Nova em folha

Por que o Jubileu de Diamante de Elizabeth II passou com uma (nada britânica) ausência de ironia

Anne Applebaum, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2012 | 03h08

Encontrei-me uma vez com Sua Majestade, a rainha, no palácio de St. James, durante uma reunião de diplomatas da qual participei como mulher do ministro do Exterior. Num evento equivalente nos Estados Unidos, a festa que o presidente realiza anualmente na Assembleia-Geral das Nações Unidas em Nova York, os diplomatas fazem fila, cumprimentam o presidente, são fotografados e depois rapidamente se afastam. Mas quando você tem um encontro com a rainha, é como se estivesse numa espécie de coquetel. É colocado num pequeno grupo e tem ao lado alguém do ministério britânico do Exterior encarregado de cuidar do grupo - e se serve de um drinque enquanto espera pela rainha.

Ela entra na sala e dirige-se a cada grupo. O encarregado do Ministério do Exterior a apresenta aos dignitários presentes e ela sempre, sempre!, tem algo a dizer: "Sim, adorei visitar a Noruega neste ano", ou "estou ansiosa para me reunir com seu primeiro-ministro".

Nessa semana a rainha comemorou 60 anos no trono. Em 1952, ano em que seu pai faleceu, Winston Churchill era o premiê da Grã-Bretanha. Desde então ela permaneceu chefe de Estado, enquanto uma dúzia de governos chegaram e se foram. Nesse período, a Grã-Bretanha foi governada por conservadores de direita e líderes trabalhistas de esquerda. Nem sempre a rainha foi particularmente popular ou especialmente amada. Num momento de baixa, após a morte da princesa Diana, ela e sua extensa família, na verdade, ficaram bastante impopulares.

Tudo isso agora é passado, quando as comemorações do jubileu de diamante se realizam com uma surpreendente, avassaladora e nada britânica ausência de ironia. Andrew Sullivan, certa vez, descreveu a Grã-Bretanha como um país entre aspas, onde todos falam como se rindo de alguma coisa ou pelo menos se distanciando daquilo que estão para dizer. Nada dessa distância irônica ouvi agora na voz do meu amigo banqueiro, que me perguntou se pretendia assistir ao desfile de barcos "em honra da nossa grande rainha". Isso tampouco ficou visível nas publicações de esquerda, às vezes antimonárquicas como o jornal The Guardian, que estava repleto de artigos muito efusivos sobre a "nova era elisabetana" e trazendo detalhes sobre a carruagem da rainha no desfile do jubileu, na terça-feira.

O novo entusiasmo por Sua Majestade tem algo a ver com seus netos e a mulher do príncipe William, Kate, e também com mais discrição - algumas vezes menos mídia é melhor - e tem muito a ver com a passagem do tempo. As pessoas hoje associam a rainha e sua família a determinados momentos das próprias vidas e sua história coletiva. Elas lembram de onde estavam quando ouviram a notícia de que o príncipe Charles nasceu ou quando a mãe da rainha morreu. Lembram-se do que estavam fazendo quando do jubileu de prata. Sentem-se nostálgicas em relação à rainha, porque ela está associada a sua infância e sua juventude.

E sobretudo porque a rainha, simplesmente por viver tanto tempo, hoje personifica uma ideia cada vez mais rara que muitos na Grã-Bretanha, e em outros lugares, admiram. A rainha não abandona o cargo, não lamenta, não fala com a imprensa nem protesta quando as pessoas fazem caricaturas asquerosas ou dizem coisas desagradáveis sobre sua família. Por seis décadas ela tem participado de eventos beneficentes, arrecadado dinheiro para boas causas, representado a Grã-Bretanha quando deve, tem se reunido regularmente com premiês australianos, canadenses e britânicos, entre outros, participado de todas as cerimônias de Estado, sempre olhando da maneira que deveria olhar e sempre tendo alguma coisa a dizer.

Ela pode ou não ser uma pessoa interessante, mas isso não importa. Não se espera que seja interessante, mas que seja firme, coerente, patriótica. E ela é. No final, a rainha é uma das poucas figuras públicas que sempre mantêm suas emoções sob controle. Ela costumava ser ridicularizada por manter o lábio superior sempre rígido, mas não é mais assim: num mundo de livros de fofocas sobre a vida amorosa das pessoas, biógrafos revanchistas e confissões pela TV, seu rosto indecifrável, seu sorriso público confiável e a aparência formal são um contraste bem-vindo. No momento há um excesso de emoções em evidência na esfera pública e é um alívio podermos contar que pelo menos uma figura célebre jamais deixará alguma coisa à mostra. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO  ANNE APPLEBAUM É AUTORA DE GULAG - , UMA HISTÓRIA DOS CAMPOS DE PRISIONEIROS SOVIÉTICOS (EDIOURO). ESCREVEU ESTE , ARTIGO PARA O WASHINGTON POST

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