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Nova edição francesa de Kafka desfaz mitos sobre o escritor

Imagem de autor solitário e angustiado é desmistificada pela lendária coleção da Plêiade

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

08 Dezembro 2018 | 16h00

Todo escritor, francês ou não, quer ser ser editado pela coleção A Plêiade, da Gallimard. Equivale a ganhar um Nobel. Até os mortos sonham com isso. Cervantes havia muito que estava entre os anjos quando recebeu a honraria, em 10 de outubro de 1934. Correu a avisar Dom Quixote, que comemorou atacando um moinho. Sancho Pança deu logo a notícia ao burrinho de sua alma, que, de emoção, produziu uma montanha de estrume. Franz Kafka, que morreu de tuberculose em 1924, em Praga, ganhou o direito à Plêiade em 1963. Agora, a Plêiade republica-o, com textos inéditos e em novas traduções. 

A trajetória literária de Kafka é uma aventura caótica. Ao morrer, aos 41 anos, era quase desconhecido. Vivo, teve publicados apenas alguns artigos e dois ou três contos.

Foi seu amigo Max Brod e uma de suas várias namoradas que se ocuparam de seus manuscritos. Entretanto, em 1922, dois anos antes de morrer, Kafka havia determinado a Brod que queimasse todos os seus escritos. Também deveriam ser recolhidos e destruídos os textos já publicados em revistas.

Pobre Brod! O excelente poeta, castigado pela natureza (era corcunda), ficou arrasado. Ele sabia, por ter acompanhado a carreira de Kafka, que tinha sob sua responsabilidade um tesouro constituído por algumas das maiores obras literárias de seu tempo. E de repente se via condenado a reduzir esse tesouro a cinzas! Sabia também que se tratava de uma loucura recorrente de Kafka - alguns meses antes, num quarto em Berlim, o escritor já havia promovido um auto de fé com manuscritos. Brod perdeu o sono – até se decidir a desobedecer à vontade do amigo, salvando sua obra. Salvaria uma segunda vez mais tarde quando, alguns anos após a morte de Kafka, o horror nazista se abateu sobre Praga. Brod levou para um lugar seguro os manuscritos restantes do amigo. Kafka, que morreu antes de conhecer o nazismo, não foi poupado por ele depois de morto: em 1942, seus três irmãos foram assassinados no campo de concentração de Auschwitz. O irmão de Brod também morreu no campo.

Que pensar da “traição” de Brod? Que imaginava ele, e que emoções sentiu ao tomar sob sua guarda o tesouro? Era indiscutivelmente um tesouro, mas bem bagunçado: cartas nunca enviadas, rascunhos, recibos de lavanderia (Kafka era vaidoso e janota), pilhas e pilhas de papéis. 

Brod ainda se lembrava das discussões com Kafka. Sabia, portanto, que sua decisão de queimar tudo não significava desprezo pela literatura. Ao contrário. Se Kafka não quisesse ser lido, não teria dito um dia que o fato de haver escrito aquelas páginas lhe permitiu suportar “a doença da vida” – vida que só fazia sentido pela escrita. 

Parece complicado, mas simplicidade não era o forte de Kafka. Por exemplo, sabe-se que na própria manhã de sua morte ele corrigiu as provas de um conto que ia para impressão (Um Artista da Fome). E os três romances de Kafka (Amerika, O Processo e O Castelo) nunca foram terminados. Um conto, mesmo longo, Kafka ainda conseguia “fechar”, Um romance, não. Por meses, anos, ele pensava nas linhas finais e nunca as encontrava. Era como se a obra estivesse irremediavelmente condenada a conviver com uma ferida incurável.

Esses detalhes não são irrelevantes. Eles revelam um desejo obscuro oculto no auto de fé e ajudam a compreender por que a nova edição de Kafka de 2018 é essencial. Na Alemanha, O Processo e O Castelo foram publicados por Brod logo após a morte de Kafka. Mas Brod trabalhou sobre manuscritos incompletos, desordenados, às vezes vagos. 

Foi também nesses manuscritos incompleto que se baseou a primeira edição de Kafka pela Plêiade, em 1980. É verdade que a Gallimard escolhera um tradutor excepcional, Alexandre Vialatte, grande escritor francês e grande germanista, mas ele também trabalhou a partir de textos duvidosos. É por isso que uma segunda versão de Kafka pela Plêiade se fazia necessária. A Gallimard retraduzi toda a obra a partir da edição alemã Fischer e Stocken, que, com um demorado trabalho coletivo, levou os manuscritos ao mais próximo possível do definitivo, corrigindo pequenos erros, retirando certas páginas datadas e inserindo passagens que nunca haviam sido reconhecidas. 

