No reino do carro semiótico

Quanto mais cavalos galopando sob o capô, mais força se terá para alcançar o horizonte da fantasia

J. R. Duran*, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2008 | 21h14

Para que serve um carro? Em princípio, imaginaria Henry Ford contemplando a linha de montagem do Ford T, um meio de locomoção para ir de um lado a outro no menor tempo possível e com o máximo de conforto. Confrontado com as estatísticas sobre os engarrafamentos de hoje, um automóvel é, definitivamente, o meio mais luxuoso, e caro, de se chegar atrasado a qualquer lugar. Anticlímax.O filósofo francês Edgar Morin escreveu em 1969, com o subtítulo perfumado de O Espírito do Tempo, o livro que qualquer semiótico de botequim adorava ler na época: Cultura de Massas no Século XX. Um dos capítulos tem por título "A Girl and a Gun" (mesmo sendo escrito por um francês o título é em inglês, eram outros tempos aqueles). Nele o filósofo elaborava o pensamento de como os westerns hollywoodianos tinham conquistado os corações e as mentes de milhões de espectadores, ávidos por se transportar a outras existências que os deixassem escapar de suas vidas rotineiras. Morin dizia que essa dupla caracterização cinematográfica, uma garota e uma arma - o amor e o erotismo por um lado, a aventura e a transgressão pelo outro -, eram irreconciliáveis, mas ao mesmo tempo também a chave para o elixir da eterna sedução.O mocinho (e às vezes não só ele, a vingança também) sempre chegou a cavalo. Por coincidência, e isso se acreditamos que elas possam existir, os automóveis têm a potência de seu motor calculada em? cavalos. Cavalos de força. Não é muito difícil somar dois e dois, sejam cavalos, seja o que for, para se descobrir que, quanto mais cavalos galopando sob o capô do carro, mais força se terá para alcançar o horizonte da fantasia. A fábrica francesa Citroën lançou, depois da 2ª Guerra Mundial, o Citroën 2 cv (o popular deux chevaux, dois cavalos, o mais perto que um automóvel já chegou de uma charrete na nomenclatura e na performance), no qual, segundo disse alguém, se podia contemplar a paisagem com calma. É o modelo favorito de Hergé, o desenhista do jovem repórter Tintin, que adorava colocar o carro em suas histórias em quadrinhos. Se as armas, em teoria ao menos, com o tempo foram banidas pela lei, a potência dos carros foi aumentando. Um par de décadas depois de Hergé, o escritor Ian Fleming, criador de James Bond, o agente secreto mais conhecido na história moderna, decidiu que seu herói veria as ruas de Londres passarem em alta velocidade no volante de um imponente Aston Martin. Outros tempos, outras necessidades, outras velocidades. 007 fez a fama do carro, que o ajudou a deitar na cama muitas vezes. E, noblesse oblige, um Aston Martin DBS, hoje, tem uma potência de 510 cv.Tem cavalos para todos. Entre os lendários cavalinhos solitários do Citroën (um verdadeiro carro do povo, se me permitem) e a cavalaria vermelha de uma Ferrari, você pode fazer sua escolha. Mas antes atente ao fato de que os carros têm sexo definido, independentemente das convicções sexuais de quem os dirige e outorgado pelo DNA invisível da denominação de origem de quem os fabrica. O que se transforma em uma forma de afeição pela máquina exibida pelo ser humano, que passa a se referir a ela com uma intimidade familiar: uma Ferrari, um Volkswagen, uma Alfa Romeo, um Audi. Outras características parecem ser decididas pela geografia. Os carros americanos, por exemplo, são verdadeiras salas de estar, que privilegiam o conforto e o espaço (adivinha de onde saiu a idéia de colocar porta-copos em um carro como acessório? E me pergunto, isso é coisa que se faça, dirigir e beber?). Me arrisco a afirmar que um apartamento popular daqui cabe perfeitamente na limusine branca que o presidente Sarney, hoje ex, utilizou em viagem oficial a Nova York. Já a fama dos carros europeus é a do design, a da elegância, como um belo terno feito sob medida. E a dos japoneses, do outro lado do mundo, é a reprodução de todas as qualidades acima, porém com o preço bem mais baixo e acessível. Na percepção do comprador (ou será na lábia do vendedor?), com um carro você pode ser quem quiser. É conveniente para eles esquecer que o hábito não faz o monge e você pode tirar alguém da roça, mas não se tira a roça de qualquer um. É só prestar atenção aos motoristas de fim de semana com seus conversíveis espalhafatosos, recém-saídos da garagem, que conseguem disfarçar a barriga do condutor, mas teimam em deixar sua careca a descoberto. Na religião desses playboys de fim de semana, as mulheres devem acreditar nesse personagem que se esforça em aparentar uma certa elegância emprestada pelo brilho do automóvel. Senão, como se explica que a cada carro, exposto em qualquer salão de automóveis do mundo, corresponda pelo menos uma moça vestida de maneira, digamos, chamativa? E não é só isso. Um carro pode usufruir do upgrade máximo quando se transformar, também, em signo do poder. Poder oficial, transferido, obtido. Senão não existiria a designação de "carro oficial".Tem, também, os carros dos puristas da velocidade. Que a única coisa que conservam dos originais que circulam à paisana pelas estradas são, visivelmente para o leigo, apenas as quatro rodas. No reduzido reino da Fórmula 1 muitos são os chamados e poucos os escolhidos. Mais precisamente, 22 pilotos apontados pelo dedo do destino, que depois de intrincados cálculos e volumosas negociações, passarão a se jogar em cada corrida, no instante da largada, com cega determinação. Uma decisão e uma firmeza digna da carga da Brigada Ligeira, desta vez, porém, com muito mais que 600 cavalos em jogo (When can their glory fade? O the wild charge they made!, exclamaria com razão lorde Tennyson).Morin escreveu que "? a vida nos filmes, dos romances, do sensacionalismo é aquela em que a lei é enfrentada, dominada ou ignorada, em que o desejo logo se torna amor vitorioso, em que os instintos se tornam violência, golpes, homicídios, em que os medos se tornam suspenses, angústias. É a vida que conhece a liberdade, não a liberdade política, mas a liberdade antropológica, na qual o homem não está mais à mercê da norma social: a lei?" O caminhoneiro, no seu pára-choque, cravou: "Muitos cavalos no motor, um ás no volante". Com o detalhe de que a penúltima e a antepenúltima palavra estão mais juntas do que seria normal. Porque, parafraseando a música, para mais da metade da população do planeta o carro é o princípio, o meio e o fim dos nossos problemas. O nada. E o homem, atrás do volante, o efeito multiplicador de tudo isso. *J. R. Duran, fotógrafo e escritor, é autor de Lisboa (Francis)

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