No topo do poder

Terça insana no Senado: lá dentro, Suplicy e o cartão vermelho; fora, Antoine e a rosa

Ivan Marsiglia, de O Estado de S. Paulo,

29 de agosto de 2009 | 15h00

A rosa já tinha sido estrategicamente colocada no topo do edifício quando ele começou a escalada. Suado e ofegante no terno escuro que limitava seus movimentos, galgou degrau a degrau o percurso até o ponto máximo do Senado Federal. Pronunciou, com esforço, palavras incompreensíveis para grande parte da audiência que o acompanhava. Finalmente, no clímax do espetáculo, esticou a mão para o objeto colorido que seria seu troféu aquela tarde. E ergueu-o, triunfante, para o ar.

 

- Zezinho, por favor, um suco de maracujá pro senador.

 

 

Foram as palavras de Heráclito Fortes diante do artista Eduardo Suplicy, que acabara de dar cartão vermelho para o presidente do Senado, José Sarney - extensivo ao próprio Heráclito. Do alto da tribuna, o petista perdeu a esportiva quando o senador piauiense questionou a sinceridade de seu gesto teatral, além de acusar o presidente Lula, "ele sim", de ter invadido o campo para fazer valer sua vontade no jogo político da Casa. Enquanto isso, lá fora, outra "invasão" ocorria naquela tarde de terça-feira.

 

EM CENA – Eduardo Suplicy pede a saída do presidente da Casa e de seu colega Heráclito Fortes

EM SÃO LUIS – Antoine e Deddu tiveram oficina cancelada após a posse de Roseana Sarney

 

O ator e alpinista francês Antoine Le Menestrel fazia evoluções sobre o concreto armado do Interlegis, um dos edifícios anexos ao Senado Federal, enquanto, do solo, seu colega músico, Jean-Marie Maddeddu, desfiava melodias na flauta e batucava no mármore das paredes. A performance, chamada Les Urbanologues Associés (Os Urbanólogos Associados), produção da companhia de teatro de rua Les Piétons (Os Pedestres), integra as comemorações do Ano da França no Brasil, com o apoio da Aliança Francesa e da Embaixada da França no Brasil.

 

Uma pequena multidão, pescoços quebrados para o alto, acompanhava os saltos vertiginosos de Antoine, sob a trilha sonora de Maddeddu, também conhecido como Deddu: "A ideia toda é fazer quem passa mirar o céu em vez de fixar os olhos no chão, como faz todos os dias", explica o músico parisiense, de inverossímeis 70 anos. Tampouco Antoine, vestido de costume e camisa social, aparenta os 50 anos que tem. Alpinista experimentado, ele mais parece um garoto a divertir-se com o perigo pela primeira vez, sobre o Eixo Monumental de Brasília.

 

Mas antes que nos perguntemos para que serve um senador da República, o que fazem afinal dois urbanólogos? A resposta eles recitam em uníssono, no saguão do Aeroporto Internacional de Cumbica, em São Paulo, pouco antes do retorno a Paris de uma turnê brasileira que durou 12 dias e passou também por Curitiba, Salvador e São Luis: "Localizam, medem, divertem, afixam, estudam, fotografam, limpam, poetizam, vistoriam, marcam, constroem, ensaiam, salientam e revelam a memória dos muros e da vida de suas calçadas". A fala é a única que consta das apresentações ao ar livre - no mais, a comunicação entre artistas e público limita-se a murmúrios e grunhidos.

 

Antoine e Deddu conheceram-se há alguns anos, durante um comentado espetáculo de rua na França, Le Corps de Balais Internacional, cujo título em francês faz um trocadilho com as palavras balais (vassouras) e ballet (balé). Vestidos como garis, os atores percorriam os bulevares parisienses a limpar calçadas, mobiliário urbano e rostos dos passantes, imitando os diferentes sotaques dos imigrantes que se encarregam do serviço sujo na Cidade Luz. Em uma cena da inusitada performance, Antoine escalava um poste ou uma marquise para coletar uma casca de fruta, um pedaço de papel ou uma camisinha usada - previamente depositada ali pela companhia. Os transeuntes iam às gargalhadas e o sucesso do esquete fez a dupla pensar em um novo projeto: Os Urbanólogos Associados.