Essa segunda edição da Plêiade tem ainda outros méritos. Eis alguns. 

Há muito, pelo destaque que têm nos contos e romances de Kafka a angústia, o absurdo, o nonsense e o cenário sombrio de uma cidade que poderia ser Praga, mas não é Praga, ou ainda o castelo do qual Josef K. não encontrará jamais a entrada – imaginávamos o autor à semelhança de Josef K ou do agrimensor K.: um homem desesperado, condenado a viver como o horrível inseto de seu conto A Metamorfose, ou perdido no labirinto da cidade (da vida) como Josef K., ou ainda prisioneiro na Colônia Penal. 

É uma imagem falsa. A mente de Kafka poderia até frequentar os domínios vagos e estéreis da angústia, mas o Kafka verdadeiro, ao contrário, era um homem charmoso e bonito – “lá vai o belo introvertido”, disse uma vez um de seus amigos. E sabia fascinar, embora fosse calado, por timidez. Um dia, teve a ideia de se tornar socialista e assistiu a algumas reuniões políticas. Uma testemunha presente aos encontros o descreveu como “um jovem incrivelmente silencioso”. Fazia de tudo para ter um corpo atlético, como o de seus companheiros de faculdade. Exercitava-se no cavalo com alças (pouco, muito pouco...) e nas barras paralelas. Nadava. Frequentava cafés, ia ao teatro, ao cinema, a exposições de pintura. Lia avidamente os jornais e era apaixonado pela modernidade, pelos aeroplanos. Em noites de farra, ia com os amigos aos bordéis judeus de Praga. Enfim, um jovem como todos os outros. (Se eu fosse um cineasta de Hollywood, faria o filme Franz Kafka no Bordel, estrelado, na falta de Carlitos, por Woody Allen.) 

Kafka detestava editar seus textos, mas adorava lê-los para os chegados, geralmente com grande comicidade. A leitura do fim do primeiro capítulo de O Processo, ao que parece, era irresistível. É uma prova de que, aos olhos de Kafka, Josef K. ou o agrimensor K., se eram angustiados, eram também personagens engraçados. 

Portanto, Kafka foi um jovem da época, moderno, tímido, mas bastante sociável. É verdade que, além de jovem normal, ele era hipocondríaco e fanático pela dietética. Numa fase, cismou que tinha de mastigar tudo por incontáveis minutos - peixe, queijo, salada. Tratando-se de um jovem requintado, era meio esquisito ver seus maxilares naquela mastigação sem fim. Mas, como ele tinha tanto charme... 

Sim, muitas das análises de Kafka batem com os temas sobre os quais trabalhava , à mesma época e longe dali, em Viena, outro gênio judeu, Sigmund Freud. Tomemos, por exemplo, a Carta ao Pai, na qual Kafka revela o terror que aquele homem robusto, imperial, brutal, causava no filho. Está ali, em outro registro, o material sobre o qual Freud trabalhava (Édipo, a Lei do Pai, etc.). E como não interpretar os textos de Kafka (Um Artista da Fome, Um Médico Rural, A Metamorfose, A Sentença, O Processo, O Veredicto, O Castelo) à luz do inconsciente que Freud decifrava na mesma época?

A verdade, sabe-se hoje, é que a juventude estudantil de Praga, incluindo Franz Kafka, era fascinada por Freud. Nos cafés, as noções freudianas eram febrilmente discutidas. E Kafka não foi o último a seguir a trilha do gênio vienense. 

Hoje finalmente sabemos, graças à Plêiade, o que Kafka realmente pensava da psicanálise. Quando seu amigo Franz Werfel publicou um conto no qual fala da morte de uma criança, Kafka o repreendeu: “Considero isso um ultraje ao sofrimento de uma geração.

Quando não temos nada a dizer além da psicanálise, deveríamos nos calar. Mantenho-me o mais distante possível da psicanálise, mas ela existe e está aí...” É um pouco confuso, mas mais adiante Kafka se torna mais claro: “Não acredito nas virtudes terápicas da psicanálise, mas admiro seu poder analítico”. Ele reconhece que se interessa muito por Freud, “com um corpo psíquico cujo coração seria a Lei do Pai”. E critica vivamente os escritores de seu tempo que buscam inspiração na psicanálise. Ele se mantém, afirma, longe da psicanálise, mas ela o apaixona. E procura preservar da psicanálise “o desconhecido, o mistério”. 

