Associated Press
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Novas biografias de Hitler traçam paralelos com os dias atuais

Historiadores Peter Longerich e de Brendam Simms veem semelhanças entre os fatos atuais e a crise de Weimar que levou, em 1933, um lunático ao poder

Talya Zax, The New York Times

02 de outubro de 2019 | 17h00

Quando não está trabalhando em um livro sobre as raízes do antissemitismo em seu país, o historiador alemão e especialista em Holocausto Peter Longerich tem pensado em 1923. Naquele ano, Longerich explicou, a Alemanha enfrentou uma grave crise. A economia oscilou, os movimentos separatistas se aceleraram em vários estados e, em novembro, o político iniciante Adolf Hitler tentou um golpe na Baviera. Ainda assim, “a República de Weimar conseguiu superar a crise e se estabilizar”.

Uma década depois, outra crise teve um resultado muito diferente: Hitler tornou-se chanceler do Reich, rapidamente eliminou os controles institucionais sobre seu poder e lançou uma ditadura. Como Hitler foi capaz de transformar uma nação democrática em uma autocracia organizada em torno do ódio racial? Nos últimos anos, como grande parte do mundo ocidental viu uma mudança notável, às vezes violenta, em direção ao nacionalismo e ao antissemitismo, essa se tornou uma questão de vasto e ansioso interesse. Neste outono, dois novos livros buscam respostas: Hitler: A Biography (Hitler: Uma Biografia), de Longerich, e Hitler: A Global Biography (Hitler: Uma Biografia Global), do historiador de Cambridge Brendan Simms. Ambos estavam em andamento bem antes do tumulto dos acontecimentos atuais, mas ambos os biógrafos reconhecem que as tendências políticas recentes tornaram o assunto especialmente denso.

“As questões que Hitler estava abordando – desigualdade, migração, o desafio do capitalismo internacional – são tão importantes quanto eram quando ele se propôs a fornecer respostas peculiarmente destrutivas e preocupantes”, disse Simms. “De uma maneira muito alarmante e perturbadora, Hitler é realmente menos estranho hoje do que era há 20 ou 30 anos.”

Para Longerich, apenas alguns novos fatores separam os eventos de 1923 e 1933. Uma aliança entre facções conservadoras que durou apenas o tempo suficiente. Uma degradação constante da Constituição do país para preparar o caminho. Mais importante, um líder que, por meio da perspicácia, força de vontade e carisma, uniu um movimento devido a paralisantes lutas internas.

Durante décadas, as atitudes acadêmicas predominantes minimizaram a importante posição central desse líder, preferindo examinar as estruturas que possibilitaram o amplo terror do Terceiro Reich. “Os acontecimentos de alguns países (Polônia, Noruega, Itália, França) e profundamente na União Soviética, não podem ser explicados simplesmente pela tomada central de decisões”, disse Jürgen Matthäus, chefe de pesquisa do Museu Memorial do Holocausto dos EUA.

Mas Longerich e Simms estão entre vários historiadores que reavaliam essa atitude atualmente (outro é Volker Ullrich, autor de uma biografia recente de Hitler em dois volumes). Não é o caso de que “acontecimentos perigosos se originem apenas de movimentos sociais ou tendências estruturais”, disse Longerich. “Também pode ser, simplesmente, que uma pessoa tenha a capacidade de usar uma certa situação política para definir novos objetivos.”

Em um volume de 2018 do anuário alemão de história contemporânea dedicado a novas pesquisas sobre Hitler, os editores Elizabeth Harvey e Johannes Hürter identificaram um recente “boom de Hitler”, um aumento inesperado na pesquisa alemã sobre Hitler, iniciado em 2013. Mas eles são cautelosos em atribuir esse aumento às preocupações do público. Os acadêmicos, disse Harvey, em grande parte não estão respondendo ao “preocupante aumento que ocorre hoje do extremismo de direita, antissemitismo, racismo, populismo de direita, lideranças de figuras extremistas” pensando: “Certo, vou escrever uma melhor biografia de Hitler para corrigir isso.”

Na verdade, os historiadores profissionais têm receio de traçar muitos paralelos entre Hitler e os líderes atuais de mentalidade autoritária. “A história”, disse Matthäus, "é provavelmente mais complexa do que tais analogias gostariam que fosse”.

Simms compartilha dessa opinião. “Não acho que existam quaisquer argumentos partidários simples que você possa sacar hoje, com base nas descobertas desses livros”, disse ele. “Se houver uma comparação ou uma lição a ser tirada, é que é preciso levar a sério e observar atentamente o que as pessoas dizem e o que argumentam antes de chegar ao poder, e não assumir que serão dominadas pelas estruturas.” Ao escrever sobre a obsessão furiosa de Hitler pela emigração alemã para os EUA, Simms (que é britânico) incluiu uma referência ao cenário contemporâneo: “O presidente é mencionado no livro, mas apenas no contexto em que seu avô, Frederick Trump, foi um daqueles alemães que saíram da Alemanha”, disse ele.

Simms é um cientista político e professor de relações internacionais; esta é sua primeira biografia e seu primeiro livro a se concentrar na 2ª. Guerra Mundial. Uma motivação significativa era pessoal: “Minha mãe é alemã e eu vivi a maior parte da minha infância na Alemanha”, disse ele. “Meu avô serviu na 2ª. Guerra Mundial no lado alemão.”

Longerich – cujos livros anteriores incluem biografias dos líderes nazistas Heinrich Himmler e Joseph Goebbels, bem como ensaios (Holocaust: The Nazi Murder and the Persecution of the Jews, ou Holocausto: o Assassino Nazista e a Perseguição dos Judeus)– também tem razões pessoais para o seu interesse. “Claro, você se pergunta: por que você está fazendo isso?”, ele disse. “Por que você está tão obcecado com esse período?”

Uma razão, ele disse, é que ele nasceu na Alemanha apenas uma década após o término da guerra. “Meus professores realmente serviram na Wehrmacht. Meu professor de História era um ex-integrante das SS. É difícil admitir que os idosos que você conhece estavam ativamente envolvidos nesse sistema.” Essa dificuldade, para ele, virou curiosidade sobre “a rapidez com que a República Democrática de Weimar, centro da cultura moderna, pode se transformar em uma ditadura – e com que rapidez essa ditadura pode vir a ser transformada, novamente, em uma sociedade democrática relativamente normal.”

Cautela acadêmica à parte, essa curiosidade não está desapegada da ação; Longerich e Simms se juntaram às crescentes fileiras de historiadores que falam publicamente sobre as ameaças que identificam na sociedade contemporânea. Longerich ajudou a liderar uma comissão parlamentar alemã em 2012 que examinou o antissemitismo no país, e Simms é presidente de um instituto de altos estudos, o Projeto para a União Democrática, que apoia a criação constitucional de um único Estado europeu.

“Para historiadores que trabalham na história do nacional-socialismo”, disse Harvey, “há um sentimento de obrigação de intervir nos debates atuais”. O momento da história é delicado, e a vida de Hitler continua sendo um dos exemplos mais incompreensíveis de quão rapidamente o toque da pessoa errada, na hora errada, pode destruir uma ordem que parecia estável. “Era inimaginável”, disse Longerich, “como o mundo em que eu havia crescido, apenas 25 anos antes, pudesse ser tão diferente”. /Tradução de Claudia Bozzo

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