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Trama fascinante faz referência à hesitação de Getúlio sobre o lado a aderir na 2ª Guerra

Dennison de Oliveira, O Estado de S. Paulo

04 Abril 2015 | 16h00

O reerguimento econômico, militar e diplomático da Alemanha sob o regime de Adolf Hitler levou ao auge a parceria com a ditadura de Getúlio Vargas. Chegou mesmo a criar uma situação até então inimaginável: em 1938, a Alemanha nazista ultrapassou os Estados Unidos como maior parceiro comercial do Brasil. 

A mudança definitiva do Brasil, da esfera de influência ianque para o “bloco do marco” nazista, parecia iminente. Para tornar a situação ainda mais perigosa para os EUA, boa parte desse comércio era de armas. Não se podia descartar um acordo militar de vastas implicações, tanto mais que já havia um convênio policial. As polícias de ambos os países colaboravam no combate à ação de agentes do movimento comunista internacional, promovido pela URSS. O Brasil parecia que iria acabar se juntando ao Pacto Anti-Comintern, firmado em 1936 entre Japão e Alemanha para combater a ação da Internacional Comunista, com sede em Moscou.


Além dos estadunidenses, também alguns brasileiros temiam esse cenário, em especial aqueles mais atentos às conexões que a seção do Partido Nazista alemão no Brasil estava criando entre a enorme e influente comunidade local de origem germânica. Desde antes da 1ª Guerra autoridades brasileiras denunciavam o perigo dos “quistos” de colônias de imigrantes estrangeiros, isto é, aquelas que resistiam a serem assimiladas à cultura nacional e adotar o português como seu idioma. A mais ameaçadora era a colônia alemã. 

À época da guerra o nazismo foi promovido em jornais, igrejas, escolas e organizações paramilitares da comunidade alemã. Um cenário muito temido era o da irrupção de um levante de inspiração nazista, apoiado por desembarques de tropas alemãs, que levasse a Região Sul do Brasil ao separatismo e posterior adesão ao III Reich. O Partido Nazista no Brasil só perdia em número de filiados para a própria sede na Alemanha. Hitler tinha grande número de nazistas no Brasil que poderia chamar de “meus”.

Um acordo entre Brasil e Alemanha era perfeitamente possível. O documento poderia vir a incluir a seção, em algum grau, de liberdade de ação para o Partido Nazista no Brasil, único partido político sob a ditadura de Hitler e então parte integrante do aparelho de Estado Nacional da Alemanha. Em troca, o Brasil certamente obteria as armas já encomendadas e o financiamento para construir a tão sonhada Usina Siderúrgica de Volta Redonda, com a assistência técnica da Krupp. Nada disso era muito diferente do que pretendiam à mesma época os militares dos EUA, ansiosos para negociarem com Vargas autorização para construir bases, portos, aeroportos e vias de comunicação para uso de suas próprias Forças Armadas em território brasileiro, no interesse da assim chamada “defesa hemisférica”. 

Foi com referência a esse crítico contexto histórico, em que Vargas hesitava sobre o lado em confronto na 2ª Guerra Mundial ao qual Brasil deveria aderir, que Miguel Sanches Neto construiu a trama maravilhosa, fascinante e assustadora de seu livro A Segunda Pátria. 

A narrativa se refere a um Brasil em que vigora o domínio nazista. Nele o Partido Nazista exerce, de fato, o poder sobre a Região Sul do Brasil, com suas leis raciais, suas normas autoritárias e sua inabalável crença na superioridade da civilização e cultura alemãs, já devidamente nazificadas. No livro, tal situação foi resultado de um acordo entre Hitler e Vargas, amplamente apoiado pelos membros da ditadura varguista, os quais admiravam o poderio nazista e se identificavam com a postura agressiva e revisionista então adotada pela Alemanha. O ministro da Guerra, general Dutra, seu chefe de estado-maior, o general Góes Monteiro, e o chefe de polícia, Filinto Muller, notórios simpatizantes da Alemanha, se encarregariam de levar essa política a bom termo: é um fato que Vargas também tinha nazistas a que ele podia chamar de “meus”. 

A fascinante ficção de A Segunda Pátria torna realidade o que, para muitos brasileiros à época da 2ª Guerra, era um medonho pesadelo, prestes a se concretizar: o Partido Nazista se torna o único existente; as organizações paramilitares se assumem como parte das Forças Armadas da Alemanha e do partido; começam os expurgos na administração pública de todos os opositores, inconformados, críticos e, lógico, dos indivíduos considerados “racialmente inferiores”. São abertos campos de concentração onde os presos, sem nenhum processo penal prévio, são reduzidos à mais abjeta escravidão, tudo em proveito da “nova ordem” nazista. Correspondentemente, se intensificam os contatos com a Alemanha Nazista: autoridades, militares e administradores de origem alemã viajam constantemente entre os dois países, sendo considerados em ambos como autênticos alemães, incluindo os nascidos nesta segunda pátria, agora em pleno processo de nazificação. 

Em 22 de fevereiro de 1942 o mundialmente famoso escritor austríaco Stephan Zweig e sua mulher, Lotte, então exilados no Brasil, cometeram suicídio. Em sua carta de despedida o escritor de origem judaica constatava que a sua língua materna e a Europa, então quase totalmente sob ocupação nazista, estavam destruídos. Não manifestava nenhuma esperança de reversão desse quadro, revelava não ter forças para reiniciar a vida e fazia votos de que seus amigos conseguissem sobreviver para ver a aurora de uma época futura, na qual o nazismo tivesse, enfim, deixado de existir. É perfeitamente possível que Zweig estivesse, ao se matar, cedendo ao pânico de vir a ser colocado sob o tacão da ocupação nazista da qual, em fuga, veio parar no Brasil. O livro de Miguel Sanches Neto torna realidade, através da ficção mais crível e de uma trama excepcionalmente bem construída e instigante, o pesadelo de pessoas como Zweig.

DENNISON DE OLIVEIRA É PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ (UFPR) E AUTOR DE OS SOLDADOS BRASILEIROS DE HITLER (JURUÁ)

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