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Nova tradução de 'O Senhor dos Anéis' restaura estatuto épico de Tolkien

Por meio de diferenciações na linguagem dos personagens, o tradutor Ronald Kyrmse aproxima nova edição do original

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2020 | 16h00

“É um negócio perigoso, Frodo, sair pela sua porta”, alerta o hobbit Bilbo Bolseiro ao seu sobrinho e tutelado. “Você dá um passo na Estrada e, se não cuidar dos seus pés, não há como saber para onde você poderá ser arrastado.” É assim que se sente o leitor ao dar início à jornada de 1.680 páginas de O Senhor dos Anéis. Em meio à reedição da obra de J.R.R. Tolkien no Brasil, em curso desde 2018, a HarperCollins lança a nova tradução, vertida do inglês por Ronald Kyrmse, deste que é um dos trabalhos fundamentais da literatura fantástica.

O livro se passa na Terra-média, palco da mitologia elaborada por Tolkien ao longo de décadas, e embora seja comumente referido como uma trilogia, trata-se de um romance em três volumes publicado originalmente entre 1954 e 1955. Em uma carta ao seu editor Milton Waldman, o escritor explica: “Tive a intenção de criar um corpo de lendas mais ou menos interligadas, que abrangesse desde o amplo e cosmogônico até o nível da estória de fadas romântica”. 

Indo do micro ao macro, nas duas pontas desse espectro estão O Hobbit (1937) e O Silmarillion (1977). O primeiro é uma história infantojuvenil aventuresca escrita para entreter seus filhos, com linguagem simples e ares bem-humorados; o outro é uma espécie de Velho Testamento desse universo, publicado postumamente e reunindo os mitos da antiguidade, desde a criação do mundo, em tom solene, com linguagem arcaica e em chave épica.

O Senhor dos Anéis interliga esses dois livros cronológica, temática e, o principal, linguisticamente – aspecto que a nova edição brasileira priorizou: “Vários povos e culturas aparecem, e cada um deles fala de uma forma diferente”, explica o tradutor Ronald Kyrmse, em entrevista ao Aliás. “Os hobbits são burgueses, interioranos, têm uma fala simples, prática, direta. Já o reino humano de Gondor é antigo, então eles falam de uma forma refinada, culta. Os elfos são imortais, estão ali há milhares de anos, a história, para eles, aconteceu ontem, e isso se reflete na fala, no original.”

Kyrmse estuda a obra de Tolkien há quatro décadas e foi consultor da edição anterior, publicada nos anos 1990 pela Martins Fontes. “Nas traduções anteriores, todo mundo se trata por ‘você’. Mesmo no inglês, com ‘you’, não é assim. Um hobbit não pode se dirigir a um elfo por ‘você’. As novas traduções restituem os pronomes”, analisa Kyrmse. “A própria gramática dos hobbits é mais simples, enquanto a dos elfos é mais sofisticada.”

Simultaneamente aos primeiros esboços da mitologia de Tolkien, o crítico literário russo Mikhail Bakhtin desenvolvia sua Teoria do Romance, na qual afirma que “cada palavra exala um contexto” e “todas as palavras e formas são povoadas de intenções”. Tolkien, filólogo e professor em Oxford, sabia como poucos a importância de sopesar cada palavra. “Esse aspecto linguístico era tão importante que ele chegou a dizer que primeiro inventou as línguas élficas e depois escreveu um romance no qual essas línguas pudessem ser usadas. Conhecendo Tolkien, pode até ser verdade”, afirma Kyrmse.

Se, para Bakhtin, a característica distintiva do romance enquanto gênero independente reside na combinação de diferentes estilos (“a linguagem do romance é um sistema de ‘linguagens’), conceito que ele cunhou como heterodiscurso, Tolkien coloca isso em prática não apenas em O Senhor dos Anéis, mas na forma como essa obra se relaciona linguisticamente com seus outros escritos. Essa diferenciação lexical entre eles é justamente uma aguda manifestação de sua mais profunda visão filosófica: a de que vivemos em um mundo em constante decadência.

O Senhor dos Anéis retrata o recrudescimento do poderio de Sauron, uma entidade perversa que já assolou a Terra-média séculos antes. Em uma era anterior aos acontecimentos do romance, Sauron havia presenteado os reis de vários povos com anéis mágicos, mas forjou secretamente um anel para si que lhe garantiria soberania sobre os outros. Uma aliança de humanos, elfos e anões derrota Sauron, destituindo-o de seu artefato, que se perde nas profundezas de um rio.

