Paulo Whitaker/Reuters
Paulo Whitaker/Reuters

Nonada, Ralf

Ele rouba a bola, logo existe. E, se existe, sobra na diminuta faixa do campo em que joga. Um mergulho na metafísica do volante do Timão

Christian Carvalho Cruz, O Estado de S. Paulo

28 Novembro 2015 | 17h24

O Ralf é um jagunço. Jagunço? Bom, é como se referem ao camisa 5 do Corinthians quando a gente diz que pretende conversar com ele. Desejam até sorte, com um pouco de pesar. O Ralf é um jagunço, boa sorte. Só pode ser então jagunço no sentido de pouca fala, desconfiado, meio desgovernado na articulação das frases, sempre as mesmas frases começadas com “ih graças a Deus” ou “ih a equipe tá de parabéns”. Porque no outro sentido, o de jagunço capanga, volante incansável e intransponível, só sabe quem joga contra ele. Como a intenção era conversar, não entrar numa dividida com o Ralf, e ele não quis saber de papo, restou a literatura, campo santo semeado de jagunço pra todo uso, gosto e desgosto. Tem jagunço que mata, jagunço que morre. Jagunço da cidade, do sertão. Jagunço de Padre Cícero, jagunço de Oxalá. Aquela jagunçada multiplataforma. Que tipo de jagunço, pois, seria o Ralf de Souza Teles, 31 anos, paulistano periferia zona sul, 351 partidas pelo Timão, capitão do hexa, o pitbull da Fiel?

Um Riobaldo, de Grande Sertão: Veredas

O Ralf decerto tem quereres e angústias, quiçá diálogos com seu eu interior enquanto ouve o CD da Turma do Pagode, sobretudo nesses dias em que dezembro traz o fim de seu contrato e, até sexta-feira passada, nada de renovação. Os cartolas corintianos dizem que ele está pedindo muito; ele, que não sabe o que é pedir muito. A gente chuta: muito deve ser mais do que os cerca de R$ 300 mil por mês que ele ganha atualmente. Mas não é o dinheiro farto e o samba que fazem do Ralf um não-jagunço de Guimarães Rosa. É a metafísica. A falta de uma pra chamar de sua, pelo menos. Porque a metafísica do Ralf quem dá é o técnico Tite: eu roubo a bola do adversário, logo existo.

“A maioria dos jogadores tem prazer no gol. Alguns poucos, em passar a bola para um companheiro marcar o gol. O tesão do Rrrralf é tomar a bola do adversário sem fazer falta”, explica baixinho o Tite, puxando o erre ítalo-gaúcho. O Ralf nunca foi expulso desde que chegou ao Corinthians, em 2010. Na atual temporada, levou só cinco cartões amarelos em 53 jogos. Em 2012, na campanha vencedora da Libertadores, repleta de jagunços paraguaios e argentinos do outro lado, só um. Verdadeiro prodígio para um marcador inveterado.

“Mas o melhor dele, e a torcida reconhece isso”, continua o Tite, “é que joga sempre na plenitude, inteiro igual pra afastar da nossa área um cruzamento ou pra evitar um lateral.” Nos treinos, o Tite nunca chama a atenção do Ralf por causa de um cochilo na marcação, ou falta de empenho. “Não precisa.” Então, entre o canto dos quero-queros e joões-de-barro no centro de treinamento do Parque Ecológico, o nome do volante ecoa de duas maneiras apenas: “Boa, Rrrralf!”, quando ele mata mais um contra-ataque dos reservas, e “Pé de pano, Rrrralf!”, quando lhe é solicitado que domine a bola com maciez, de modo que ela não espirre pra longe.

E o Ralf, por fim, jamais seria um jagunço Riobaldo porque longe dele fazer tabelinha com o capeta. Seu avatar no Instagram é a imagem de Nossa Senhora Aparecida, a mesma que tatuou no braço direito, enorme, do ombro ao cotovelo. Tem outra de “Deus é fiel” e mais uma de “Livrai-me de todo mal, amém”. Nos dias 12 de outubro, a menos que tenha jogo, ele vai ao Santuário de Aparecida. Vai pra agradecer, porque no passado já pediu demais, diz. E como ele agradece, avemaria. Outro dia, quando um repórter mostrou surpresa com a estrutura de primeiro mundo oferecida no CT, o Ralf nem precisou raciocinar pra saber a origem da graça alcançada: “A gente só tem que agradecer a Deus, né?” 

Um Terêncio, de Roque Santeiro?

