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Norma Winstone grava clássicos do cinema com roupagem de jazz

Cantora inglesa se aventura pelas trilhas sonoras sem cair nos temas clichês

João Marcos Coelho*, O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2018 | 16h00

A trajetória da cantora inglesa Norma Winstone, hoje com 76 anos, é a prova de que é possível manter alto padrão de critérios artísticos por longos períodos e ainda assim sobreviver dignamente. Algo impossível para a maioria dos músicos de qualquer gênero, que até podem atingir picos de criatividade elogiável, mas escorregam para obviedades comerciais em um ou vários momentos de suas vidas profissionais. Sua mais recente gravação, o CD Descansado, por exemplo, passa ao largo das centenas de incursões oportunistas no universo dos temas que as trilhas sonoras do cinema inocularam no inconsciente coletivo do planeta.

Assim, o que seria apenas mais um tributo transforma-se na reinvenção de melodias tão conhecidas, ora por meio de versos instigantes propostos pela própria Norma, ora através dos arranjos refinados a ponto de soarem como música de câmara. Numa de muitas entrevistas, Norma diz que adora “as palavras, mas ouço a voz como som”. Ou seja, como um dos timbres que contracenam com os demais. É sua quarta gravação em uma década de convivência com dois notáveis parceiros instrumentistas: o alemão de Düsseldorf Klaus Gesing, 50 anos, tão bom no clarinete e clarone quanto no sax-soprano; e o italiano de Udine Glauco Venier, 55 anos, econômico e preciso pianista. As anteriores são Distances (2008), Stories Yet To Tell (2010) e Dance Without Answer (2014), sempre pela ECM.

Muitas vezes já se exaltaram os principais atributos da música camerística, aquela criada para ser feita em pequenos ambientes: a intimidade entre os que a fazem no dia a dia. Exige anos e anos de convivência para amadurecer. Pois em Descansado Norma interage com Klaus e Glauco como se estivessem numa sala de estar, fazendo música por puro prazer. Em algumas das performances, convocam a percussão minimalista do norueguês Helge Andreas Norbakken, de 53 anos. E, requinte dos requintes, convidam o italiano Mario Brunello, 58 anos, para intervenções ao violoncelo tradicional, mas também ao cello piccolo, que nos fazem buscar outros registros deste músico muito menos conhecido do que seria justo supor.

Não se ouve uma cantora acompanhada por dois instrumentos. São, na verdade, três músicos que interagem em jogos timbrísticos. Sobretudo nas canções em que Norma faz um delicado scat, como Lisbon Story, em que quase esquecemos a voz impactante de Teresa Salgueiro, do Madredeus, ou em Vivre Sa Vie, do filme homônimo de Godard. Mesmo cantando versos tão poderosos quanto os que celebram o amor de Romeu e Julieta no filme de Franco Zeffirelli, Norma interage com os instrumentos em perfeita simbiose.

Piano e voz, ambos minimalistas, abrem His Eyes, Her Eyes, música de Michel Legrand, letra de Marilyn e Alan Bergman, para o filme Thomas Crown – Arte do Crime, de 1968, dirigido por Norman Jewison. O sax-soprano junta-se a eles em 1’30. O contraste é absoluto em relação às versões em geral suntuosas, como uma que me agrada especialmente, a de Sarah Vaughan com o próprio Legrand comandando a orquestra.

Em What is a Youth?, mais conhecida como A Time for Us, tema de amor de Romeu e Julieta, do mesmo ano, composta por Nino Rota, a bateria começa discretíssima. Sob lindas e etéreas frases do clarinete, a partir de 2’30 a música toma a forma de uma dança do Renascimento, coisa que a linha melódica de Rota sugere e eles realizam de modo notável. Destaque para o emocionante violoncelo de Brunello, cereja nesta finíssima iguaria musical. Coroando seu solo, Norma quase fala as palavras, em vez de escancaradamente cantá-las: voz e cello concluem juntas o verso final.

A faixa-título, Descansado, foi escrita por Armando Trovaioli (1917-2013) para Ieri, Oggi, Domani (Ontem, hoje e amanhã), filme de Vittorio de Sicca de 1963, comédia com Sophia Loren e Marcello Mastroianni. No filme, a música é uma bossa nova perfeita, incluindo o bom piano e a bateria meio quadrada. A letra de Norma é linda mesmo em tradução literal: “Vamos celebrar a vida e o amor / Suavemente deslizar rio abaixo / Os dias tranquilos se foram para sempre (...) Então, basta manter a música tocando / Enquanto as luzes da cidade estão brilhando, iluminando o caminho / Nós juntaremos botões de rosa se tivermos sorte e aproveitarmos para viver hoje.”

Vivre Sa Vie, filme de Jean-Luc Godard de 1962 com sua mulher Anna Karina vivendo uma prostituta em 12 breves episódios, é a segunda das cinco trilhas que Michel Legrand compôs para o então jovem cineasta. Dos três minutos da música, quase metade é apenas instrumental. Norma só dobra o clarinete em “scat” levíssimo no final do primeiro minuto. Os acordes repetidos no piano acolchoam o clarinete melancólico, e soam às vezes como sinos. Um achado. 

