Nós no país da ética light

As maracutaias do poder nos jogam num 'Brasil do B' em que pagamos tudo dobrado

Renato Janine Ribeiro, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2010 | 01h42

Nós, brasileiros, vivemos o risco de nos tornar um povo blasé. Não passa mês sem a revelação de práticas pouco ortodoxas de nossos homens públicos. Um deles conseguiu do Judiciário, faz um ano, a censura a este jornal. Há dias, soubemos que um dirigente da área de segurança pública mantém amizade e talvez negócios com um suspeito de crimes. Tenho sempre sustentado que a corrupção não aumentou, o que seria lastimável, e sim que cresceram a percepção da corrupção e a aversão a ela, o que é positivo. Devo confessar que esta convicção é o que me poupa de ser blasé. Permite-me esperar que, mesmo num prazo mais demorado do que desejaria, este país se torne um lugar sem miséria, sem injustiça social, sem injustiça, em suma, um país decente.

O homem público obedece a uma ética diferente da privada? Esta discussão é crucial. Fernando Henrique Cardoso citava Max Weber: enquanto o indivíduo particular - qualquer um de nós - pode pautar suas ações pela moral de princípios, por valores como os dez mandamentos, o político tem de considerar os resultados que sua ação terá. A ética do político seria de resultados, a dos cidadãos seria uma ética de valores ou princípios. FHC tem razão, no sentido de que não basta o político ser honesto: precisa agir para melhorar nossa vida. Mas o problema é que, ouvindo isso, supomos que o homem público tenha uma ética com deságio. Para governar, ele precisaria unir-se a políticos fisiológicos. Na melhor das hipóteses, nossos políticos honestos viveriam uma opção trágica: ou se mantêm honestos e não conseguem aprovar nada que melhore o Brasil, ou cedem a seus aliados ruins - cedendo o menos possível - e aí asseguram algum avanço econômico, social. É um cálculo penoso de custo-benefício. Estou convicto de que os políticos éticos, que os há, vivem essa escolha de sofia.

Mas não é pouco achar que a vida pública segue uma ética reduzida, light, empobrecida? E se o político devesse ser mais ético, e não menos, que o cidadão privado? Posso estar sendo otimista demais, mas a meu ver quem sinaliza que tem preço acaba, sim, tendo preço. Mostra que pode ser comprado. Já um homem público, em qualquer poder que seja da República, que se mostre honesto estará mais afinado com os sinais de um tempo que parece prezar a transparência e desprezar a corrupção. Pode ser esta a base que falta para finalmente construirmos nossa república: o regime que valoriza a res publica, a coisa pública, o bem comum. A história dispõe de exemplos neste rumo, talvez raros mas veementes - políticos que apelam ao povo, à opinião pública, quando algo no seu meio se mostra podre, errado, inaceitável.

Dá para aceitar que a proporção de processados, entre os políticos, seja maior do que entre os cidadãos que eles representam? Pouco após o fim da ditadura, um cidadão ofendeu o jornalista Sergio Cabral (pai), dizendo que o parlamento estava cheio de corruptos. Cabral respondeu com verve: "Tenha certeza de que todos os parlamentares foram eleitos e, portanto, todos os cidadãos estão representados por eles, inclusive o senhor". Infelizmente, porém, esse inteligente lembrete - de que os eleitos nos representam - hoje só conta metade da história. É verdade que quem elege ladrões é o povo. Mas também é fato que o sistema é organizado de modo que, às pessoas dignas, a política não soa como a carreira mais adequada. Será preciso muito para mudar isso. Um passo importante pode ser dado com a lei da Ficha Limpa. Também é boa a decisão da Justiça de divulgar na internet o prontuário dos candidatos. Mas o fundamental é não desistir da política, é exigir que os eleitos se pautem por valores que sejam os nossos.

Acostumamo-nos a viver num país paralelo, um Brasil "do B". Os leitores deste jornal pagam impostos para sustentar a saúde, a educação e a segurança públicas, mas também pagam um seguro-saúde, uma escola particular e um segurança para sua rua ou prédio. Ou seja, pagamos duas vezes a mesma coisa. Isso se justifica? Como não se confia plenamente no Estado, centenas de milhares de brasileiros são voluntários em ONGs. É uma bela atitude - que vai mudar o Brasil. Mas por que aceitamos que o Estado - municipal, estadual ou federal - cumpra só parte de suas tarefas? Por que admitimos essa duplicação de nosso país, um que elegemos e pagamos mas em que não acreditamos, outro que também pagamos e no qual acreditamos mais? O país do Estado e o país da sociedade têm de ser um só. A decepção com os políticos é cara: ela nos força a trabalhar dobrado para, no fim das contas, termos uma sociedade e uma república incompletas.

RENATO JANINE RIBEIRO É PROFESSOR TITULAR DE ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA DA USP

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