No vácuo da dor

Enquanto o trânsito ceifa a vida de jovens motociclistas, parentes ficam ao deus-dará

Mônica Manir, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2008 | 21h34

Uilson queria ter herdado um W que fosse. Que idéia estrambótica dos pais batizar o nascimento do filho com U... Pois na terça-feira, sem "u" ou "double u", Uilson nem sequer saiu no rodapé do noticiário, mesmo sendo personagem principal de um congestionamento recorde em São Paulo no dia anterior. Uilson da Silva Santos, 33 anos, primeiro dos sete rebentos de d. Maria e seu João, nascido em Sebastião Laranjeiras, microrregião da Serra Geral da Bahia, casado, pai de uma menina, sustento de mais outra, morador de Jundiaí nos fins de semana, paulistano em dias úteis, free lance de empresa de motofrete, derrapou na mão atrapalhando o fluxo da Marginal do Pinheiros em horário de pico. Bateu na traseira de um Honda Fit e caiu embaixo de um caminhão-tanque, que, segundo o boletim de ocorrência, se evadiu sentido Santo Amaro. Morreria três horas depois, às 10h40, no Hospital das Clínicas, nosocômio para onde se levam vítimas à beira do anonimato. D. Maria mandou um recado de Sebastião Laranjeiras: queria Uilson de volta. Que fosse só o caixão, mas o filho tinha raiz para enterrar, o filho tinha família. E muita. Que o diga o IML, compungido a liberar as visitas de cinco em cinco para ver o rosto do motoboy. Para o velório, os Da Silva Santos tiveram de fretar uma perua que levasse irmãos, cunhados, sobrinhos e agregados, toda a geração que Uilson ajudou a trazer da Bahia para a capital. Ficaram sem o mentor, sem o quebra-galho em informática, sem o farmacêutico amador, que medicava febres e estremiliques em função do leva-e-trás de remédio pelas ruas e de ocasionais permanências atrás do balcão da farmácia onde trabalhou até o corte de pessoal. Ficaram, nos finalmentes, sem rumo. "Acabou a alegria de morar aqui", diz Eliane, uma das irmãs, à porta de um muro a meia altura na frente de casa, no bairro São João Clímaco, zona sul da metrópole. São Paulo tem 1,3 motociclista morto por dia em acidentes de trânsito. Alguém calcularia que os 0,7 para chegar a 2 motociclistas inteiros é porque eles raramente saem assim do asfalto. Gilberto de Almeida, presidente do Sindicato dos Mensageiros Motociclistas, Ciclistas e Moto-taxistas do Estado de São Paulo, diz que, no ano passado, 400 deles morreram na hora, a maioria motoboys: "E deve ter bem mais porque, se vêm a falecer oito dias depois, não computa como conseqüência de acidente, mas porque algum órgão deixou de funcionar, por exemplo". A família, em geral, fica ao deus-dará. Fernando Aparecido de Souza, presidente da especialidade de transporte por motocicleta do Sindicato das Empresas de Transporte de Carga de São Paulo e Região, informa de seu lado patronal que, das 2 mil empresas de motoboys da capital, 80% são clandestinas. Uma tonelada de motofretistas trabalha na informalidade, sem direito a 13º, férias ou seguro de vida. Tem até empresa ambulante, com escritório dentro de kombi ou trailer de lanche. Uilson era um que fazia bicos em firma não cadastrada. Na segunda-feira, saiu de Jundiaí para a casa de Eliane, seu QG na capital. Ali esperava informações para sair torcendo o cabo pela cidade entregando documentos pelo zíper da barriga. Tinha uma Titan 125, detonada, como de resto quase as de toda a classe, mas guardava na garagem uma Tornado, com a qual pretendia fazer viagem radial até a cidade-mãe. O retorno foi em carro funerário, pago na integridade pela família.PROCESSO EMPACADOOs pais de Júlio César Lucca não arcaram com o enterro. A empresa de delivery em que ele trampava no período noturno ligou avisando que o motoboy tinha convênio funerário, "fornecido aos melhores funcionários". A empresa do horário diurno, uma firma de autopeças, pagou os dias trabalhados no mês. E deu. A família entrou judicialmente contra a Fiorino que o teria fechado na Av. Salim Farah Maluf há seis meses, mas o processo empacou porque as testemunhas são motoboys que não querem depor na Justiça. O que fizeram, no dia do acidente, foi sair feito enxame atrás do motorista da Fiorino. Ele teria invadido o corredor imaginário dos motociclistas para mudar de faixa. Júlio César se desequilibrou e, como Uilson, sucumbiu sob um caminhão, que apenas sentiu um tranco. O motorista só parou porque olhou pelo retrovisor quando começaram a gritar que ele atropelara um motoboy. De lembrança, a família ficou com o capacete discretamente manchado de sangue e o celular, que sobreviveu à ralada e por meio do qual os bombeiros ligaram para o último número discado, o da mulher. Fernanda somente acreditou na conversa dos bombeiros quando pediram