Popperphoto/The Washington Post
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Nova biografia mostra como Kierkegaard seguiu na contramão da filosofia de seu tempo

O filósofo que se rebelou nas questões da alma é analisado em livro de Clare Carlisle

Sophie Madeline Dess, The Washington Post

09 de maio de 2020 | 16h00

Durante o processo ao qual estava sendo submetido, diante dos cidadãos de Atenas, como é notório, Sócrates se comparou a um moscardo - uma praga, talvez enviada por um deus - com o intuito de “despertar, persuadir e recriminar” seus concidadãos atenienses para que eles não passassem “o resto de suas vidas dormindo”. Se ele era um moscardo, então eram o seu néctar eram a piedade, a justiça e a ortodoxia intelectual. E ele se alimentaria destas questões morais e éticas até eliminar sua ilogicidade e revelar-lhes seus duvidosos fundamentos.

Mais de 21 séculos mais tarde, Sócrates - ou pelo menos, o método socrático da revelação - reviveriam, desta vez na forma de um dinamarquês imerso em profundas meditações, que se define um Sócrates da cristandade, Soren Kierkegaard. Clare Carlisle, em sua nova biografia, um livro brilhante e penetrante,  Philosopher of the Heart: The Restless Life of Soren Kierkegaard, explica que Kierkegaard pensava na contramão da linha filosófica do seu tempo.

Para tanto, ela optou por um método inovador. Segundo a observação do filósofo, muitas vezes citada - a vida deve ser vivida olhando para a frente, mas só pode ser entendida olhando para trás - Carlisle abandona a cronologia padrão por um estudo em três partes. A primeira começa em 1843, quando Kierkegaard acabava de completar 30 anos; a seguir, passamos para “A Vida entendida olhando para trás”, uma consideração sobre os anos 1948 a 1813, o ano do seu nascimento. A seção final, “A vida vivida para a frente”, nos conduz de 1849 até a sua morte, em 1855. Com esta estrutura nada convencional - uma abordagem coerentemente oblíqua para um homem reconhecidamente dialético - Carlisle está melhor posicionada para escancarar  a vida do filósofo, e o que nos é apresentado é uma espécie de panorama, em que a obsessão de Kierkegaard  por sua noiva, Regine Olsen, (ligação cujo rompimento inspirou grande parte dos seus escritos), sua preferência pelo café (em grandes quantidade, açucarado), sua obsessiva ética do trabalho, suas cartas calorosas, penetrantes, as reflexões sobre Deus e o indivíduo - nos são apresentadas como um todo entrelaçado.

Carlisle não sacrifica o rigor intelectual ao optar por este quadro mais amplo. Sua obra é profundamente apurada em sua abrangência. Por exemplo, desde o início, ela mostra apropriadamente o amplo cenário intelectual da época: A Copenhague de Kierkegaard no século 19 mergulhava, assim como o restante da Europa intelectual, no pensamento de Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Segundo a filosofia de Hegel, os conceitos que eram em grande parte mantidos como que congelados em formas binárias básicas (senhor/escravo, masculinidade/feminilidade, até mesmo vida/morte) libertavam-se dos seus vínculos binários aristotélicos; e apareciam em um movimento dinâmico. Uma vez que estes conceitos se tornassem móveis, seria possível, pensava Hegel, ver toda a história da humanidade engajada em uma maciça, embora glacial, progressão dialética, cujo fim último era a “liberdade”. Elevadas e projetadas para o futuro, as teorias progressistas de Hegel se coadunavam perfeitamente com as cidades europeias em processo de industrialização acelerada, e fascinavam os contemporâneos de Kierkegaard.

Entretanto, não Kierkegaard, que se rebelou contra elas. Como Sócrates ao denunciar os sofistas de Atenas, Kierkegaard “procurou desmascarar” os falsos professores de grandes projetos, os “pseudo filósofos”. Carlisle nos lembra de que em “Ou-Ou”, a primeira obra publicada de Kierkegaard,  ele define o pensamento de Hegel como “niilista,” e usou o livro, em parte, para “depor a filosofia hegeliana”. A questão principal era o fato de que as generalizações de Hegel apagavam essencialmente algo que Kierkegaard considera supremo: a ideia do indivíduo singular. Segundo o hegelianismo, ele afirmava, não há espaço para a alma individual (ou para o coração).