Mas, como o mago Gandalf vaticina, “sempre, depois de uma derrota e uma folga, a Sombra assume outra forma e volta a crescer”. Por isso, séculos mais tarde, com o reaparecimento do anel – evento narrado brevemente em O Hobbit –, o hediondo poder de Sauron torna a vicejar e, para impedir o avanço de suas hostes, um novo pacto entre os povos é firmado. Cabe ao hobbit Frodo a missão de levar furtivamente o artefato ao único lugar em que ele poderia ser destruído: a Montanha da Perdição, onde Sauron o forjou.

Embora assentada em uma complexa cadeia de eventos anteriores, a trama de O Senhor dos Anéis é, em seu nível mais superficial, simples e poderosa, servindo de inspiração para praticamente toda a literatura de fantasia publicada desde então e tida como um dos principais exemplos da Teoria do Monomito – ou Jornada do Herói –, popularizada pelo mitólogo Joseph Campbell.

Embora Tolkien abominasse expressamente a alegoria, não se pode compreender em plenitude sua obra sem levar em conta suas convicções. Em seu ensaio Sobre Contos de Fadas, no livro Árvore e Folha, ele chega a afirmar categoricamente que “a maneira pela qual se vive e trabalha no século 20 cresce em barbaridade em uma velocidade alarmante”. Para ele, vivemos em um mundo em constante decadência. Essa visão pessimista reflete as temáticas centrais de sua obra, que gira em torno de três eixos: a queda, a mortalidade e a máquina.

“Não pode haver qualquer ‘história’ sem queda – todas as histórias, no fim, são sobre a queda –, pelo menos não para mentes humanas tal como as conhecemos e possuímos”, Tolkien escreve a Waldman. Por “queda”, ele se refere tanto à queda bíblica – replicada no Silmarillion quando os elfos se exilam de Valinor, onde habitam os deuses, para viver na Terra-média – quanto à decadência que o escritor via no estilo de vida moderno. 

A mortalidade ocupa seu imaginário de forma maciça. Diversas vezes, os imortais elfos expressam cobiça pela capacidade humana de morrer – e duas personagens élficas chegam a abdicar de sua imortalidade para viver com um humano. “A Sina (ou a Dádiva) dos Homens é a mortalidade, a liberdade para além dos círculos do mundo”, escreve Tolkien. “Ela é um mistério de Deus sobre a qual nada mais é sabido além de que ‘o que Deus designou aos Homens permanece oculto’ – um pesar e uma inveja para os Elfos imortais.” 

Já a “máquina” ele define como “o uso de planos ou artifícios (aparatos) externos em vez do desenvolvimento dos poderes ou talentos interiores inerentes – ou mesmo o uso desses talentos com o motivo corrupto da dominação”. A visão de mundo de Tolkien condiz com a vivência de quem testemunhou o resultado do tão alardeado “progresso tecnológico” quando serviu o exército britânico na 1ª Guerra Mundial e perdeu dois de seus melhores amigos de infância na carnificina promovida pelos inovadores tanques e metralhadoras. Talvez por isso os exércitos de Sauron e do mago Saruman sejam tão bem guarnecidos por máquinas.

Antes o mais sábio dos magos, Saruman é descrito por Barbárvore, uma sábia criatura análoga a uma árvore falante, como alguém que tem “uma mente de metal e rodas”. Isso se reflete em sua torre Orthanc, em Isengard, que “fora outrora verdejante”, mas onde “não crescia nada verde nos últimos dias”. As descrições dos cenários, aliás, traduzem o espírito geral dos personagens que o habitam.Não por acaso, Mordor, a “terra odiosa” de Sauron, é “um deserto queimado e estrangulado” onde os hobbits Frodo e Sam podiam ouvir, vindo debaixo do solo, “um rumor e barulho como de grandes máquinas pulsando e trabalhando”. 

Certa vez, Tolkien escreveu que Sarehole, a bucólica região britânica em que ele cresceu, “estava sendo miseravelmente destruída” pelo progresso. O Condado dos Hobbits passa por uma subversão semelhante na obra, e seus habitantes, assim como o autor, “não compreendem e não gostam de máquinas mais complicadas que um fole de forja, um moinho d'água ou um tear manual”.