O Ralf é deveras econômico. Na fala, nos gestos, no sorriso, na quantidade de gols – foram só seis pelo Corinthians –, no jogo como um todo. Ele atua num pedaço diminuto do campo, 10 ou 15 metros entre a zaga e o meio de campo, que raramente ultrapassa. É ali que ele sobra, se doa, faz cara feia e tudo o mais que o Tite mandar. Mas domina de tal jeito o espaço que está mais pra Sinhozinho Malta que pra seu indócil guarda-costas. “Ele tem um talento nato extraordinário: a capacidade de ler o jogo, sacar o que ainda está por acontecer”, avalia o zagueiro-escritor Paulo André, hoje no Cruzeiro. “Essa percepção dele é acima da média, não sei de onde vem. O Ralf é meio bruxo.” Bruxo é diferente de mágico, tá certo?, mas não custa lembrar que o Ralf já deu lençol no Neymar. E entre seus ralos gols tem dois que saíram com chutes de primeira de fora da área (contra o Vasco em 2011 e contra o Vitória em 2013), e dois em que ele, com toda a calma do mundo, limpa o zagueiro antes de bater colocado no canto do goleiro (Santos 2010 e Grêmio 2012). O centroavante aposentado Marcos Kanu, amigo dos tempos da várzea, arremata: “O Ralf pedala, véi!” E repete diante de tanta incredulidade: “O Ralf pe-da-la!” O limitado jagunço de Dias Gomes mal sabia o que era uma bicicleta.

Um Natário da Fonseca, de Tocaia Grande?

A gente já sabe que o Ralf até arma suas emboscadas em busca do gozo supremo, que, pra ele, é roubar a bola. Mas não há nisso maiores ambições. Se acertar, se fizer extremamente bem o que lhe pedem, ficará contente e satisfeito. E basta. Diferente do jagunço de Jorge Amado, que achava pouco ser jagunço e queria ser coronel. O Ralf não aspira nem a ser capitão. Vestiu a braçadeira na goleada de domingo passado contra o São Paulo porque o Tite mandou. Valia o simbolismo: o cara mais identificado com a torcida, o volantão raça-pura, o cara que saiu do time depois de uma derrota pro Palmeiras, voltou e deu o equilíbrio necessário à estupenda arrancada no segundo turno, permitindo que Renato e Jadson brilhassem, esse cara merecia ter o nome anotado nos livros: o capitão corintiano que levantou a taça do hexa. 

Mas faltou combinar com o presidente do clube, Roberto Andrade. Sem hematoma nas canelas, suor na testa ou bicudas no tornozelo, ele recebeu o caneco e, em vez de repassá-lo ao capitão, foi fominha como o Ralf nunca teria sido: o levantou para a saraivada de flashes e chuva de papel picado. O Ralf não reclamou. Jamais reclamaria. Mesmo sabendo que um lance parecido no passado resultou no seu maior calvário.

Era 2005. Depois de ganhar um título paulista da quarta divisão com o Clube Atlético Taboão da Serra, e ser artilheiro da competição com 13 gols, o Ralf foi chamado pra jogar a Copa São Paulo de juniores pelo São Paulo. Ele e o amigo Kanu. “Havia uma proposta melhor do Corinthians, com dinheiro envolvido. Mas os dois escolheram o São Paulo, que era o time da infância deles”, relembra o ex-zagueiro e hoje presidente do Taboão, Anderson Nóbrega. Pois é, o Ralf foi são-paulino. Mas todo corintiano que o viu, no finalzinho do jogo do título contra o Vasco, cantando alto o hino do Timão, tem o dever de lembrar, se por acaso esqueceu: as leis da física permitem que se aprenda a amar o Corinthians mesmo nascendo em outros berços; já o contrário é impossível. Além do mais, o Rivellino torcia por aquele time de verde... Então deixa isso pra lá.

Bem, a verdade é que no São Paulo as coisas não deram certo pro Ralf. Ele foi dispensado depois de seis meses. O Kanu ficou dois anos, acabou vendido para o América do México, perambulou por Portugal, Romênia e hoje, aos 30, ajuda um amigo a carregar e descarregar caminhão de merenda escolar. Os dois se conheceram aos 16, quando jogavam no Barcelona. De Interlagos. Um o oposto do outro. Kanu, o atacante malaco-malemolente certo de que seu futuro era a seleção brasileira. Ralf, o cabeça de área mudo, incansável, dedicado, mas com dúvidas se um dia vingaria jogador profissional. Ralf chamava o Kanu de Pretão. Kanu chamava o Ralf de Piscina na Favela, “por causa dos olhos verdes naquela cara feia”. 

