Kirsty Wigglesworth/Associated Press
Kirsty Wigglesworth/Associated Press

Nos 500 anos da morte de Leonardo da Vinci, paradeiro de sua obra mais cara é um mistério

'Salvator Mundi', arrematado por US$ 450 milhões em 2017, havia sido anunciado pelo Louvre Abu Dhabi, mas sua exposição foi cancelada e o museu não consegue localizar a obra

David D. Kirkpatrick, The New York Times

06 de abril de 2019 | 16h00

ABU DHABI, EMIRADOS ÁRABES UNIDOS - O Louvre Abu Dhabi parece ter tudo o que se pode querer de um museu de categoria internacional. Seu design aclamado tem uma enorme cúpula que parece pairar sobre as águas do Golfo Pérsico e faz sombra às galerias. No interior há obras de Rembrandt e Vermeer, Monet e van Gogh, Mondrian e Basquiat.

No entanto, a obra que o Louvre Abu Dhabi prometeu para ancorar sua coleção está ostensivamente ausente: Salvator Mundi, uma pintura de Jesus Cristo atribuída a Leonardo da Vinci.

Poucas obras evocaram tanta intriga, seja no mundo da arte ou entre as cortes da realeza do Golfo Pérsico. Primeiro, sua autenticidade como produto da própria mão de Leonardo foi objeto de intenso debate. Então, em novembro de 2017, tornou-se a obra mais cara jamais arrematada em leilão, arrecadando US$ 450,3 milhões de um licitante anônimo que se soube ser um aliado próximo e possível representante do governante da Arábia Saudita, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman.

Agora, a pintura está envolta em um novo mistério: Onde afinal, está Salvator Mundi?

Embora o departamento de cultura de Abu Dhabi tenha anunciado cerca de um mês após o leilão que havia, de qualquer forma, adquirido Salvator Mundi para exibição no Louvre local, uma exposição da pintura, programada para setembro passado foi cancelada sem explicação. O departamento de cultura se recusa a responder perguntas sobre o assunto. Funcionários do Louvre Abu Dhabi dizem privadamente que não têm conhecimento do paradeiro da pintura.

O Louvre em Paris, que licencia seu nome para o museu de Abu Dhabi, também não conseguiu localizar Salvator Mundi, segundo um funcionário com conhecimento das discussões do museu com Abu Dhabi, que preferiu não se identificar por causa da confidencialidade das negociações.

Altos funcionários do governo francês, a quem pertence o Louvre em Paris, estão ansiosos para incluir Salvator Mundi em uma exposição histórica neste outono, para marcar o 500º aniversário da morte de Leonardo e dizer que ainda se espera que a pintura possa ser apresentada a tempo. (Um representante do Louvre se recusou a comentar.)

Mas alguns especialistas em Leonardo dizem que estão alarmados com a incerteza sobre o paradeiro e o futuro da pintura, principalmente após o anúncio de Abu Dhabi de que a pintura seria exibida ao público.

“É trágico”, disse Dianne Modestini, professora do Instituto de Belas Artes da Universidade de Nova York e conservadora que trabalhou no Salvator Mundi. “Privar os amantes da arte e muitos outros que se comoveram com essa imagem - uma obra-prima tão rara - é profundamente injusto.”

Martin Kemp, um historiador de arte de Oxford que estudou a pintura, descreveu-a como “uma espécie de versão religiosa da Mona Lisa” e “a mais forte declaração de Leonardo sobre a qualidade efêmera do divino”.

“Eu também não sei onde está”, acrescentou.

Observando que nunca ficou claro, em primeiro lugar, como Abu Dhabi poderia ter adquirido a pintura dos sauditas - seja por meio de um presente, empréstimo ou venda privada - alguns especularam que o príncipe herdeiro Mohammed poderia simplesmente ter decidido mantê-la. A embaixada saudita em Washington se recusou a comentar.

O príncipe herdeiro de 33 anos pode não ser o primeiro proprietário da pintura na realeza. Acreditando-se que foi pintado por volta de 1500, Salvator Mundi foi um dos dois trabalhos semelhantes listados em um inventário da coleção do rei Charles I da Inglaterra após sua execução em 1649, disse o professor Kemp. Mas a pintura desapareceu do registro histórico no final do século XVIII.

O quadro vendido por um preço recorde no leilão, mais tarde apareceu na coleção de um industrial britânico do século XIX. Tinha sido tão fortemente repintado que “parecia um hippie ensandecido por drogas”, disse o professor Kemp, e o trabalho foi atribuído na época a um dos seguidores de Leonardo. Em 1958, foi vendido por fora dessa coleção pelo equivalente a US$ 1.350 em dólares de hoje.

A alegação de que a pintura foi a obra do próprio Leonardo se originou depois que um par de marchands a viu em um leilão em Nova Orleans em 2005 e a trouxe para a professora Modestini da Universidade de Nova York.

Ela retirou o excesso de tinta, reparou os danos causados por uma rachadura no painel de madeira e restaurou os detalhes. Entre outras coisas, uma das mãos de Jesus parecia ter dois polegares, possivelmente porque o artista mudou de ideia sobre onde o polegar deveria estar e pintou sobre o polegar original. Fora exposta ao ser raspada mais tarde, e a professora Modestini cobriu o polegar que acreditava que Leonardo não queria.

