Notícias da 'guerra branda'

Burocratas, militares e clérigos lançam uma superofensiva para reislamizar a sociedade iraniana. Pode dar errado

Robert F. Worth*, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2009 | 00h13

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Após a questionada eleição presidencial de junho, o governo do Irã se apoiou pesadamente na força bruta - espancamentos, prisões e julgamentos de fachada. Tudo para reprimir o aguerrido movimento de oposição do país. Agora, atingido pela força e a persistência dos protestos, o governo parece começar um esforço mais ambicioso para desacreditar seus oponentes e reeducar a população, especialmente os irrequietos jovens do Irã. Basta conferir a grande variedade de ofensivas ideológicas anunciadas nas últimas semanas.

 

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Ele está implantando 6 mil centros da milícia Basij em escolas elementares por todo o país para promover os ideais da Revolução Islâmica. Fora isso, criou uma nova unidade policial para "caçar" vozes discordantes na internet. Uma companhia filiada à Guarda Revolucionária adquiriu participação majoritária no monopólio das telecomunicações do país, promovendo o controle efetivo das linhas telefônicas fixas, das provedoras de internet e de duas companhias de telefonia celular do Irã. Até meados do próximo ano, a guarda pretende abrir uma agência de notícias com departamentos de impressão, fotografia e televisão.

 

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O governo chama a ofensiva de "guerra branda", e os líderes do país com frequência parecem levá-la muito mais a sério do que um confronto militar real por assentar-se numa antiga acusação: a de que os males domésticos do Irã são o resultado da subversão cultural do Ocidente. O alcance da nova campanha demonstra como a elite militar e clerical do Irã foi abalada pelos protestos que desencadearam a pior dissensão interna no país desde a Revolução Islâmica em 1979.

O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, vem usando a expressão "guerra branda" regularmente desde setembro, quando advertiu um grupo de artistas e professores de que eles estavam vivendo numa "atmosfera de sedição" e todos os fenômenos culturais precisam ser vistos no contexto de uma vasta batalha entre o Irã e o Ocidente. Khamenei e outras autoridades vêm invocando a expressão ao descrever os esforços para reislamizar o sistema educacional, expurgar influências e professores seculares e purificar a mídia de ideias subversivas. A nova ênfase na guerra cultural também pode refletir a crescente influência da Guarda Revolucionária, cujo líder, Mohammad Ali Jafari, vem sendo há muito o principal propositor de "guerra branda", segundo analistas.

Em outubro, Masud Jazayeri, importante ideólogo dentro do Comando Militar das Forças Conjuntas, publicou uma carta no jornal conservador Kayhan em que pediu uma campanha agressiva contra a subversão. "Se tivéssemos maior compreensão do inimigo, jamais teríamos permitido que ele penetrasse em nossa sociedade". Já houve campanhas anteriores para reforçar a mensagem islâmica do governo. E alguns analistas dizem que os novos esforços provavelmente não serão mais eficazes que no passado, ou seja, o tiro poderá sair pela culatra. "Ao tentar maior controle da mídia e reislamizar escolas, eles acham que podem fazer um retorno. Mas o inimigo aqui é a demografia do Irã. A população é esmagadoramente alfabetizada e jovem. Esforços anteriores para reinstalar a ortodoxia só exacerbaram a separação entre cidadãos e o Estado", analisa Mehrzad Boroujerdi, professor na Universidade Syracuse.

Mesmo assim, a ideia voltou com força após as contestadas eleições presidenciais de junho, que levaram milhões às ruas para denunciar como fraude a vitória esmagadora do presidente Mahmoud Ahmadinejad. Nas semanas subsequentes, a aura de autoridade sagrada do governo pareceu erodir ainda mais, com manifestantes denunciando pela primeira vez o líder supremo do Irã como ditador. Então os líderes militares e clericais deixaram claro, logo depois, que viam naqueles ataques a assinatura de uma conspiração externa, talvez mais sutil e insidiosa que as do passado. Foi, em certo sentido, a única maneira de a liderança iraniana conciliar os desafios internos que estava enfrentando com os apelos moderados por conciliação e entendimento do presidente americano Barack Obama.

No início de setembro, o brigadeiro Muhammad Bagher-Zolghard, ex-subcomandante da Guarda Revolucionária, esboçou o conceito de "guerra branda" num discurso: "Numa guerra dura, a linha entre você e o inimigo é clara, mas numa guerra branda, não há nada sólido. O inimigo está por toda parte". Pouco depois desse discurso, as autoridades tomaram uma série de medidas e o general anunciou a "era da cooperação" entre a mídia e a Guarda Revolucionária.

As autoridades têm reprimido dissidentes dentro do sistema educacional e informam aos professores que não acompanharem a linha oficial: serão expurgados. Alguns clérigos já pediram que os currículos universitários de humanidades sejam mais islamizados.

Mohammad-Saleh Jokar, chefe da seção de cultura e estudantes da Basij, disse que o grupo estava abrindo centros em escolas elementares porque "os alunos nessa idade são mais abertos à influência que estudantes mais velhos, por isso queremos promover e estabelecer (entre eles) as ideias da revolução e da Basij", segundo relato à agência de notícias oficial.

Mas o tamanho e a complexidade burocrática do sistema escolar tornam esses objetivos extremamente difíceis, segundo ex-professores. Da mesma maneira, os esforços para inocular nos iranianos ideias contra a mídia também podem ser muito complicados - ou basicamente contraproducentes, dizem analistas. Este mês, um funcionário de alto escalão da Irib, a emissora estatal, pareceu admiti-lo involuntariamente quando anunciou que 40% dos iranianos - duas vezes mais do que no ano passado - tiveram acesso a televisão por satélite em suas casas. "O inimigo não investe mais em forças militares para promover seus objetivos", afirmou o tal funcionário, um homem chamado Ali Daraei. E foi adiante: "O investimento principal do inimigo reside na guerra da mídia por canais via satélite".

*Correspondente do New York Times no Oriente Médio

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