Nordeste não virou mar, virou tsunami

É verdade que estava chovendo, havia chovido, mas daí a se transformar num rio de lama e luto, ninguém nem desconfiava

RAIMUNDO CARRERO,

03 de julho de 2010 | 12h22

Foi o padre de Palmares (128 quilômetros do Recife, na Zona da Mata de Pernambuco) quem deu o aviso: Corram que vem água por aí. Muita. E não era profecia de Antônio Conselheiro nem anúncio do fim do mundo, era verdade. Verdade nua e crua, como se diz por aqui. Verdade cruel. Mal fechou a boca e o Rio Una arrebentou, num barulho de fazer inveja a carro elétrico no carnaval. Quem viu, quem viu mesmo de perto, disse que lembrava um tsunami.

 

Conversa, que comparação mais louca: porque também nunca ninguém daqui viu um tsunami de perto. Que, aliás, não se vê de muito perto, nem guarda lembrança. Vai junto com as águas para as profundas e nunca mais. Quer dizer, dizem, não é?

Mas quem disse ao padre? Foi o moderníssimo celular. Em plena missa? Pois é, em plena missa.

 

Que deve ter sido uma surpresa para os paroquianos: o padre interrompendo a celebração para atender: "Quem é? Diga aí!" Ele quem disse. Ele, o sacerdote. Disse assim: o padre de Catende (142 quilômetros do Recife, também na Zona da Mata) havia telefonado avisando que vem água por aí, água muita, estourando. E as pessoas já saíram da igreja com água cobrindo os pés. É verdade que estava chovendo, havia chovido, mas daí a se transformar num rio de lama e luto ninguém nem sequer desconfiava. Houve um tempo, sim, em que as águas subiam as margens, avançavam pelos terreiros, molha um pouco aqui, molha uma pouco ali, e só. Coisa de somenos.

 

Quem não foi lá e viu as imagens pela televisão ficou impressionado. Algo verdadeiramente arrebatador: as águas violentas rolavam pela Cachoeira do Urubu (zona turística de Pernambuco, perto da cidade de Bonito) com um vigor de mar sangrando e despejando pânico. No Recife, os estragos foram menores porque há um trabalho permanente da defesa civil da prefeitura. Mesmo assim morreram nove pessoas em desabamentos em áreas do subúrbio. Os desabrigados foram colocados em escolas e edificações públicas.

 

Mas esse é apenas um quadro mínimo - talvez ilustrativo - do que viria a acontecer no Nordeste numa semana de terror. Tão acostumada com as secas, a região atravessou um momento de dor e agonia; frio, fome e sede. Noutros tempos, era capaz de sair uma procissão nadando para pedir o fim das chuvas a Deus, que haveria de colocar a mão no queixo, pensando: "O que é que eu faço? Mando seca, reclamam, mando chuva, reclamam também, esse povo não se contenta com nada". É claro que chuva faz bem, mas tudo na medida exata. Também não precisa exagerar. E exagerou tanto que 57 pessoas morreram, mais de 100 mil ficaram desabrigadas e centenas perderam as casas, as roças, os animais. Cidades inteiras foram transformadas em pó. Literalmente. Palmares e Barreiros vão recomeçar nos alicerces. Estão isoladas, quase. Pontes caíram, estradas foram destruídas, plantações devastadas. Também perderam roupas, imóveis, utensílios.

 

Há, é claro, explicações científicas para o fenômeno que, além das mortes, deixou 26 mil desabrigados no Rio Grande do Norte, 25 mil no Maranhão, 17 mil no Ceará, 40 mil em Alagoas e 6 mil no Piauí. Aliás, Alagoas sofreu danos iguais ou maiores que Pernambuco, cuja área atingida foi apenas a Zona da Marta, que faz quase divisa com o Recife. O sertão não virou mar nem tsunami. Ficou com sua aguinha de açude mesmo. Apesar de alguma chuva em pleno verão. Há desaparecidos ainda em números não confirmados, mas alguns voltaram para casa depois que as chuvas passaram e as águas baixaram. O presidente Lula desceu do helicóptero com o governador Eduardo Campos, testemunhou os estragados, abraçou desabrigados, liberou verbas e prometeu acompanhar a recuperação das cidades.

Dizem os especialistas que três eventos climáticos no Hemisfério Sul são, com certeza, a causa de uma calamidade tão sem medida. Sem medida e surpreendente. Uma dessas causas, talvez a principal é o que chamam de Zona de Convergência Intertropical - ZCIT -, que provoca um encontro de ventos do Norte e do Sul e atua quase sempre na Linha do Equador, desce para o Nordeste e depois retorna ao Norte aí pelo mês de março. Ocorre que a ZCIT não voltou. Pois é, gostou tanto que não voltou. Cruzou os braços e disse só saio daqui quando saci cruzar as pernas. Juntou-se à Alta da Bolívia, que transporta a umidade da Amazônia para outros locais, e às linhas de instabilidade, nuvens formadas no litoral. Juntas causaram o estrago. Nem adiantou o padre atender o celular.

 

Restou a solidariedade brasileira, tão solicitada nesses momentos e sempre atendida. Além das ações governamentais, formaram-se grupos em bairros, escolas, prédios, bares; escreveram-se dezenas de matérias e artigos. Na verdade, as populações atingidas não ficaram sequer com as roupas do corpo. Sinceramente, sem as roupas. Por pouco não desfilaram peladas nas calçadas e nas televisões. No entanto, não é exagero dizer: o Nordeste está nu. Mas não fechem os olhos, por favor.

 

RAIMUNDO CARRERO, ESCRITOR E JORNALISTA, É AUTOR DE MINHA ALMA É IRMÃ DE DEUS (RECORD)

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