Helen Maybanks
Helen Maybanks

Nova montagem de 'Tartufo' mostra dificuldades de adaptar clássicos

Problemas de tradução e roupagem para o século 21 estão nessa e em outras peças recentes

The Economist

16 Junho 2018 | 16h00

No papel, a proposta do Theatre Royal Haymarket era promissora. Tartufo, a sátira magistral de Molière sobre a vaidade e a hipocrisia na corte, parecia talhada para ambientação na Los Angeles do século 21. A trama envolvendo um religioso impostor que se infiltra na casa de um nobre crédulo mostrava-se sob medida para um lugar em que “a vulnerabilidade a crenças alienígenas e predatórias” continua “endêmica”, como disse no programa o tradutor, Christopher Hampton. Ao lado de Gerald Garutti, diretor da peça e professor de francês na Universidade de Cambridge, Hampton emprestou experiência e competência ao que parecia ser um projeto intelectualmente desafiador, de inovador formato bilíngue. Entretanto, como descobrem as próprias vítimas do charlatão e falso religioso Tartufo, uma aparência de seriedade e sagacidade pode enganar. “Merde”, disse um crítico francês particularmente enfurecido com o que chamou de “performance extraordinariamente autoenganadora”, para concluir: “Que bagunça!” Raramente uma tão conceituada equipe de criação foi tão unanimemente criticada.

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Muitos resenhistas se concentraram na péssima e constrangedora sequência final, que transformou o rei de Molière em Donald Trump. A montagem, porém, já estava no caixão antes que a piada sobre Mar-a-Lago cravasse o último prego. Uma avaliação post-mortem mais serena, visando a se detectar a causa exata da morte da montagem, revela os riscos envolvidos na tradução e atualização peças clássicas. 

O primeiro problema de Tartufo é a tradução. O marketing do espetáculo explora muito a reivindicação de se tratar da primeira montagem bilíngue levada num palco do West End (houve outras em outros teatros de Londres), com legendas para as partes em francês e vice-versa. Seria mesmo uma admirável realização – não fosse a suspeita de que a pouca insistência em experimentações do gênero se deve ao fato de elas raramente funcionarem. Além disso, a tortuosa história de fundo exigida para explicar uma família de personagens se comunicando em duas línguas é complicada demais para ser captada intuitivamente. 

Consultando-se mais uma vez as notas do programa, ficamos sabendo que Orgon, o bilionário crédulo enganado por Tartufo, é um expatriado francês “cujos filhos, criados em países anglófonos, são bilíngues, que se vê obrigado a falar inglês com um hóspede aparentemente monoglota”. 

Se você conseguir acompanhar tudo isso, ainda terá de se haver com as constantes e enervantes oscilações entre versos brancos ingleses decassílabos e versos alexandrinos franceses de 12 sílabas. As falas em alexandrinos são incômodas mesmo nas melhores circunstâncias, embora Claude Perron as maneje com admirável verve como a assustadora criada Dorine, esticando confiantemente as vogais de j’enrage e gloire. Mas as conflitantes mudanças de marcha entre as duas formas métricas dificultam a entrada no ritmo. Em versos brancos, o inglês contemporâneo pode soar forçado (“Why, if you approve my advances / Deny to me definitive credentials?”, diz um trecho particularmente estridente). Num acréscimo final de confusão, os versos e legendas em inglês são salpicados de referências do século 21, como Advil, limusines e biquínis, enquanto o francês do século 17 é na maior parte esquecido. Em consequência, a plateia é forçada a mergulhar rapidamente em diferentes línguas, métricas e eras históricas, numa verdadeira maratona.

Adaptações bilíngues de peças clássicas podem dar certo, se feitas com muito cuidado. As eletrizantes criações shakespearianas de Thomas Ostermeier no Teatro Barbican, de Londres, usaram uma tradução alemã e legendas em inglês, com ocasionais mudanças para o inglês em solilóquios e improvisos. Ao contrário desse Tartufo, os roteiros poliglotas de Ostermeier realçam significados implícitos nas peças e o uso de diferentes registros. Fica perfeitamente natural que Hamlet ou Ricardo III mudem para um vernáculo comum à plateia ao conversarem privadamente com ela. A familiaridade das plateias inglesas com a essência das peças de Shakespeare também ajuda. A obra de Molière é muito menos conhecida por esse público.

O segundo problema com Tartufo, ao lado da tradução desconexa, é a deturpação da dramaturgia. Uma caixa monumental e invasiva ocupa o centro do palco, com uma frente de vidro translúcido cuja tonalidade pode mudar rapidamente de clara para sombria para ocultar ou revelar o interior dos atores. A novidade desse brinquedo logo se perde, principalmente porque num cenário mais ou menos naturalista ele não transmite nem remotamente uma sensação de normalidade. Assim, algumas das melhores cenas da peça ficam prejudicadas – notadamente a sequência na qual Tartufo tenta seduzir a mulher de Orgon sobre uma mesa de cozinha enquanto o infeliz marido está escondido embaixo. No cenário de Garutti, os três entram e saem desnecessariamente da caixa, o que rouba da cena sua pegada transgressora.

Assim como roteiros bilíngues, reencenações que alteram as intenções dramáticas do original não precisam ser tão forçadas. Em seu Hamlet, levado no ano passado ao Teatro Almeida, Robert Icke modificou radicalmente a famosa cena em que Hamlet ouve escondido seu tio assassino, Claudius, rezar confessando seus crimes. Normalmente, Hamlet passa despercebido em um canto, mas Icke o coloca diretamente em frente a Claudius, alterando a lógica da cena: será esse Claudius um produto da imaginação de Hamlet? Os críticos ficaram divididos sobre a nova e ambígua abordagem, mas concordaram que ela deu um enfoque provocador a uma cena muito conhecida.

Coincidentemente, outra versão de Tartufo está sendo produzida por Anil Gupta, Richard Pinto e a Royal Shakespeare Company para encenação no final do ano. Essa versão é ambientada na comunidade muçulmana de Birmingham. O diretor, Iqbal Khan, não se mostrou preocupado com o massacre da mídia à montagem do Theatre Royal Haymarket. “Há sempre um clima de apreensão quando se apresenta grandes peças a plateias modernas”, disse ele, “e isso vai ocorrer conosco, independentemente de ter ou não havido essa outra versão.” Khan assegura que “procurou honrar a estrutura dramática”, tendo “a audácia de se afastar dela quando foi preciso”. E conclui: “Sinto que o que estamos fazendo é verdadeiramente íntegro.” Tão nobres objetivos são bem-vindos, mas um olhar cuidadoso sobre os erros dos predecessores também pode ser importante. / Tradução de Roberto Muniz

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