O “indivíduo singular” kierkegaardiano não deve ser confundido com o “Eu” da “cultura do Eu”. Ao contrário, o “indivíduo singular de Kierkegaard” se concentra na relação do indivíduo com Deus e no sentido de realização espiritual individual. A ênfase era enfática, e única. Como Carlisle observa, este foco “inspiraria toda uma geração de ‘existencialistas’ a argumentar  que a natureza humana não é uma essência fixa, intemporal, nem uma necessidade biológica, mas uma tarefa criativa para cada vida individual.”

Mas como foi que o “escritor cristão” Kierkegaard passou a ser citado como o “pai do existencialismo” - uma filosofia cujo outro famoso progenitor é Friedrich “Deus está morto” Nietzsche, e cuja prole intelectual (Sartre, De Beauvoir, Camus) compreendia toda a gama  teísta? A resposta exige que nós, leitores modernos quem sabe cansados de Deus (ou pelo menos este judeu desinteressado em Deus) ampliemos o nosso âmbito de  visão. Kierkegaard não deve ser considerado um cristão devoto na maneira como este é concebido hoje. Ele não era um ‘carola’ e nem um bombástico pregador em busca de prosélitos.  Exatamente o contrário. Na realidade, perto do fim de sua vida, conta Carlisle, Kierkegaard conclamou os seus seguidores a deixarem de ir à igreja; ele próprio deixara de ir, e frequentemente era visto no Athenaeum, uma biblioteca particular, nas manhãs de domingo”. Como Sócrates - que provou a própria ignorância e a de sua vítima, o interlocutor - Kirekegaard não considerou um dever seu mostrar aos seus concidadãos o “caminho certo, mas o contrário, dissuadi-los da ilusão de sequer conhecerem o caminho certo. Como disse, a sua tarefa socrática não consistia em levar as massas a “compreender o cristianismo, mas em compreender que elas não podem compreendê-lo.”

A dissuasão exigia um tratamento gentil. Vemos isto no seu uso de pseudônimos ao longo de toda a vida e de uma ampla variedade de estilos de escritura, o que, segundo ele, lhe permitia penetrar na alma dos seus leitores. De fato, o seu estilo é tão variado, que caracterizar Kierkegaard como um escritor torna difícil escolher entre filósofo, teólogo, dramaturgo, psicanalista ou algo totalmente diferente. Carlisle apresenta amostras destas abordagens em sua biografia, e desse modo mostrar que o pensamento de Kierkegaard está centrado, como o de Sócrates, no não conhecimento: Não podemos conhecer Deus como um fato, por isso deveremos reiteradamente voltar a fé a um Deus cuja existência é sempre incerta. Este contínuo confronto do ser e Deus equivale, em última análise, a uma tarefa existencial.

O livro de Carlisle constitui um guia essencial para os que começam ou retomam sua jornada kierkegaardiana. Melhor ainda se acompanhada pela brilhante coletânea de obras de Kierkegaard de autoria de W. H. Auden

“The Living Thoughts of Kierkegaard,” que também inclui algumas joias, como uma curiosa previsão de Kierkegaard que se refere à era da Internet: “Já não existem seres humanos: não há mais amantes, nem pensadores, etc. Graças à imprensa, a raça humana se encerrou em um “what-not” atmosférico de pensamentos, sentimentos, estados de espírito; até mesmo de resoluções e propósitos, que não são propriedade de ninguém, porque pertencem a todos e a ninguém”.

Podemos substituir “a imprensa” de Kierkeggard pela Internet como um todo: Uma pessoa se conecta e se tranca em um what-not de tuítes, memes, Insta-feeds (feeds do Instagram), uma miscelânea de artigos sobre amor/propósito em busca de resolução (“Make Her Fall in Love With This Move After You Lose 10 Pounds in 3 Days!”). Hoje sentimos agudamente a sensação de viver na abstração. Todos os que buscam de alguma maneira real tornar-se amantes, pensadores ou seres humanos, levem em consideração Kierkegaard: ele os arrancará de suas ilusões, os tirará de suas abstrações e depois deixará que cada um encontre o seu caminho. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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