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Notícias de uma guerra particular

Como o jornalismo impresso tem enfrentado os tempos de crise

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2009 | 21h49

Extra! Extra! Os jornais vão acabar!Relaxem. Parafraseando Mark Twain, as notícias sobre a morte do jornalismo impresso têm sido um tanto ou quanto exageradas. Algumas até irresponsavelmente alarmistas, como a que Michael Hirschorn veiculou este mês na revista The Atlantic, agendando a derradeira edição do New York Times para daqui a três meses. Nem os abutres da blogosfera acreditaram nessa agourenta hipérbole. Vaticínios desse teor são cíclicos como o El Niño, mais frequentes que as aparições do cometa Halley, e em geral duram o que dura uma epidemia de gripe. As revistas semanais, que diziam estar com os dias contados, no fim dos anos 1980, continuam circulando. Como o New York Times deverá continuar circulando nos próximos anos. Em que condições, ninguém pode prever. Pois as notícias sobre a crise da mídia impressa em geral - e do New York Times em particular - não estão sendo colhidas numa bola de cristal.Jornais encolhendo ou desaparecendo, demissões em massa, crise tão profunda e extensa, nunca se viu. Com uma agravante: quando a quebradeira de bancos e financeiras teve início, em setembro, a mídia impressa já estava no CTI, levantando a suspeita de que lá possa permanecer mesmo depois de a economia mundial receber alta. Aos habituais suspeitos - fuga de leitores e anunciantes para a internet, preguiça dos jovens para ler qualquer coisa impressa, elevação dos custos de tinta, papel e distribuição - é preciso acrescentar outro, usualmente negligenciado: as decisões equivocadas que muitas empresas jornalísticas tomaram quando os ventos sopravam a favor. Era a outro gênero de empreendimento audacioso que Hubert Beuve-Méry se referia quando disse que o Le Monde, por ele fundado em 1944, não era um jornal, mas "uma aventura". A aventura está completando 65 anos. Teve uma queda de 5,3% na tiragem em 2008, mas não perdeu o cetro de "jornal referência da França". Chegou às bancas na segunda-feira com um novo design; ganhou mais fotos, gráficos, fontes um pouco maiores; ficou mais arejado visualmente, sem romper com a reforma de quatro anos atrás. Atrair novos leitores foi a motivação principal do new look, providência que deu certo no concorrente Le Figaro e no inglês The Guardian, para só citar dois exemplos recentes. Mas é claro que do Le Monde espera-se algo mais do que uma peau neuve. Foi tranquilizadora a promessa de que o jornal permanecerá impermeável a mudanças que contrariem seu espírito. "Vamos selecionar e analisar os fatos marcantes, explicar o essencial e esclarecer a atualidade sob ângulos originais", prometeu seu editor, reforçando a crença de que o jornal impresso só tem algum futuro se for mais analítico. Notícias frescas chegam primeiro à internet, ao rádio e à televisão. A guaribada no Le Monde coincidiu com a proposta de Nicolas Sarkozy de oferecer 600 milhões para aliviar os prejuízos e modernizar a imprensa francesa. Embrulhado em boas intenções ("é preciso zelar pela existência de uma imprensa livre, pluralista e independente"), o pacote prevê um aumento de 100% no fluxo da publicidade institucional do Estado para jornais e revistas, um corte substancioso nas tarifas postais e a concessão de assinaturas gratuitas a leitores jovens. A proposta é, no mínimo, polêmica. São muitos os que se recusam a acreditar na possibilidade de uma imprensa livre, pluralista e independente se socorrida pelo que o jornalista Eugênio Bucci chamou de "Leviatã publicitário", em artigo bastante esclarecedor sobre a máquina de propaganda do governo brasileiro, publicado na página 2 do Estado de quinta-feira. Como a circulação média de nossos jornais cresceu 5% em 2008, expansão já prevista no início de dezembro, quando o site The Huffington Post fez alarde de "um boom jornalístico no Brasil", é possível que o presidente Lula não se sinta constrangido a propor um pacote similar ao de Sarkozy. Se e quando o fizer, poderá saltar a primeira parte (já que os gastos de seu governo com publicidade ultrapassam os 600 milhões prometidos pelo presidente francês) e ir direto às demais, embora pareça improvável a hipótese de Lula dar força a uma indústria cujo principal produto só lhe dá azia. Por não ser uma marolinha, a crise da imprensa requer, entre nós, um alerta amarelo. Ou laranja. Nos Estados Unidos, atual epicentro de todas as desordens provocadas pelo vil metal, o alerta vermelho já foi ligado. Natural, portanto, que lá tenha surgido a maior quantidade de propostas para salvar aquilo que Thomas Jefferson julgava mais importante que a existência de qualquer governo. Solução satisfatória, até agora, nenhuma. Nem sequer da facção menos pessimista, a que pertence, por exemplo, John Martin, que, na última edição da American Journalism Review, não só afirma que "a situação poderia estar pior" como prevê um futuro menos instável para publicações com tiragem inferior a 40 mil exemplares. Renegociar as dívidas, diminuir custos operacionais (especialmente de papel e impressão), desfazer-se de ativos que pesam no orçamento, eis as medidas recomendadas às empresas por John Martin. Refinanciar dívidas, a essa altura, é o mesmo que aplicar band-aid numa ferida aberta. A objeção foi feita pelos analistas financeiros David Swensen e Michael Schmidt, num artigo para o New York Times, publicado na quarta. Eles tampouco recomendam cortes na redação, lembrando que seis dos maiores jornais americanos reduziram sua equipe, nos últimos três anos, sem alterar o curso da crise. Confiar em demasia nas promessas da comunicação digital, é, segundo Swensen e Schmidt, perda de tempo; sobretudo porque os anúncios atraídos pelas edições online não conseguem "sustentar uma cobertura noticiosa robusta". O que o New York Times faturou, em outubro, com os seus 20 milhões de leitores online, daria para pagar apenas 20% dos salários da redação.A saída apresentada pela dupla é surpreendente: a transformação dos jornais em instituições sem fins lucrativos, mantidos por dotações privadas, como colégios, universidades e museus, aí sim livres, acreditam, de percalços financeiros e pressões de ordem econômica. Thomas Jefferson talvez visse essa quimera filantrópica com alguma simpatia. Sem, contudo, acreditá-la exequível.

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