'No SPFW, praticamente não se viram negros desfilando para os grandes estilistas'

Carta aberta aos ditadores da moda

O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2008 | 15h21

Francisca Rodrigues, diretora de Comunicação da ONG Afrobras   A população brasileira se caracteriza pelo grande número de seres humanos de raça negra, quase 50% da população. Porém, esse percentual não se encontra representado na vida nacional. Para se ter uma idéia, este mês, em dois grandes eventos que acontecem no mundo da moda, o negro ficou de fora. No Fashion Business, no Rio de Janeiro, modelos negros protestaram contra o baixo número de negros no cast dos desfiles. No São Paulo Fashion Week, praticamente não se viram negros desfilando para os grandes nomes da moda. Ao contrário do ano passado, quando o SPFW elegeu a cultura africana como tema do evento, tornando, assim, o negro protagonista das passarelas. Se em 2006, os modelos negros foram usados pelos estilistas e "serviram" às suas criações, como este ano eles próprios justificam que as roupas criadas magistralmente não cabem no corpo dos negros? E como outros justificam que a culpa é das agências, que não apresentam modelos negros? A resposta é: o negro brasileiro, como no tempo da escravidão, continua sendo usado quando convém aos interesses das classes dominantes, ou seja, daqueles que detêm o poder, seja por meio do dinheiro, seja por meio da mídia. E quando o negro não serve, nunca aparece "o pai da criança". Como foi o caso do SPFW e do Fashion Business. Estilistas acusam as agências pela falta de modelos negros; as agências culpam os estilistas que dizem que o corpo do negro não tem as medidas certas. No Brasil o preconceito é pelo tom da pele: quanto mais escuro, pior. Nenhum outro fato, que não o critério discriminatório baseado na cor das pessoas, explica os indicadores sistematicamente desfavoráveis aos trabalhadores negros, seja em qual profissão for. Mas o setor da moda não está sozinho quando o assunto é discriminação ou exclusão social. Pesquisa recente do Instituto Ethos, Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 Maiores Empresas do Brasil e suas Ações Afirmativas, mostrou que as grandes empresas, apesar de dizerem que são socialmente responsáveis e de seus presidentes defenderem a necessidade de promover a inclusão racial, pouco fazem na prática. O discurso difere da ação. Segundo a pesquisa, a participação dos negros é de apenas 3,5% dos quadros executivos. Ainda há um longo caminho a percorrer na busca pela diversidade e eqüidade. Esperemos que as polêmicas ajudem no sentido de promover a inclusão racial e social e combater as desigualdades.

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