Apesar da aversão de Tolkien, a tecnologia vem ajudando o processo de edição de sua obra, como conta Kyrmse, que faz parte de um verdadeiro conselho de tradutores que se formou pela HarperCollins. “Se essa tradução fosse deixada para um tradutor sem nenhum tipo de crítica, de revisão, poderia ficar uma coisa muito pessoal. E não é para ser assim. Nós, tradutores, estamos nos consultando mutuamente e, quando surge alguma dúvida, usamos um aplicativo, que é um software colaborativo onde a gente posta, como se fosse um painel, nossas dúvidas e discutimos propostas.”

Diante desse retrato de um mundo hostil, pode parecer que Tolkien rejeite a ideia de mudança. “Nunca antes estive fora de minha própria terra”, diz o hobbit Merry a certa altura. “E se eu soubesse como era o mundo aqui fora não acho que teria tido coragem de deixá-la.” No entanto, O Senhor dos Anéis não propõe o retorno a um passado idealizado, mesmo que evoque a nostalgia de eras anteriores e grandiosas. Os conservadores hobbits são repreendidos por um elfo, que aponta para a inevitabilidade das mudanças: “O amplo mundo está em todo vosso redor: podeis vos encerrar em uma cerca, mas com cerca jamais podereis repeli-lo”. 

Permeando toda a obra, há uma certa melancolia em relação às metamorfoses pelas quais a Terra-média passa, que soam familiares a qualquer pessoa que vive tempos de grandes transformações. “Há alguns dentre nós que cantam que a Sombra recuará, e a paz há de vir de novo”, diz o elfo Haldir. “Porém não creio que o mundo ao nosso redor volte outra vez a ser como foi outrora, ou a luz do Sol como era antigamente.” Apesar dessas mudanças todas, os valores são (ou deveriam ser) imutáveis, para Tolkien. A certo ponto, os heróis Aragorn, Legolas e Gimli encontram um guerreiro que se queixa: “É difícil ter certeza de alguma coisa entre tantas maravilhas. O mundo todo se tornou estranho”, e indaga: “Como um homem há de julgar o que fazer em tempos tais?” Ao que Aragorn replica: “Como sempre julgou (...) O bem e o mal não mudaram desde antanho”. 

Essa é a grande reflexão proposta por Tolkien, em meio aos temas recorrentes de sua obra: a permanência da moralidade em meio à entropia e à constante transformação do universo. Porém, ainda que a ameaça de Sauron seja vencida, a Terra-média nunca voltará a ser como antes. As várias eras narradas em sua mitologia mostram que a história é cíclica, se repete com pequenas variações, e sempre de maneira menos eloquente. Por isso, no encontro final entre dois dos mais antigos personagens vivos, Barbárvore e Galadriel, o ser vegetal constata: “O mundo está mudando: sinto-o na água, sinto-o na terra e farejo-o no ar”.

Leia abaixo a íntegra da entrevista com o tradutor e estudioso da obra tolkieniana Ronald Kyrmse:

Como foi a formação do conselho de tradução?

Há muita coisa para ser traduzida e a HarperCollins percebeu que não dá para um tradutor somente fazer tudo isso. Eu acredito que o Samuel Coto, que é responsável pela linha do Tolkien na editora, muito acertadamente, achou que, se a tradução, principalmente de nomes próprios, povos e termos imaginários, fosse deixada para um tradutor sem nenhum tipo de crítica, de revisão, poderia ficar muito pessoal. E não é para ser assim. Não é a tradução do Ronald. A ideia foi que nós, tradutores, nos consultássemos mutuamente, e estamos fazendo isso. Cada um de nós está traduzindo alguma obra e, quando surge alguma dúvida, usamos um aplicativo, que é um software colaborativo onde a gente posta, como se fosse um painel, nossas dúvidas e propostas. Então os outros, o Reinaldo José Lopes, o Gabriel Oliva Blum, eu, o Samuel, mais outras pessoas que acabam entrando, dão suas opiniões. É interessante, por que às vezes surgem ideias para as traduções que você nem tinha pensado, isso melhora muito a tradução, e o seu colega do conselho de tradução vem com alguma ideia genial, alguma palavra que você nem lembrava mais, que ele desencavou em um Camões no século 16. 

Apesar da aversão do Tolkien pela tecnologia, ela acabou ajudando.

É verdade. Ele nunca teve uma TV, parece que nunca teve uma máquina de lavar, telefone era uma coisa meio odiosa para ele, pois os fãs americanos ligavam no meio da noite sem pensar nos fusos-horários. Ele não era muito fã da tecnologia, mas ela está nos ajudando imensamente.