Essa nova atribuição a Leonardo conquistou para a pintura uma retrospectiva de seu trabalho na National Gallery de Londres em 2011. Dois anos depois, um bilionário russo, Dmitry E. Rybolovlev, a comprou por US$ 127,5 milhões - menos de um terço pelo qual vendeu em 2017, quando foi leiloada em Nova York pela Christie's.

Agora, o fracasso do Louvre Abu Dhabi em exibir Salvator Mundi, como prometido, reviveu as dúvidas sobre se é mesmo uma obra de Leonardo, com os céticos especulando que o novo proprietário pode temer a análise do público.

Um especialista em pinturas de Leonardo, Jacques Franck, enviou cartas ao gabinete do presidente francês, Emmanuel Macron, levantando dúvidas sobre qual o artista ao qual se deve atribuir a obra. O chefe de gabinete de Macron, François-Xavier Lauch, escreveu que o presidente “estava muito atento às preocupações”.

Outros argumentaram que a pintura foi restaurada de forma tão extensa pela professora Modestini que é tanto o trabalho dela quanto o de Leonardo.

“Bobagem”, disse ela em uma entrevista, chamando essas alegações de “ridículas”.

Contratos de leilões geralmente incluem uma garantia de autenticidade de cinco anos. Mas a extensa documentação pública e o debate antes da venda de 2017 tornariam difícil para o comprador recuperar o pagamento, contestando a atribuição da obra a Leonardo.

O comprador anônimo no leilão em Nova York, príncipe Bader bin Abdullah bin Mohammed bin Farhan al-Saud, era um membro pouco conhecido de um ramo distante da família real saudita, sem uma fonte pública de grande riqueza ou histórico de importante colecionador de arte. Mas ele era um amigo íntimo e confidente do príncipe herdeiro Mohammed. Alguns meses depois do leilão, a corte real nomeou o príncipe Bader como o primeiro ministro da cultura do reino.

Inicialmente, a Christie’s procurou proteger tanto a identidade do príncipe Bader durante a licitação, que criou um número de conta especial para ele, conhecida apenas por um punhado de executivos da casa. Mas os contratos e correspondências obtidos pelo The New York Times mostraram que o príncipe Bader era o comprador anônimo.

Altas autoridades americanas a par do acordo disseram mais tarde que o príncipe Bader estava de fato agindo como substituto do próprio príncipe herdeiro Mohammed, o verdadeiro comprador de Salvator Mundi.

O príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Mohammed bin Zayed, é um aliado do príncipe herdeiro Mohammed, da Arábia Saudita. E o presidente do departamento de cultura e turismo de Abu Dhabi, Mohamed Khalifa al-Mubarak, é um dos principais assistentes do príncipe herdeiro do emirado.

Em junho passado, Mubarak anunciou com grande alarde que Salvator Mundi seria exibido como parte da coleção permanente do museu em setembro de 2018. “Tendo passado tanto tempo desconhecida, esta obra-prima é agora nosso presente para o mundo”, disse ele, em um comunicado divulgado no jornal de propriedade dos Emirados, The National. “Estamos ansiosos para receber pessoas de perto e de longe para testemunhar sua beleza.”

Quando setembro chegou, no entanto, a exposição foi cancelada sem explicação e nunca foi remarcada.

Funcionários do museu disseram que apenas Mubarak poderia responder a perguntas sobre a pintura, e um porta-voz de Mubarak, Faisal al-Dhahri, disse que nem Mubarak nem o ministério fariam comentários.

Enquanto isso, quaisquer pistas sobre a movimentação de Salvator Mundi deixam o mundo da arte agitado.

Uma pessoa a par dos detalhes da venda da pintura disse que ela foi enviada para a Europa após a conclusão do pagamento. E a professora Modestini disse ter ouvido de um especialista em restauração que ela havia sido solicitada por uma companhia de seguros para um exame da pintura em Zurique no outono passado, antes de ser enviada mais tarde.

Mas o exame foi cancelado e o especialista em Zurique, Daniel Fabian, se recusou a falar do assunto.

Depois disso, disse a professora Modestini, “perdem-se as pistas”.

A agressividade e impulsividade do príncipe Mohammed ficaram sob o olhar público há pouco no Ocidente, depois que as agências de inteligência americanas concluíram que ele ordenou a morte no outono passado do dissidente Jamal Khashoggi, colunista do The Washington Postque foi emboscado e desmembrado por agentes sauditas no consulado em Istambul. Mas na época do leilão, o príncipe já demonstrara o gosto por caros troféus, pagando US$ 500 milhões por um iate e US$ 300 milhões por um castelo na França.

Como um artigo do Times sobre o papel do príncipe Bader no leilão estava prestes a ser publicado em dezembro de 2017, o Louvre Abu Dhabi, possivelmente para desviar a atenção dos gastos extravagantes dos sauditas, tuitou que Salvator Mundi estaria chegando à sua coleção./Tradução de Claudia Bozzo

 

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