Sabemos que as relações de Kafka com as mulheres foram complicadas. Belo, generoso, dedicado, as mulheres caem por ele e Kafka as adora. Mas que história, a sua! Fugas, hesitações, arrependimentos, dúvidas... Uma trajetória agitada que leva a impasses, soluções, novos impasses. Por exemplo: Kafka conheceu Felice Bauer em 1912. Ficaram noivos em 1914. Terminaram o noivado. Sem 1917, ficaram noivos pela segunda vez. Terminaram de novo, mas continuaram a se escrever e trocaram mais de 500 cartas. 

Já se falou muito dessa incapacidade de Kafka de levar um relacionamento até o fim (isso lembra um pouco como ele não conseguia acabar um romance). A Plêiade sugere uma a explicação. Kafka tinha dois irmãos, gêmeos, que morreram muito pequenos. Ele nunca deixou de ser assombrado pela lembrança dos irmãos desaparecidos. Nos romances utiliza sempre gêmeos – os dois carrascos de O Processo, os ajudantes Artu e Jérémias de O Castelo. A morte dos irãmos parece ter a ver com o bloqueio sexual que perseguia Kafka.

Isso, acrescido às relações atrozes com o pai (a Carta ao Pai... ), que, em suas explosões de fúria, caçava o pequeno Franz no apartamento para o “prender” na varanda aberta e fria. Como se espantar de que esses fatos representassem para um ser tão sensível como Franz Kafka uma culpa sempre à espreita, uma sensação permanente de inacessibilidade ao banquete, a impossibilidade de gozar momentos de felicidade e paz?

Finalmente, esses dois volumes da Plêiade esclarecem um pouco um tema mal conhecido: as relações de Kafka com sua origem judaica. Resumindo: a família a de Kafka pertencia à comunidade judaica de Praga. Ele respeitava as grandes datas religiosas, mas sem fervor. Parecia tranquilamente ateu, embora sua vida transcorresse na sociedade judaica. Todos os seus amigos e a maioria de suas namoradas eram judeus. Alguns dos amigos abraçaram o sionismo, que em Kafka não despertava nenhum interesse. Ele se sentia bem em Praga, a mítica capital de um mundo judeu que desaparecia e sempre ressuscitava. 

Seus amigos estudantes eram apaixonados pelas novas ciências, pela técnica, mas na maioria eram escritores. Havia na época uma piada: “Se você é de Praga e judeu, nem precisa dizer qual é sua profissão: você é escritor”. Judeu ateu, com os anos Kafka foi se reaproximando da cultura judaica. Um dia, um espetáculo em ídiche de Lwow, Ucrânia, foi levado a Praga. Kafka assistiu e se apaixonou. Começou a aprender hebraico. Não há dúvidas de que as soberbas histórias dos rabinos hassídicos o tocam - e como não ouvir seus ecos em alguns de seus contos? 

As curiosidades de Kafka eram infinitas, mas ele continuou sendo sobretudo um homem de letras, um “homem-livro”. Embora frequentando os círculos literários judeus de Praga, foi sempre um solitário. Não dava grande atenção aos escritores da época, judeus ou não, que levavam à perfeição as técnicas do romance com textos artísticos, elegantes, requintados, rebuscados, sentimentais. 

A escrita de Kafka é seca, cortante, sem concessões. Ele era muito diferente de outro escritor judeu de seu tempo, Stefan Zweig, escritor de talento cuja prosa lânguida ainda deixa jovens extasiadas muitas décadas após sua morte. É muito provável que Kafka tenha cruzado com Zweig nos cafés de Praga, mas não nunca falou nisso. Ele sem dúvida preferia ler Júlio Verne, Charles Dickens, Knut Hamsun, Fenimore Cooper ou Dostoievski – no que revela bom gosto. É verdade que a escrita rude e pura, elegante e nua de Kafka é antípoda dos textos “artísticos”, cheios de frissons e frêmitos, que infestavam então a literatura europeia. Em sua escrita, Kafka perseguia a transparência. Chegou a ela heroicamente, muito embora a transparência absoluta às vezes leve à mais pura escuridão. / Tradução de Roberto Muniz 

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