Em sua nota introdutória, você se coloca como amador, mas já teve muitos anos de experiência no estudo da obra do Tolkien. Como é sua relação com esse universo?

Eu vou insistir no amador. De formação, sou engenheiro. Estudei direito também. Trabalho com algo que não tem nada a ver com literatura, na Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, mas sempre gostei muito de idiomas. Venho de uma família que falava alemão em casa, meus pais falavam inglês muito bem, então essas línguas sempre estiveram um pouquinho no meu DNA. Houve um ponto em que eu já estava lendo Tolkien no original, estamos falando de 1982, e era uma época em que praticamente ninguém havia lido Tolkien no Brasil. Eu me lembro que havia conhecido outras pessoas que já tinham lido, algumas em inglês e outras em uma tradução meio pirata da Artenova, que era uma editora do Rio. Então nós nos juntamos e formamos praticamente o primeiro grupo de, não vou dizer fãs, mas apreciadores do Tolkien. A notícia desse grupo chegou na Martins Fontes e me ligaram de lá pedindo uma indicação de alguém que pudesse traduzir a biografia do Tolkien. Como eu já havia traduzido algumas coisas para um amigo que tinha uma editora, acabei fazendo a tradução da biografia. Mais tarde, quando a Martins Fontes resolveu traduzir O Senhor dos Anéis e O Hobbit, eu fiz um pouco de consultoria, pois os tradutores não eram tolkienistas e eu tive que dar algumas corrigidas de rota. No caso de O Senhor dos Anéis, infelizmente houve muitas omissões, muitas coisas que foram alteradas... Não posso nem me declarar culpado disso porque foi mais uma coisa da revisão. Consegui dar meus palpites também na tradução de nomes próprios. Hoje em dia, o pessoal fala mal da tradução da Martins Fontes, mas ela marcou época e muita gente aprendeu Tolkien lendo essa tradução. 

Tendo participado de ambas as traduções brasileiras, quais você diria que são as principais mudanças dessa nova versão?

O Tolkien era muito ligado em línguas, variantes de línguas, e não à toa ele era professor de anglo-saxão em Oxford, que era o inglês falado até o ano de 1100, mais ou menos, e ele era muito ligado ao mundo da literatura. Esse aspecto linguístico era tão importante que ele chegou a dizer que primeiro inventou as línguas élficas e depois escreveu um romance no qual essas línguas pudessem ser usadas. Conhecendo Tolkien, pode até ser verdade. Então você tem vários grupos de personagens, vários povos, várias culturas que aparecem no Senhor dos Anéis, e cada um deles fala de uma forma diferente. Você tem os hobbits que são muito burgueses, muito interioranos, então eles têm uma fala muito simples, muito prática, muito direta. Já o reino de Gondor é muito antigo, são descendentes dos númenóreanos, então eles falam de uma forma muito refinada, muito culta. Os elfos têm lá a forma deles de se expressar também, porque são aqueles imortais que estão por aí há milhares e milhares de anos, então a história e, para eles, uma coisa que aconteceu ontem. Isso se reflete na fala de cada um dos personagens no original. Na hora em que a gente traduz, temos que tomar cuidado para, também, na medida do possível, reproduzir isso. E acho que é aí que pecavam as traduções da Martins Fontes. É uma coisa contra a qual sempre me rebelei um pouco e tentei fazer nas minhas traduções. Nessas traduções, todo mundo se trata por "você". Mesmo no inglês, em que você usa "you", não é assim. Um hobbit não pode se dirigir a um elfo e tratá-lo por "você". Nessas novas traduções, a gente se restituiu os pronomes, o tu, o vós, os hobbits se tratam por "você", mas os personagens em geral se tratam por "tu". Se um hobbit se dirige a um elfo, ele o trata por "vós", falando com alguém que é muito superior em idade e sabedoria. Então só nos pronomes a gente já tem uma alteração bastante grande. Eu acho também que a coisa fica mais poética e o próprio relato dá mais sensação de antiguidade quando você usa esses pronomes que hoje já são meio antiquados, mas que passam essa sensação de respeito e são mais solenes do que os familiares. Além disso, a própria gramática dos hobbits é mais simples, enquanto a dos númenóreanos e a dos elfos é mais sofisticada. A gente procurou, mais ainda que na tradução anterior, seguir algumas dicas que o próprio Tolkien havia dado aos tradutores sobre os nomes próprios. Ele chegou a escrever um Guia de Tradução dos Nomes em O Senhor dos Anéis. Quando haviam começado as traduções, ainda em línguas próximas ao inglês, em sueco, holandês, línguas germânicas, então ele já colocou algumas dicas, por exemplo: palavras que vêm do inglês arcaico devem ser traduzidas para uma forma arcaica na língua de destino. Palavras élficas não devem ser traduzidas, mas mantidas no original. Com muita erudição, ele foi dando essas dicas de tradução. Uma dessas palavras, que não é um nome próprio, mas é o nome de uma espécie, é o "orc", em inglês. Ele disse: "Traduza pelo som, mas que fique uma coisa que faça sentido na sua língua". E daí que vem uma das grandes brigas: "orc" contra "orque". A gente não tem palavras terminadas com as letras "rc" em português. Temos palavras terminadas em "rque". Posso pensar em "torque", "parque", "porque". A ideia é pensar em uma palavra que possa ter surgido e evoluído dentro da língua portuguesa, não uma palavra que transplantamos simplesmente do original em inglês e pronto. Acho que a ideia toda por trás disso é aquela coisa que o Umberto Eco dizia, que uma boa tradução é aquela que o autor poderia ter escrito se falasse a nossa língua. Então se o Tolkien escrevesse originalmente em português, como é que ele escreveria isso? Tentamos nos colocar sempre dentro desse espírito. Por mais uma razão: o Tolkien colocou como ficção que ele não era realmente o autor daquelas história, que ele encontrou de alguma forma um exemplar do Livro Vermelho do Marco Ocidental, que tem a história da guerra do anel, a história de como o anel foi encontrado pelo hobbit, que tem várias histórias da antiguidade remota, condensadas no Silmarillion, então ele encontrou esse livro e traduziu tudo isso para o inglês moderno. Então a ficção que a gente faz é: se o Tolkien não fosse inglês, e sim brasileiro, ele teria traduzido esses livros antiquíssimos direto para o português moderno. Como ficaria? Isso que a gente usou para guiar as nossas traduções. 