Lisbon Story, canção antológica do filme igualmente antológico de Wim Wenders de 1994 (no Brasil, O Céu de Lisboa), com trilha do grupo português Madredeus. Desafio e tanto para Norma, já que o timbre da voz de Teresa Salgueiro marcou indelevelmente a melodia (música e letra de Pedro Aires Magalhães). Pois o scat de Norma consegue afastar-se da Salgueiro, evoca por instantes as mágicas sonoridades da voz inconfundível de Milton Nascimento.

Para Malena, filme de 2001 de Giuseppe Tornatore, música de Ennio Morricone, com Monica Bellucci no seu esplendor de beleza provocando paixão num menino de 13 anos, Ennio Morricone criou uma melodia que já é de tirar o fôlego – os versos de Norma não ficam atrás. A performance (novamente com trio, violoncelo e percussão) é sóbria porque a música já destila muita emoção, particularmente quando Gesing emerge com o que realmente soa como um momento de improviso: um solo de saxofone soprano quebrando momentaneamente a atmosfera fria com um sentimento de saudade. Em tempo: Norma não havia assistido ao filme quando escreveu a letra. Ela incluiu o verso “a cada passo, ela está só” reagindo à sensação de distância e alienação dos acordes do piano.

O argentino Luis Enríquez Bacalov, 85 anos, já assinou mais de cem trilhas, mas é conhecido pela que fez para o filme Il Postino (O Carteiro e o Poeta), de 1994, dirigido por Michael Radford e baseado no livro de Antonio Skármeta sobre o exílio de Neruda. Philippe Noiret encarna o poeta chileno e Massimo Troisi está fabuloso como o carteiro. A melodia do tema do carteiro, de um lirismo delicadíssimo, é um acalanto entoado por Klaus ao clarone. Ao final, na coda, Klaus o substitui pelo clarinete para entoar o tema principal e “chamar” Norma para encerrar a melodia. Tudo isso em menos de 5 minutos. Outro diferencial é a letra de Norma: “O que poderíamos ser / Nunca saberemos / Uma sequência de memórias” (tradução livre). 

O tema de Amarcord (I Remember) é uma das gemas de Nino Rota compostas para o filme, obra-prima de Fellini de 1973. Começa só com piano, depois Norma canta o tema acompanhada de piano e clarinete. Na parte central, intervenções do clarone, pitadas de percussão sutilíssimas e voz. Tudo termina com a volta do piano solo, cada vez mais adágio, desconstruindo o tema devagar, até esfumaçar-se no silêncio completo. Antológico.

Meryton Townhall, de Pride and Prejudice (2005), dirigido por Joe Wright (no Brasil, Orgulho e Preconceito), é baseado no romance de Jane Austen publicado em 1813. O clarone faz o pedal para o violoncelo de Brunello entoar ainda sem pulso o tema que logo se transformará numa dança frenética. Em seguida, o clarinete, apoiado por um acorde repetido do piano, entoa o tema. Norma entra então fazendo sua voz dançar sobre o tema, remetendo-nos a uma dança inglesa, com ecos de uma galharda. A música é de Dario Marianelli, italiano de Pisa nascido em 1963. No filme, a famosa English Chamber Orchestra apenas toca. Os versos são de Norma.

Touch Her Soft Lips and Part, do longa Henry V, realizado em 1944 por Laurence Olivier, dirigindo e atuando, sobre a peça de Shakespeare, tem luxuosa trilha sonora do compositor inglês William Walton (1902-1983). Norma começa à capela. Seus versos, emocionantes, são um tocante tributo ao marido, o pianista Paul Taylor, e ao trompetista Kenny Wheeler. 

Os três formaram o Azimuth, refinado e camerístico trio de música improvisada, que gravou bastante para o selo ECM entre 1977 e 1994. Taylor morreu em julho de 2015, aos 72 anos; e Wheeler em setembro de 2014, aos 84 anos. É a mais impactante performance do violoncelo de Brunello. O piano é jazzístico, mas o clima é camerístico. Sensação de amor e perda (Taylor gostava de tocar esta música). Brunello toca um violoncelo piccolo. A letra diz mais ou menos o seguinte: “No topo da colina / Quando ela o vê partir / Não há mais sol no céu dela / Não há mais alegria em seu coração / Toda a sua magia / Ainda vive em sua mente / E ele está lá fora em algum lugar / Ela se lembra de sua voz / E do toque dos seus lábios”.

Theme (So Close to Me Blues) de Taxi Driver, a obra-prima de 1976 de Martin Scorsese, recebeu a música sempre essencial de Bernard Herrmann. Foi sua última trilha, composta no ano anterior (ele morreu em 24 de dezembro de 1975). Na trilha original, é o sax-alto que enuncia o tema memorável. Aqui, acordes ao piano acolchoados por um trêmolo do clarone embalam os versos escritos por Norma. Na parte central, um tenso solo do clarinete devolve a palavra a Norma, que termina com Life’s a cruel game, survival is its name.

Juro que me senti no escuro do cinema vendo passar os letreiros finais da projeção ouvindo Vivre Sa Vie ao piano solo. Um minuto e dez segundos que nasceram como brincadeira de Glauco Venier ao piano no estúdio de gravação e chamaram a atenção de Manfred Eicher, o refinado capo da ECM, que sugeriu sua inclusão no final desta bem-aventurada incursão de Norma, Klaus, Glauco e Brunello pelo mundo das trilhas de cinema. 

*João Marcos Coelho é jornalista, crítico musical e autor do livro 'Pensando as Músicas no Século XXI' (Perspectiva) 

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