 

Embora não se digam partidários de nenhum tipo de arte engajada, a política permeia o trabalho dos dois performers franceses. "Ser artista traz em si uma dimensão política. A arte existe para anunciar e denunciar", teoriza Deddu. "Há sempre algo de político quando se realiza um ato poético na rua", completa Antoine. Nas primeiras apresentações em Paris, quando o músico introduziu uma versão da Marselhesa com um assovio debochado, eles enfrentaram a ira da administração Sarkozy. "Tentaram nos proibir por estarmos supostamente desrespeitando o hino nacional. Mas em uma democracia ninguém deveria ser obrigado a reverenciar símbolos ou instituições."

 

Exemplos de como a política interferiu em seu trabalho não faltam - inclusive na passagem pelo Brasil. Em abril, quando a governadora Roseana Sarney ganhou no tapetão do TSE o governo do eleito Jackson Lago, a programação do Ano da França no Maranhão foi cancelada. "Só conseguimos salvar a apresentação do Urbanólogos e do grupo de dança franco-brasileiro Meia Lua", conta a diretora da Aliança Francesa em São Luis, Emilie Jacament. A oficina de formação e capacitação para jovens que o duo havia preparado para aquela ocasião perdeu-se nos meandros da burocracia. Foi quando Antoine e Deddu ouviram falar pela primeira vez no clã maranhense, de quem teriam notícia novamente em Brasília.

 

Muita gente, inclusive parte da imprensa que registrou a apresentação no anexo do Senado, confundiu-a com um protesto político. Publicou-se até que Antoine Le Menestrel seria o famoso "Homem-Aranha francês", que em fevereiro do ano passado foi detido pela polícia paulista ao tentar escalar o Edifício Itália, no centro de São Paulo. Jesus não é Genésio, nem Antoine é Alain Robert, um especialista em escaladas arriscadas e ilegais pelo mundo afora, da mesma estirpe do também francês Phillippe Petit - que em 1974 atravessou as torres gêmeas do World Trade Center equilibrando-se em cima de um cabo de aço. O feito, considerado um dos grandes momentos do chamado "terrorismo poético", é tema do filme O Equilibrista, vencedor do Oscar 2009 de melhor documentário.

 

"Alain é um atleta urbano extraordinário, que consegue viver da publicidade de suas ações em torres e arranha-céus, mesmo sendo invariavelmente preso após elas", ressalta Antoine, que conhece o conterrâneo do métier da escalada livre em Paris. "Já o nosso espetáculo é feito com autorização da prefeitura e tem um estado de espírito totalmente diferente", explica. "Eu diminuo a altura para que a poesia apareça mais." Poesia que está no gesto de buscar uma rosa nas alturas para entregá-la a uma mulher anônima, ao rés do chão. A interação com o público é parte fundamental.

 

Uma ocasião, em Marselha, a musa presenteada foi uma jovem francesa que há meses não saía de casa, em crise de síndrome do pânico - e para quem, lhes confessaria depois, a surpresa acabaria por ser terapêutica. No dia 19, em Salvador, a moça colhida ao acaso revelou um jeitinho bem mais brasileiro: "Ôxi, faltei ao serviço para vir aqui e o patrão vai me matar se sair na TV", riu a morena. "O trabalho não é só o que a gente faz, mas como isso é recebido pela plateia", resume Antoine.

 

O savoir-faire dos urbanólogos foi posto à prova na ensolarada terça-feira em que os franceses flanaram acima e em torno do Senado Federal, no exato instante em que Suplicy tentava mandar Sarney e Heráclito para o chuveiro político. Seguindo um dos esquetes fixos do show, Antoine tomou de bucha e esfregão para limpar a fachada do Interlegis. O burburinho que ouviu lá embaixo não deixou dúvidas sobre os anseios de limpeza do eleitor brasileiro. "O público riu, aplaudiu, reagiu como se eu estivesse fazendo uma referência à crise que está nos jornais do País."

 

Na quarta-feira, em São Paulo, Antoine e Deddu embarcavam satisfeitos, com a impressão de que sua peça ajudaria, de alguma forma, a virar o jogo no Brasil. Não sonhem tão alto, mes chers amis.

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