TASSO MARCELO/ESTADÃO
TASSO MARCELO/ESTADÃO

Nos 80 anos do início da 2ª. Guerra, um tributo aos soldados jornalistas

Joel Silveira e o cronista Rubem Braga foram dois grandes nomes que lutaram contra o nazifascismo na Itália

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

21 de setembro de 2019 | 16h00

Foram dois setembros. No primeiro, de 1939, a Alemanha invadiu a Polônia e deu início à guerra. No segundo, de 1944, o Brasil entrou fisicamente no conflito com os seus soldados armados de máquinas de escrever e câmeras fotográficas.

A primeira leva de pracinhas de nossa brava e precariamente preparada Força Expedicionária embarcara três meses antes para o Mediterrâneo, mas os nossos melhor preparados correspondentes de guerra tiveram de esperar pelos embarques seguintes. Também naquele setembro ocorreram as primeiras vitórias brasileiras, com a tomada de Massarosa, Camaiore e Monte Prano. 

No contingente de mais ou menos dez jornalistas –fora os chapas-brancas civis e militares –cinco destaques: Rubem Braga (pelo Diário Carioca), Joel Silveira (pelos Diários Associados), Egydio Squeff (O Globo), Raul Brandão (Correio da Manhã) e, a serviço da United Press, Silvia Bettencourt, mais conhecida como Majoy, única mulher do grupo. Carlos Lacerda também quis ir, mas foi vetado pela ditadura getulista.

Poderia justificar este artigo como uma celebração do papel do Exército brasileiro na octogenária derrocada do nazifascismo ou uma barretada ao livrinho de Helton Corte sobre a participação dos correspondentes brasileiros na guerra, Crônicas de Sangue, publicado no início deste ano pela editora Motres, mas não dissimularei as razões mais profundas desta pauta: meu fascínio por tudo que diga respeito àquela guerra e as saudades que vez por outra sinto do Velho Braga e do (cinco anos menos) Velho Joel.

Enviamos para acompanhar a vitória aliada dois repórteres de ponta, escritores de alto nível, ambos rabugentos, hoje, com justiça, mais lembrados do que todos os generais responsáveis pela nossa campanha bélica na Itália. Escrever bem é a melhor vingança.

Rubem não pretendia fazer uma cobertura que interessasse aos técnicos militares, mas “uma narrativa popular, honesta e simples”, da vida e dos feitos de nossos combatentes, explicou na introdução de Com a FEB na Itália, sua coletânea de reportagens da guerra, reeditadas pela Record com outro título. Cumpriu o prometido, com um brutal saldo credor. Joel, pioneiro do que se convencionou chamar de “jornalismo literário”, publicou mais de um livro sobre o Brasil no conflito, nenhum mais empolgante do que O Inverno na Guerra.

Ao se despedir do jovem (26 anos) repórter, Assis Chateaubriand lhe pediu: “Seu Silveira, me faça um favor de ordem pessoal. Vá para a guerra, mas não morra. Repórter não é para morrer, é para mandar notícias.” Joel seguiu as ordens do patrão. Mandou notícias, mas, ao contrário de Rubem e Brandão, não foi sequer ferido durante o expediente. 

Joel chegou à Itália dois meses depois dos demais companheiros, no quarto escalão, com divisa de capitão. Seu mais implacável inimigo, naquelas confrontos a mais de mil metros de altura, entre montanhas e penhascos, não foram os soldados alemães e italianos, mas o frio torturante que no inverno de 1944-45 fustigou a Toscana e os Apeninos. 

Nascido e criado na quentura de Sergipe e aclimatado ao calor carioca, Joel sofreu mais do que seus companheiros com o ar gelado. Enfurnado nos frígidos escombros do quartel dos carabinieri de Pistoia, a uns 10 km da zona de combate, era obrigado, como os demais, a cumprir o “doloroso ato” diário de deixar o quentinho dos ‘sleeping bags’ às cinco da manhã, vestir roupas pesadíssimas e descongelar água às pressas para as abluções matinais.

Squeff tentava em vão animá-los: “Guerreiros, de pé! À luta! Vamos acabar logo com a porcaria dessa guerra que estou doido pra voltar ao meu chopinho na Galeria Cruzeiro.” Consolavam-se com o café da manhã, quente e farto, todos os itens made in USA, trazidos para os GIs, os pracinhas americanos sob comando do general Mark Clark, comparsas de bivaque e mordomias dos brasileiros.

Rubem já emergia de sua “cama-rolo” com um cigarro na boca e comia pouco, quase nada. Squeff ficava no café com pão. Joel, para não perder a rima, era um Pantagruel. “Comia muito, quase sempre demais.” 

Só por volta das 10 horas o sol comparecia com seus raios “combalidos e agonizantes”. De pandulho cheio, a rapaziada da mídia se amontoava num jipe conduzido por um “fero cabo de São Borja” (terra de Getúlio Vargas), que antes de pisar no acelerador gritava: “Deus é grande!”. Iam até onde lhes era permitido pelas normas de segurança. E assim foi ao longo de mais ou menos oito meses. 

Joel e Squeff eram os únicos a dispor de franquia telegráfica, o que assegurava mais “atualidade” às suas correspondências. Constrito pela lentidão do serviço postal, Rubem partiu para uma cobertura menos factual, mais crônica do que reportagem. 

Apesar de mais ligado a Rubem (fundariam, dali a oito anos, o semanário Comício), Joel acabou fazendo do “frágil e ardiloso” Squeff seu principal companheiro de batalhas. Juntos brindaram, no Biff da Galeria Vittorio Emmanuelle, em Milão, a rendição da 148ª Divisão Panzer alemã e a imolação de Mussolini e Clara Petacci. 

Faltando cinco dias para o fim oficial da guerra, Joel, já desligado de suas obrigações e prestes a embarcar de volta para o Brasil, pegou carona no jipe de um sargento, em direção a Milão. Ainda fardado, sentindo-se “como alguém fantasiado de palhaço numa Quarta-feira de Cinzas”, cruzou, no meio da estrada, com o que restara de um regimento de artilharia alemão: um patético bando de soldados amarfanhados, famintos e sem rumo. Um cabo que falava italiano puxou conversa com Joel. Os tedescos sabiam do fim da guerra mas não tinham para onde ir; as cidades de alguns deles haviam sido arrasadas por bombas das forças aliadas. 

Cena memorável. Está no último capítulo de O Inverno da Guerra, uma aula de narrativa e jornalismo. 

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