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Nomeações a cargos culturais mostram falta de critérios técnicos

Osmar Terra indicou Roberto Alvim para comandar a Funarte e Letícia Dornelles para a Fundação Casa de Rui Barbosa, duas escolhas questionáveis

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2019 | 16h00

Quando lhe foi sugerido o cargo de ministro da Cultura do Bolsonaro, o médico e deputado gaúcho Osmar Terra, do MDB, recusou-o com modéstia e uma facécia: “Só toco berimbau.” 

Que comentário Stanislaw Ponte Preta teria feito à reação do dr. Osmar?, perguntei-me na época, já imaginando a pitoresca alusão ao berimbau recolhida ao Febeapá (Festival de Besteira que Assola o País), aquele farto repositório do asneirol pátrio recolhido por Lalau nos quatro primeiros anos da ditadura militar. O Febeapá nunca nos fez tanta falta como agora. Mas não foi bem por isso que me lembrei do Lalau. 

Recusada a pasta da Cultura, afinal extinta pelo atual presidente, o deputado ganhou, como uma espécie de prêmio de consolação por ter sido o último do MDB gaúcho a eleger-se no ano passado, o ministério da Cidadania, novidade bolsonarista, englobando a cultura, o esporte e o desenvolvimento social. Nem precisou filiar-se ao PSL para ganhar a prebenda.

Curiosa trajetória a do ministro. Comuna na juventude, mudou radicalmente de hemisfério ideológico – até aí, nada demais – mas exagerou na dose ao empenhar-se até o bigode no que o próprio Temer já reconheceu como golpe, ao gravar em seu celular uma mensagem natalina do sanguinário presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte. E, mais ainda, ao seguir carreira sob as asas de um idólatra do torturador Brilhante Ustra e também cercar-se de militares. 

Embora só saiba tocar berimbau, dr. Osmar acabou virando o ministro de fato da Cultura. Para infortúnio do cinema, das artes cênicas e do que mais lhe cabe fomentar, vigiar e censurar. Encaixou-se sem ranhuras no aparelhamento do Estado pelas forças mais obscurantistas do País a serviço do bolsonarismo e seu projeto de reprimir o pensamento crítico, sufocar a produção artística e, brandindo o maltrapilho espantalho do “marxismo cultural” (relíquia da aurora nazista), propagar a estupidez. 

Foi ele quem nomeou para a Funarte a figura execrável do olavista Roberto Alvim, que no mês passado mendigou seus 15 minutos de fama insultando, gratuitamente, a atriz Fernanda Montenegro. Não conseguiu mais do que um dia de execração unânime nas redes sociais. 

Esperava-se que esta tivesse sido a última nomeação desastrosa do ministro. Qual o quê. Dez dias atrás, dr. Osmar impôs à presidência de outro feudo seu, a Fundação Casa de Rui Barbosa, uma ex-repórter de TV chamada Letícia Dornelles, protegida de Carluxo Bolsonaro, o 02, e do repulsivo deputado-pastor Marco Feliciano, seu padrinho real e figurado. 

A nomeação causou o esperado mal-estar na instituição. Corrijam: nas instituições, pois são várias ao talante do dr. Osmar. Mal-estar pelo nome indicado, sem perfil acadêmico e qualquer relação com a Fundação, e pela forma como a escolha foi decidida. 

“A escolhida do pastor”, intitulava-se a coluna de domingo passado do comentarista político de O Globo, Bernardo Mello Franco, o primeiro a se surpreender com a nomeação e fazer-lhe reparos procedentes. 

A nova presidente da Fundação nem sequer toca berimbau. Escreveu novelas e séries do SBT e Record, roteiros de humorísticos, um livro de autoajuda e outro de aventura, inspirado no filho de nove anos. Poderia cuidar, até com notável desvelo, do almoxarifado da Casa, não presidi-la, função para a qual se exigem doutorado ou mestrado e conhecimento nas áreas de história e pesquisa.

Além de abrigar tudo o que o dono da casa, Rui Barbosa, nos deixou, a Fundação montou, ao longo de décadas, um formidável acervo de livros e documentos preciosos à disposição de pesquisadores e estudiosos. Estão lá guardados os arquivos privados de 147 autores, entre os quais Carlos Drummond de Andrade (padrinho do Arquivo-Museu de Literatura Brasileira, criado na Casa em 1972), João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, Rubem Braga, Clarice Lispector, Antonio Callado, Fernando Sabino – e Sérgio Porto, a verdadeira identidade de Stanislaw Ponte Preta. A papelada do inventor do Febeapá, morto em 1968, está toda lá. Em comodato, como as demais. 

Quando se pensa que pela cúpula da Fundação passaram intelectuais como Francisco de Assis Barbosa, primeiro biógrafo de Lima Barreto, e Wanderley Guilherme dos Santos, a nomeação de Dornelles surpreendeu até quem do atual governo e seus ministros nada espera de bom. 

Numa eleição interna, realizada em janeiro, a pesquisadora Raquel Valença foi escolhida, com 70% dos votos, para assumir a presidência da Casa. Embroma daqui, desconversa dali, a interina Lucia Maria Velloso de Oliveira foi ficando, até que o dr. Osmar, fiel às suas origens gaúchas, optou pela conterrânea Letícia, que, além de indicada pelo racista e homofóbico Marco Feliciano, é correligionária de Bolsonaro. 

A jornalistas cariocas a simpática teledramaturga prometeu “humanizar a Casa Rui”, com um adendo perfeitamente dispensável (“lá é mais que uma casa, é um lar, que precisa ter aconchego”) e algumas aspirações preocupantes, como, por exemplo, “acelerar as palestras”, a seu ver, “muito acadêmicas”, e nelas abrir espaço para, entre outros assuntos, a moda. Se ao menos tivesse mencionado Roland Barthes, o mundo acadêmico e pesquisadores em geral teriam ficado menos desanimados com suas simplórias ambições intelectuais. 

Que promissora presidente o Museu Carmen Miranda perdeu.

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