Bob Sousa
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No centenário de Tatiana Belinky, leia entrevista inédita com a autora

Morta em 2013, escritora que completaria 100 anos essa semana afirmou que 'na Rússia não tinha essa questão de criança não entrar em teatro adulto, como aqui'

Paula Autran*, Especial para o Estado

16 de março de 2019 | 16h00

Em 22 de março de 2011, em uma tarde chuvosa, a escritora Tatiana Belinky nos recebeu em sua casa no bairro do Pacaembu, em São Paulo. Aos 92 anos de idade, ela estava lúcida e animada por conta de novas atividades que ia desenvolver. “Gosto de relembrar as histórias do passado, mas também de pensar no que ainda tenho para fazer”, afirma. Uma dessas atividades seria a tradução de uma peça francesa que acabara de ser encomendada para ela. Em meio a muitos livros, bonecas de bruxas e Emílias, sentada em sua cadeira reclinável e rodeada por seu gato, Tatiana teve fôlego para uma longa conversa. E, como se não bastasse, em seguida daria entrevista para um canal de televisão. “Só fico tímida na frente da câmera fotográfica, parece que ela me faz cócegas”, divertia-se com o fotógrafo Bob Sousa que nos acompanhava.  Tatiana ainda viveria por mais dois anos, nos quais deu mais entrevistas, conviveu com seu filho, seus netos e bisnetos e certamente realizou mais trabalhos, pois, como afirmou, “sem escrever, pensar ou conversar não consigo imaginar uma vida que valha a pena”. 

No dia 18 de março de 2019 Tatiana Belinky faria cem anos. Escritora, tradutora, dramaturga e roteirista, ficou conhecida do grande público por adaptar, junto com seu marido o médico Júlio Gouveia, a obra de Monteiro Lobato para a televisão. A versão deles da década de 1950 foi a pioneira, e durou cerca de 12 anos ininterruptos no ar. Monteiro Lobato não apenas foi o autor que a fez tornar-se conhecida nacionalmente, como foi o primeiro escritor brasileiro com o qual ela entrou em contato, por meio do personagem Jeca Tatu, em um folheto de propaganda do Biotônico Fontoura. Russa, natural de São Petersburgo (que na época se chamava Petrogrado, e voltou a ser São Petersburgo, em 1991), Tatiana chegou ao país com dez anos de idade, já falando quatro línguas- russo, alemão, ídiche e letão. “Como falava outros idiomas pescava as palavras em português, e percebi que era uma história engraçada”, afirma. “Mal sabia eu o quanto Lobato faria parte da minha vida”. 

Na época desta entrevista inédita, ainda não havia sido levantada a discussão sobre passagens polêmicas na obra do autor, principalmente no que diz respeito a questões de raça e gênero. Para Tatiana, no entanto, o grande mérito de Lobato foi ser um divisor de águas na maneira de se fazer literatura infantil. “Antes do Lobato, as obras eram muito didáticas, sempre querendo ensinar algo às crianças. E isso não é necessário”, afirma. “A partir dos quatro anos qualquer criança aprende se deixarem. Se o livro estiver acessível, ela pega, se deixarem entrar no teatro, ela aprende”, garante. Essa opinião vinha da experiência da autora que desde pequena ia às peças e concertos em seu país natal. “Na Rússia não tinha essa questão de criança não entrar em teatro adulto, como aqui”, explica. “As crianças entravam onde os pais queriam. Então quando cheguei ao Brasil, já tinha visto e lido muito teatro. Lá assistia ópera, ballet, opereta, um pouco de tudo”.

Ela herdou a cultura ampla de seus pais, que vieram para o Brasil compelidos pelas dificuldades da guerra. Mas diferente do grande contingente de mão de obra proletária, eles eram intelectuais de classe média. “Minha mãe era dentista mas não pôde usar seu diploma logo que chegou aqui. Mesmo assim conseguiu uma autorização  de “prático licenciado” para poder exercer parte de sua profissão”, relembra. “E por um golpe de sorte conseguiu um consultório completo de um dentista que tinha acabado de se mudar da cidade”. Assim, dois meses depois de chegar da Rússia, em 1929, sua mãe já tinha um consultório. “Era uma mulher forte, que sempre trabalhou”, afirma. Também por conta dessa característica familiar, Tatiana foi uma mulher à frente de seu tempo. Aos 20 anos já apaixonada pelo marido (com quem ficaria casada até a morte dele, em 1988), decidiu adiar o casamento até a maioridade aos 21 para poder ter “a total responsabilidade por minha escolha”, ressalta.  “Na verdade, casou-se a estante de livros dele com a minha!”. 

