

Quando se estabeleceu no Rio, aos 27 anos, a volta triunfal com esposa e filhos não significou uma mudança radical no homem, ao menos na “fachada”. O jornalista e escritor Ruy Castro bem descreveu o escritor: “Maria era mulato claro, tinha cabelo ralo e aderente ao coco, suava muito, amarrava as calças com barbante e usava sandálias de couro. Só tinha um terno. Essa descrição não se aplicava ao seu tempo de vacas magras, mas ao que era o homem mais influente da Rádio Tupi. Em qualquer outro emprego, seu aspecto seria criticado — não nos Associados, cujo presidente, Assis Chateaubriand, também costumava comparecer às solenidades de casaca, gravata e luvas brancas, chapéu de jagunço e as mesmas sandálias sobre as meias pretas de seda.”, narra Castro em “A Noite do Meu Bem”. 

Sempre muito bem acompanhado, Antônio Maria foi um conquistador. E sofreu por amor. Separado, em 1952, compôs seu hit definitivo “Ninguém me ama”, considerado pela crítica especializada como o auge do Samba-Canção. Eternizado nos seguintes versos: “Ninguém me ama” — “Ninguém me ama/ Ninguém me quer/Ninguém me chama/ De meu amor…”, em parceria com Fernando Lobo, na voz de Nora Ney. 

Boa praça, competidor, galanteador, Maria arrebanhou confrarias de amigos. “Um jovem português que andou por aqui, muito trêfego e simpático, o Carlos Maria, costumava dizer: ‘O Antonio é um santo’. Não era, mas possuía um dom que neutralizava seus defeitos ou impulsos maldosos: era o primeiro a confessá-los e gozá-los.”, escreveu o poeta Paulo Mendes Campos, autor de Diário da Tarde (1981), camarada de Maria, em dezembro de 1974.

 O jeito espirituoso de Antonio Maria marca sua produção textual, ao menos no terreno da crônica, como neste trecho da crônica Domingo, publicada no jornal Última Hora em 1 de novembro de 1961: “Os amantes temem o futuro. Temem, amanhã, estar fartos, detestarem-se; horrorizam-se à ideia de, um dia, serem melancolicamente amigos”. Foi no mesmo Última Hora que Maria foi pivô de uma das separações mais polêmicas da época, da escritora Danuza Leão, considerada a mulher mais bela do país, à época, e Samuel Wainer, dono do jornal. Danuza separou-se de Wainer, Maria foi demitido. Restaram as reminiscências do frenesi Danuza e, claro, um vasto coração partido. 

Antônio Maria era do signo de peixes, das razões plausíveis, segundo a astrologia, que explicam o sofrimento desenfreado das suas paixões agudas. Sofrimento crônico, requisito para os bons poetas, Antônio Maria amargou o coração nas horas infernais das boates de Copacabana. Ele amou como quem sabe amar, sem ser piegas, cravando homenagens para suas musas nas crônicas publicadas em Última Hora e no Diário Carioca. Um poeta da prosa, como cronista, dos versos, na canção. Foi venerado por Rubem Braga e Vinicius de Moraes. E até o crítico dos críticos, Paulo Francis, tirou o chapéu para o pernambucano. Um troféu para poucos. 

“Antônio Maria sempre ficou um pouco oculto, embora tenha mais de 60 composições, nem todas gravadas, e mais de 3 mil publicações na imprensa”, pondera Tauil, que classifica tudo não como crônica “Há notas de jornal que carregam uma leveza artística”. Para Maria, que manteve um diário, só que escrito de maneira indisciplinada. Por trabalhar muito, Antônio Maria não teve o mesmo cuidado com sua obra, como Fernando Sabino e Rubem Braga. “A primeira antologia foi feita por amigos, Rubem Braga, Ivan Lessa, Paulo Francis, eles juntaram tudo, recortes, notas, respostas de cartas de leitor, não só crônica – o que rebaixa a crônica, nessa atmosfera boêmia, brincalhona.”, diz Tauil. Segundo ele “Nesse espírito de reconstituir um personagem, muito se perdeu em matéria de crítica, ficou algo muito caricato, não era só isso, eles deixaram para trás muitas questões fundamentais na poética dele por causa do recorte amistoso”, completa Tauil. 

Em 1964, enquanto nascia a ditadura, Maria saiu de cena. Um baile dos horrores se instalou na noite carioca, e os excessos que tão bem retratados foram por Maria começaram a minguar. Sem o homenzarrão de 120 quilos, risada icônica, só que triste, não só o jornalismo perdeu, como o Rádio, a Televisão, a Literatura – era ele um escriba multifunções. Contratado pela rádio Mayrink Veiga na década de 1950 com o maior salário das difusoras no Brasil, Antônio Maria deu palanque no rádio para as divas nacionais, como Dolores Duran, Dóris Monteiro, Nora Ney e Elizeth Cardoso. 

Sobre Um Homem Chamado Maria, biografia do escritor lançada por Joaquim Ferreira dos Santos, Tauil pondera: “É uma biografia sobre Copacabana, que o Joaquim engordou, e você fica com a sensação de que Maria é Copacabana”. Segundo Tauil, ele pecou ao reduzir o escritor ao bairro. A questão do deslocamento de Antônio Maria, que Tauil tratará no livro, é o preconceito que perseguiu o autor por toda a vida. 

“Os cronistas todos vieram de outros ramos da literatura, poetas como Drummond e Paulo Mendes Campos, prosadores como Sabino e Rachel de Queiroz, Rubem Braga é diferente, se dedicou monogamicamente à crônica. Só Maria veio do rádio, por isso ele se sentia para baixo, para trás, era o cronista com menos bagagem literária”, diz. 

 

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