No laboratório com o Prêmio Nobel

Entre transferinas e imunoglobinas, ex-aluna brasileira lembra do jovem e excêntrico professor Smithies

Anita Wajntal*, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2007 | 22h24

Entre agosto de 1963 e dezembro de 1966, tive o privilégio de conviver com Oliver Smithies quando estive em Madison, Wisconsin, como aluna de pós-graduação. O laboratório do meu orientador e o do dr. Smithies eram vizinhos - havia uma ligação interna entre eles e os alunos circulavam habitualmente entre os dois lugares, ora utilizando algum aparelho, ora trocando idéias sobre seus trabalhos de pesquisa, ou apenas convivendo.Bem cedo descobri uma das muitas qualidades do então jovem e dinâmico pesquisador: ele adorava ficar cercado por alunos e expor suas novas idéias. No final de tarde, quando os alunos estavam encerrando suas atividades, ele iniciava uma conversa com alguns deles e logo os levava até um pequeno quadro negro, pendurado num canto do laboratório, e iniciava uma exposição sobre algum tema que estivesse elaborando no momento. Aos poucos, outros alunos iam chegando e em pouco tempo lá estava um grupinho discutindo, questionando e se deliciando com aquele convívio. Não sei se era a maneira simples e despretensiosa dessas suas apresentações, que incentivavam a participação de todos, que dava a impressão de ser aquela a forma de ele organizar suas idéias e avançar em suas hipóteses; ou se era um mero truque didático para incitar o pensamento científico entre os alunos. O fato é que pouco depois aquela discussão originava um manuscrito interno distribuído para todos e acabava posteriormente resultando em artigo científico.Já naquela época, a recombinação homóloga como fonte de variação de proteínas era um de seus temas prediletos. Assim, tive "aulas" inesquecíveis sobre hemoglobinas, transferinas, imunoglobulinas e outros tantos temas que foram objeto de publicações posteriores. Sua capacidade de intuição sobre mecanismos básicos responsáveis pela variabilidade genética e etiologia de doenças genéticas era tão intensa que, nestes 40 anos que se seguiram à minha volta ao Brasil, eu sempre esperei que seu nome estivesse entre os contemplados com o Prêmio Nobel de Medicina. As pessoas que conviveram mais tempo comigo nestes anos e meu marido são testemunhas de minha decepção, a cada ano, após o anúncio dos premiados, ao ver que ele não estava entre eles. Em 1992 eu mudei totalmente a minha área de atuação na pesquisa. Assim, a última vez que encontrei o dr. Smithies foi durante o Congresso Internacional de Genética Humana em Washington em 1991. Nessa ocasião ele estava coordenando uma mesa-redonda sobre gene targeting. Ao cumprimentá-lo ao final da apresentação, ainda tive a chance de comentar que eu continuava esperando sua premiação com o Nobel, o que ocasionou uma gargalhada de sua parte.Além de ser uma pessoa extremamente querida, criativa e com uma capacidade extraordinária de comunicação, o dr. Smithies também me marcou pelas suas excentricidades.Seu laboratório, que era um verdadeiro caos, nas vésperas de visitas de organizações financiadoras de pesquisa era arrumado impecavelmente, adquirindo um novo visual. Quando era parabenizado pelo aspecto do "novo laboratório", costumava dizer : "Quem tem organização interna não necessita de organização externa". Era verdade. O dr. Smithies passava as próximas semanas reclamando que não conseguia localizar nada naquele laboratório arrumado. Em pouco tempo, o laboratório voltava ao caos anterior. Nas ocasiões em que o dr. Smithies não aparecia no laboratório nos horários habituais, seus alunos diziam que provavelmente estava passeando de hidroavião. Também não era incomum ele passar a noite toda trabalhando no laboratório.Numa manhã, cheguei ao laboratório cedo. Todas as mulheres estavam de cabelo enrolado com bóbis e o dr. Smithies estava aplicando uma pasta em seus cabelos. Ao indagar, espantada diante daquele espetáculo tão inesperado, o que estava acontecendo, fui informada que o ilustre professor estava apenas testando a capacidade de uma determinada substância de promover ligações entre átomos de enxofre (ligações S-S) presentes nos fios de cabelo. A experiência resultou em uma equipe feminina apresentando cabelos cacheados e, posteriormente, numa publicação não sobre cabelos, mas sobre ligações S-S em proteínas. Na minha lembrança, fica aquela figura extraordinária de camisa xadrez de mangas curtas, sorriso fácil, cercada por alunos fascinados em frente de um pequeno quadro-negro. Não me lembro de ter presenciado um único momento de mau humor ou ouvido algum sinal de destempero naqueles anos de convivência. Sem dúvida, as contribuições do dr.Smithies abriram novas fronteiras para a pesquisa básica e tratamento de doenças geneticamente transmitidas. Com o Nobel, um reconhecimento mais do que merecido.

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