O namoro reforçou o apego dos dois ao teatro, já que junto com a conversa, essa era a atividade preferida deles. Esse interesse os levou a fundar em 1949 o grupo amador TESP (Teatro Escola de São Paulo), que durante dois anos rodou os teatros públicos de São Paulo aos finais de semana. “Foi o que nos deu experiência de palco”, afirma. Esse grupo iniciou-se a partir das brincadeiras de quintal que Tatiana fazia com sua colega de escola Gilberta Autran que levava seu irmão Paulo. “Foi a família do Paulo Autran que me ajudou a pensar no teatro de maneira mais concreta, não por conta dele, mas da Gilberta”. Outro integrante da família Autran que a motivou a levar uma peça pela primeira vez aos palcos foi Walter, pai de Gilberta e de Paulo (e de mais sete filhas). “O Dr. Walter conseguiu uma licença para levarmos nosso show teatral para uma sala de teatro no clube escandinavo, no centro da cidade”, relembra. “Ele era delegado, e gostava de pintar. Além disso, nos ajudou no tempo da guerra, pois sendo imigrantes, não tínhamos estabilidade aqui, e eu me metia em tudo, política, arte, etc. O dr. Walter dizia: cuidado, Tatiana! Mas acabou não acontecendo nada comigo”.

Enquanto faziam teatro, receberam convite da TV Tupi para começar a fazer tv, em 1951, quase ao mesmo tempo em que esta estreava no país. “Ninguém sabia muito bem o que era aquela linguagem”, afirma. O chamado já foi para fazer programas de temática infantis, que ainda não existia no canal. “Na verdade, eles tinham um programa de auditório, com uma atriz de teatro rebolado, vestida de coelhinha, de maiô...”, diverte-se Tatiana. “Ela era bonita, sabia brincar com as crianças, mas levantou-se uma gritaria por conta dela e aí nos convidaram para fazer algo mais elaborado”. Nesse início faziam quadros curtos com fábulas do mundo todo. “Fez muito sucesso. Depois nos pediram um programa completo, com temática brasileira. Júlio e eu e na hora pensamos que tinha que ser Monteiro Lobato”. 

Essa certeza se deu porque além de admiradores de sua obra, o casal havia convivido com ele. “Lobato nos procurou porque tinha gostado de um artigo sobre sua obra infantil escrito pelo Júlio na revista Literatura e Arte”, conta Tatiana, que nessa época já era casada com Júlio e tinha dois filhos. “Ele nos telefonou à noite para falar com o Júlio. Eu perguntei quem era, e quando ele disse que era o Monteiro Lobato, eu ri e disse que eu era o Rei Jorge. Aí quem riu foi ele”. Uma hora depois ele chegava. “Quando o Júlio abriu a porta ele disse: - Na tua idade eu tinha a tua cara. Eram o mesmo tipo, descendentes de portugueses”. Depois ainda estiveram juntos mais algumas vezes, mas quem acabou dando a autorização para a adaptação da obra de Lobato foi sua viúva, pois ele morreu em 1948.  

Tatiana afirma que não pensava em escrever os episódios, tanto que os dois primeiros, A Pílula falante e O Casamento da Emília com O Marquês de Rabicó (no qual   Ricardo, filho do casal, interpretou o rabicó) foi Júlio quem escreveu. “A partir do terceiro assumi o roteiro e ele a direção. E levamos para a tv nosso grupo de teatro. Foi um sucesso estrondoso já de cara”. Tatiana arrisca um palpite para todo esse êxito: “Acho que o segredo, além da obra do Lobato, claro, foi nossa liberdade. Júlio não aceitou assinar contrato, queria carta branca para fazer os episódios sem ninguém se intrometer”. Esse regime de trabalho durou doze anos. “Nunca tinha acontecido isso com ninguém e acho que não aconteceu de novo”, especula. 

Assim como não pensava em escrever para a televisão, Tatiana não tinha planos de fazer tradução e ser dramaturga, quando se matriculou na faculdade de filosofia no Largo de São Bento, que ela cursava ao mesmo tempo em que trabalhava como secretária bilíngue. “Também comecei como tradutora, por acaso”. Esse acaso tinha nome e era Edgar Carvalheiro, editor e biógrafo de Monteiro Lobato, amigo de Júlio. “Ele comentou que estava editando traduções de contos de vários países, direto do original, e isso era uma novidade, pois a maior parte era feita por meio de traduções intermediárias”. E precisava de alguém que traduzisse o conto A mulher do farmacêutico, do Tchekhov, direto do russo. “Ele olhou para mim e disse: - a Tatiana é homem o suficiente para fazer isso. Eu disse que homem era a vovozinha dele, mas que eu faria a tradução”, diverte-se. 

Depois dessa tradução, começaram a chegar vários pedidos de textos, do russo, do alemão e do inglês. “Fiz uma tradução do Shakespeare para o Sérgio Cardoso. Aí começaram a me pedir textos de teatro. Logo fiz um monólogo para o Procópio Ferreira (imagine!)”, espanta-se. Depois passou a escrever livros infantis, que somam mais de duas centenas de títulos e a editar revistas de teatro, entre muitas outras atividades. No ano de seus cem anos, Tatiana segue tendo suas obras adotadas nas escolas, textos de teatro sendo escritos em sua homenagem, em um grande e variado legado dessa mulher que viveu intensamente e soube produzir com alegria até o final de sua vida.

*Paula Autran é doutora e mestre em artes pela ECA/USP, jornalista, escritora e autora de 'Teoria e Prática do Seminário de Dramaturgia do Teatro de Arena' (Dobra Editorial), entre outros

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