Sentado na praça de alimentação de um shopping na zona leste, usando brincos de brilhante e olhos azuis igualmente falsos, o Kanu conta o que aconteceu com o Ralf no São Paulo. “Se liga na resenha, tio. Me lembro como se fosse hoje”, ele pede. “O Vizolli era o técnico. Um dia ele foi ao meu quarto e disse: ‘Você foi bem, vai continuar. Mas seu amigo não tem personalidade pra ser jogador de futebol, vamos dispensar ele’.” Rodopiando o celular sobre a mesa e esticando as pernas finas embaixo dela, o Kanu continua: “O Ralf sempre foi muito quietão. Nos treinos no São Paulo, ele perdia a bola ou errava um passe, e os playboyzinhos que jogavam lá xingavam ele. ‘Que porra você fez, moleque? Não sabe jogar sai fora. Aqui não tem lugar pra grosso. Volta pro Taboão.’ O Ralf nunca respondeu, nunca xingou de volta. E o Vizolli, que tinha sido um volante durão, tipo cão de guarda, achava que ele tinha que reagir”. Até na fila do bandejão furavam a vez do Ralf – como depois faria o presidente corintiano –, e ele preferia engolir a criar caso.

Aos 50 anos, o técnico Vizolli está de novo nas categorias de base do São Paulo. É treinador auxiliar do time que acaba de ser campeão da Copa do Brasil Sub-20. Numa manhã ensolarada e muito quente antes das dez da manhã, ele chega ao centro de treinamento de Cotia (SP) pendurado ao celular. Eram os filhos chamando. “Você me desculpa, mas é que deixei escapar uma de minhas calopsitas e as crianças estão tristes. Vai morrer, tadinha. Bicho manso demais, não sabe se virar na natureza.” Eu penso no Ralf. 

O Vizolli se lembra da timidez atroz do menino chegado do Taboão. Mas não acha que foi esse o motivo da sua curta permanência no São Paulo. “O problema foi que a gente já tinha dois ótimos volantes, o Hernanes (hoje na Juventus de Turim) e o Jean (Fluminense). A concorrência era complicada e o Ralf não teve chance de mostrar seu potencial”, reconhece. Seguro de que o destino agiu sozinho, o Vizolli rebate: “Não dispensei o Ralf. Mas foi a melhor coisa que aconteceu a esse moço. Nessas situações em que um jogador jovem deixa um clube grande, a regra é que a carreira dele definhe. Só os com uma força de vontade incomum sobrevivem. O Ralf sobreviveu”. Eu penso na calopsita.

Depois do São Paulo, o Ralf foi jogar no interior do Maranhão, onde só comia salsicha e bolacha. O salário não passava de uma miragem. Não desistiu porque o dinheiro não dava nem pro ônibus da volta. Ficou e foi campeão pelo Imperatriz, marcando gol na decisão. Como ele já disse – e nesse sentido talvez se aproxime do jagunço de Jorge Amado, mas com uma dose cavalar de resignação que Natário da Fonseca não tinha –, “o bonito do futebol é que ele dá voltas”.

Um Diadorim, de Grande Sertão: Veredas?

A mãe do Ralf, dona Elena, considera o seu caçula um bom menino porque ele é, nesta ordem, muito religioso, dedicado e não quer ser mais do que ninguém. Baiana de Vitória da Conquista, ex-diarista, ela mora com o marido Gildete na mesma casinha simples na região do Grajaú onde criou os três filhos: Cleomar, segurança, Kleber, metalúrgico, e o Ralf. A dona Elena diz que, apesar de agora ter um filho rico, não se muda porque teme não se acostumar em outro lugar. “Aqui eu sei quem é bom e quem é mau. Pros lados do Ralf (Tatuapé) eu não conheço nada. Se ele me forçar a ir pra lá eu vou, mas prefiro ficar. Ele vem me visitar a cada duas semanas. Para o carrão aí na rua e a campainha toca o dia inteiro. Todo mundo querendo foto e autógrafo. Ele nem consegue almoçar, coitado.” Nesses dias, a dona Elena faz pro Ralf uma rabada e um ovo frito com manteiga, que, segundo ela, é a fonte da vitalidade dele. 

Parada no alto da escada que desce até a casa na parte baixa do terreno, ressabiada e sem se arriscar portão afora, ela lembra que o filho jogador é dado a esconder as coisas mais importantes da vida dele. “Do sofrimento no Maranhão, depois que mandaram ele embora do São Paulo, acho que o Ralf só me contou a metade”, ela diz, olhando pro chão. “Mas eu sou mãe, levei ele pra cima e pra baixo pra fazer teste, peneira, essas coisas, sei direitinho o tamanho da tristeza.” 

Como o jagunço rosiano cheio de segredos, até a ida pro Corinthians o Ralf escondeu. “Só ficamos sabendo pela televisão.” Quando voltou pra casa, depois da apresentação no clube, ele se explicou: “parecia tão mentira” que jogaria com o Ronaldo Fenômeno que preferiu ver primeiro pra crer. E por que o Ralf é tão calado, dona Elena? “Ah, isso é de família, né? A gente é tudo assim mesmo, meio encabulado. Espero que vocês não levem ele a mal.” Ora, de modo algum. O Ralf é homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Ele protegendo a zaga, nonada, nonadinha: o diabo não há. É o que diz, se for... o bando de loucos. Travessia. Que lá vem a Libertadores. /COLABOROU THALES SCHMIDT

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