Rick Gilligan
Rick Gilligan

‘Notas de um Apocalipse’ é um livro para se preparar para o pior

Trabalhando no livro há quatro anos, Mark O'Connel descreve o pressentimento de que a civilização estivesse à beira de um colapso

Jennifer Szalai, The New York Times

17 de abril de 2020 | 14h56

Quando Mark O’Connell começou a trabalhar no seu novo livro, Notes From an Apocalypse, há quatro anos, já estava refletindo sobre o fim do mundo. “Eu estava obcecado pelo futuro, uma obsessão que se manifestava como a impossibilidade de conceber se realmente existiria algum tipo de futuro”, ele escreve.

“As inquietações de cunho pessoal, profissional e político haviam se fundido na apreensão quanto à iminência de uma catástrofe que me consumia”. A desigualdade cada vez maior, o aumento do nacionalismo, os incêndios florestais, o degelo das calotas polares: Ele descreve a sensação esmagadora de um pressentimento, o medo de que todo edifício civilizatório que tivesse sido erigido se encontrava à beira do colapso total.

O timing de O’Connell era um pouco prematuro ou simplesmente correto. Nos últimos três meses, uma pandemia global já matou dezenas de milhares de pessoas, interrompeu frágeis cadeias de suprimentos e revelou  quais são os governos que se mobilizarão rapidamente para salvar vidas e quais não o farão. O que outrora era considerado um cenário de fim de mundo começa a se configurar como uma situação real.

Mas Notes From an Apocalypse não quer ser uma resposta a um evento determinado; é uma exploração por obra de uma sensibilidade. O’Connell afirma que o seu livro foi motivado por sua própria tendência ao escatológico”. Ele sabe que esta inclinação é muito antiga; as convulsões e as incertezas sempre deram origem a pensamentos cataclísmicos. O acesso cada vez maior à informação não atenuou o temor de que alguma coisa esteja degringolando - ao contrário, estamos mais informados do que nunca a respeito da muitas forças que poderiam nos abater. “E se agora  for exatamente o fim do mundo?” escreve O’Connell, “E com isso quero dizer ainda mais o fim do mundo?”

Ele parte para uma série de “peregrinações perversas” a lugares onde “seria possível vislumbrar” o fim. E não se refere a zonas de guerra, a  campos de refugiados ou à paisagem destroçada que um furacão deixa atrás de si. Com a exceção da zona de exclusão de Chernobyl, na Ucrânia, onde O’Connell participa de um tour em grupo para visitar os escombro do derretimento ocorrido em 1986, os destinos deste livro são o oposto de áreas de desastre - são lugares onde as pessoas se reúnem para conversar sobre o futuro ou aonde poderiam ir para escapar do que temem  que ainda possa acontecer.

O’Connell viaja de sua casa em Dublin até o Dakota do Sul para conhecer um fornecedor de bunkers decorados em que os sobreviventes ricos podem viver pelo resto da vida com acesso a um depósito privado de DNA e a um campo de golfe com 18 buracos. Uma jornada a uma reserva selvagem nas Highlands da Escócia lhe proporciona a chance de se comunicar com a natureza, e ele descreve detalhadamente o seu medo de carrapatos. Ali conhece colonos que pretendem ir para o espaço em um congresso da Sociedade Marciana de Los Angeles. Mergulha no Lago Wanaka, na Nova Zelândia, engolindo a primitiva água potável de que o bilionário da tecnologia Peter Thiel - que obteve a cidadania neozelandesa em 2011 e adquiriu propriedades naquele país - pretende desfrutar quando o apocalipse chegar (ou a revolução).

Algumas das escalas deste diário de viagem são tão espetacularmente cenográficas que fiquei com inveja, e nem um pouco desconfiado: aí estava alguém  que imaginara uma maneira de dar a volta ao mundo escrevendo sobre o seu fim.

O’Connell admite que como homem branco que vive uma existência confortavelmente burguesa - com casa própria, casado com dois filhos -, está envolvido em uma “complexa teia de culpa e auto menosprezo”. Ele voa para extensos idílios, expandindo a sua pegada de carbono para alcançá-los. “Evidentemente teria sido mais saudável, sem falar que teria sido mais útil, tentar fazer um pouco de bem no mundo”, escreve, “mas não me pareceu ser dessa maneira que eu estava conectado”.

Em vez disso, o que ele oferece é uma engraçada investigação auto depreciativa de sua própria cumplicidade. A sua terapeuta aparece intermitentemente; em uma sessão, O’Connell começa falando de memes da internet e acaba referindo-se ao cabelo do psicólogo Steven Pinker. Ele lê para o seu filho a história do Lorax, do Dr. Seuss, uma gentil criatura que preside uma paisagem despida de sua produção desenfreada de objetos de consumo chamados Thneeds.

O’Connell procura imaginar quais serão seus próprios Thneeds, e o custo humano que exigirá para fazê-los. Ele pensa com tristeza nas pessoas que colheram os grãos do seu café, e nos operários da fábrica “que fizeram o smartphone no qual ouvia podcasts políticos de esquerda enquanto caminhava, tomando o meu café com leite”.

Várias pessoas que se preparam para o apocalipse que ele conheceu, ou sobre as quais leu, em geral têm montanhas de dinheiro, ou então encontraram uma maneira de servir os que têm. Embora 99% possam ter começado a guardar feijão e papel higiênico, os verdadeiros ricos há muito entesouram outros recursos, imensamente mais valiosos e caros, passaportes, imóveis, previdência privada, desfrutando do ar limpo e de água potável.

Estes Ultras do Fim dos Tempos parecem não se incomodar com o colapso da civilização, escreve O’Connell, “enquanto eles puderem continuar criando riqueza” para si mesmos. É difícil imaginar exatamente como se arranjarão nessa pós-sociedade, sem  ninguém para servi-los, em primeiro lugar sem trabalhadores e consumidores para ajudá-los a criar riquezas. Mas a questão não é uma visão de mundo coerente. O sujeito que se prepara e o jornalista que voa ao redor de meio mundo para escrever a seu respeito estão reagindo ao mesmo estímulo.

“Ambos”, diz O’Connell, “procuram maneiras para negociar o seu terror”.

Citando Sarah Sharma, crítica de cultura, O’Connell afirma que há algo “fundamentalmente masculino” nestas narrativas que falam de fuga - a fantasia do patriarca autônomo que precisa retirar-se do mundo em vez de lidar com ele. Sarah Sharma contrapõe isto à ética da assistência, que encara os fatos da contingencia e da dependência tentando cultivar a solidariedade e o sustento. Enquanto O’Connell estava negociando o seu terror, afirma, sua esposa pediu que prestasse atenção no mundo como ele é: “Esta foi uma casa, e as pessoas tentavam viver nela”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Notes From an Apocalypse: A Personal Journey to the End of the World and Back

Autor: Mark O’Connell

Editora: Doubleday

252 páginas

US$ 9,50 (e-book)

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