Para tornar os poemas mais musicais, foi necessário sacrificar um pouco a métrica ou a rima?

A ideia era manter tanto quanto possível a métrica, pois ela que dá essa "cantabilidade". Quando o original tinha rima, eu procurei manter rimas. Quando o original era aliterante, eu procurei manter essa aliteração. Isso é fácil? Não. Isso é de deixar o tradutor biruta. Eu imprimia os poemas originais em um papel, no lado esquerdo da folha e, no lado direito, ia anotando possíveis traduções, possíveis versões, procurando sempre manter rima e métrica. O que a gente sacrifica é um pouquinho do sentido, do conteúdo, porque as palavras em português são mais compridas do que em inglês. Em inglês, há muitos monossílabos, coisa que em português quase não temos. Em português, quando você põe o verbo no passado imperfeito, você já está acrescentando uma sílaba. Então muita coisa que, no original, foi escrita no passado, na tradução está escrita no presente. Sempre tem algum adjetivo, alguma conotação que acaba se perdendo. Isso é fatal, porque tradução é traição e, como diria Umberto Eco, traduzir é escrever quase a mesma coisa em outra língua. Às vezes, esse "quase" é meio grande. Mas devo confessar que meu ideal realmente era essa cantabilidade. Há um conjunto dinamarquês chamado The Tolkien Ensemble, que musicou e gravou todos os 70 poemas e canções que estão no Senhor dos Anéis com um arranjo muito legal, com instrumentos medievalescos. A minha ideia era: "se dá para cantar isso em inglês, o que dá para cantar em português, de preferência com a mesma melodia?" 

Houve algum ponto da tradução em que você preferiu se ater ao que já é muito conhecido em vez de tentar brigar com o que já estava estabelecido anteriormente?

Sim, principalmente nomes de pessoas e lugares. Bolseiro e Valfenda, por exemplo. Mas eram boas traduções. Valfenda, no original, é Rivendell, de um inglês arcaico, "Vale Fendido" ou "Vale da Fenda". Mas isso não impediu a gente de transformar os orcs em orques. E alguns nomes com menos importância ou mais passageiros em que tentamos fazer uma tradução um pouco mais próxima ao espírito do Tolkien e algumas coisas acabaram sendo mudadas. 

 

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