que telefonasse para o hospital confirmando o acidente. A moto foi tirada das vistas do avô de Júlio César e devolvida à agência financiadora dias depois, porque a família não podia pagar as prestações de R$ 267. Das seqüelas emocionais, porém, não tem quem cuide. A mãe de Júlio César, que já havia parido angústia dilacerante quando o filho ficou em coma anos antes por causa de outro acidente, chegou a montar campana na frente da casa do dono da Fiorino, observando a entrada e saída de gente. Quando vê um motoboy, às vezes grita que é seu filho. O pai de Júlio César, um touro no início, hoje mal vai à esquina. Para a filha de 4 anos que pergunta se o pai vai voltar, Fernanda, de olheiras cinzentas e voz entrecortada, se sai com o expediente que lhe parece mais palpável: "Digo que ele está trabalhando no céu". ÚNICO FILHODentre possíveis soluções para abraçar essa megacategoria, que tem 200 mil representantes só na metrópole e "carrega a importância da cidade nas costas", bordão do sindicalista Gilberto de Almeida, estão os corredores para motos. É uma das bandeiras de Leonor Gomes. Seu único filho morreu em serviço há um ano e sete meses num túnel da Av. Anchieta com a namorada depois que um caminhão com 46 mil quilos de açúcar arrastou a moto e os dois por 50 metros. "Fizeram o favor de levar minha vida", lamenta-se, lembrando em seguida mais uma encruzilhada do destino. Karla, a namorada, era viúva de outro motoboy, também morto em acidente e com quem teve dois filhos. "Aqui ficou uma mãe sem nenhum filho e lá ficaram duas crianças sem pai nem mãe." Não sabe o que é pior.Leonor, que mal conhecia o ofício de Alcides, passou a panfletar em cruzamentos das Avenidas Teotônio Vilela, Guido Caloi e Robert Keneddy, craudiadas por nuvens de motoboys, pedindo conscientização de motoristas e pistas exclusivas para motociclistas. Rogava, nas sublinhas, que o povo percebesse a humanidade do motoboy: "Acham que ele não tem família, que não é gente porque não tem rosto, que é um vilão da cidade porque se veste sempre de preto, mas precisa se vestir assim por causa da sujeira, da fuligem, do óleo, da poluição". A professora liderou uma campanha pela vida em Finados do ano passado e já caraminhola outra para o próximo, com um abaixo-assinado embaixo do braço. Se ela pretende pilotar uma associação de mães de motoboys, como cogitaram ONGs e sindicatos, Leonor não descarta nem acata. Repudia que peguem carona na sua luta, quer que briguem por conta própria. Ela, que ficava quieta diante de comentários pejorativos sobre a profissão do filho, hoje bota a boca no trombone. Entrou com um processo contra o dono do caminhão - menos por dinheiro, mais por justiça universal. O promotor do acidente precisa sentir, no mínimo, um naco da angústia que ela vive diariamente e que lhe inviabilizou continuar também no Estado. Hoje ela só consegue dar aula de meio período em uma escola municipal. Também divulga aos quatro ventos que muitos jovens estão nessa lida porque é fácil comprar uma moto e porque faltam opções de emprego. Alcides tinha ensino médio e conhecia as entranhas de carros e motos, mas ganhava bem mais como profissional esporádico durante o dia e entregador de jornal na madrugada do que como funcionário fixo de uma mecânica. Quando fazia viagens, então, fechava o balancete do mês. Muitos colegas seus de escola hoje se podam de criticar ostensivamente a classe. Leonor acha que a cerimônia de enterro de Alcides e Karla contribuiu para isso. No momento em que os funcionários do cemitério desciam os caixões, os amigos do filho, mais ou menos na mesma faixa de idade dele - 25 anos -, pediram a Leonor permissão para um ritual de despedida. Invadiram o cemitério com as motos e, formando um círculo em torno dos túmulos do Campo Grande, aceleraram por alguns minutos com os faróis ligados. Alcides já havia participado de dois enterros anteriores, um deles de um grande amigo, de 21 anos, pego por uma lotação na Estrada do M?Boi Mirim um mês antes. Leonor não sabia que era assim. Infelizmente, tem certeza de que outras mães saberão. SÚPLICA DE MÃED. Maria queria Uilson na Bahia. Que fosse o caixão.Ele tinha raiz para enterrarDÚVIDA DE FILHAQuando ela pergunta se o pai vai voltar, Fernanda diz: "Ele está trabalhando no céu"ANGÚSTIA DE AVÓSDe um lado, ficou uma mãe sem filho. De outro, duas crianças sem pai nem mãeSEGUNDA, 15 DE SETEMBROSociedade anônima Na Marginal do Pinheiros, acidente com moto e caminhão provoca, às 9h, congestionamento de 145 km, um recorde desde o início do rodízio de caminhões. A via foi fechada para que o motoboy fosse socorrido pelo helicóptero Águia, da PM. Ele morreu no hospital.

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