Vide Editorial
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Novas edições do filósofo espanhol Ortega y Gasset chegam ao Brasil

'Meditações do Quixote' e 'Lições de Metafísica' chegam às livrarias pela Vide Editorial

Martim Vasques da Cunha*, Especial para o Estado

05 de outubro de 2019 | 16h00

Atualmente, qualquer brasileiro decente se identificaria com o filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955) quando este viveu seu exílio em Paris no final da década de 1930, fugitivo do seu país por causa da terrível Guerra Civil que antecipava o totalitarismo prestes a invadir toda a Europa. No famoso Prefácio aos Franceses, que abre o seu livro mais conhecido, A Rebelião das Massas, Ortega descreve que arrastava a sua solidão pelas ruas da Cidade-Luz e deu-se conta que não conhecia ninguém por lá, salvo as estátuas em um jardim impecavelmente geométrico. Para compensar a aridez exterior, resolveu conversar com elas sobre grandes temas humanos. Como resposta, obteve somente o silêncio ao redor. Este silêncio desolador, que também atinge a vida pública brasileira, é a matéria-prima sobre a qual se erige todo o edifício filosófico da obra deste gigante do estilo literário e da claridade conceitual (republicada pela Vide Editorial). Como sempre acontece com os escritores que verdadeiramente importam, Ortega fala dos temas do seu tempo, mas também do nosso – e, neste caso, de um tempo em que a sofisticação intelectual do progressismo se transformou em barbárie e em uma “beataria” que simplesmente nos fizeram esquecer que a única estrutura que restou para o ser humano compreender a si mesmo é a de uma radical incerteza.

Esta insegurança diante do futuro é o eixo norteador da “razão vital” que Ortega começou a desenvolver logo no seu livro de estreia, Meditações do Quixote (1917). Apesar do caráter fragmentado da sua obra – resultado de uma existência atribulada, cheia de idas e voltas da sua querida Espanha, e repleta de problemas de saúde –, ainda assim ele conseguiu mostrar ao bom leitor que quisesse ouvi-lo ou lê-lo com perspicácia que a modernidade causou uma confusão não só nos nossos sentidos primordiais, mas também nos nossos conceitos filosóficos. Portanto, a missão de Ortega era nos mostrar que, por baixo dessa grossa camada construída pelo tempo histórico, poderíamos tocar o nervo exposto da vida e encontrar uma vocação individual que superasse a dinâmica das circunstâncias concretas.

Antecipando a filosofia angustiada de Heidegger – e na busca por uma superação do neokantismo de Hermann Cohen e Wilhem Dilthey –, o espanhol explica, em suas Lições de Metafísica (1932), que o ser humano é alguém jogado sem nenhum aviso na sua condição movediça, alguém que é prisioneiro de uma vida que lhe foi dada e que ele não tem como negá-la. Portanto, para vivê-la plenamente, precisa escolher o que fazer com ela. Ciente da radical insegurança que o cerca, essa decisão se resume ironicamente a uma única alternativa: ter plena consciência de que não passa de um náufrago que, perdido na imensidão do oceano, só consegue nadar de forma atrapalhada e segurar-se em algumas tábuas de madeira de um navio completamente destroçado.

De acordo com Ortega, o ser humano só consegue sobreviver porque alguns desses lenhos de salvação seriam as nossas ideias – que, na verdade, ocultam crenças tão profundamente arraigadas no nosso espírito as quais não são admitidas sequer para nós mesmos. Contudo, são elas que nos governam, como explica brilhantemente em Ideias e Crenças (1948). Aqui, a “razão vital” se conecta com a “razão histórica”, nas quais a experiência radical da vida só pode ser redescoberta se a filosofia fizer um trabalho de recuperação dessas crenças que, na verdade, sustentam as nossas ideias aparentemente tão bem ordenadas. E, no fim, a única certeza, se há alguma, é a do naufrágio permanente.

Nos outros livros reeditados no Brasil – como O Que é Filosofia (1956), O Homem e os Outros (1959) e Origem e Epílogo da Filosofia (1959), todos resultados de obras inacabadas ou de transcrições de cursos universitários –, Ortega leva essas descobertas às últimas consequências, ao sintetizar uma teoria do conhecimento que vai além das limitações do realismo medieval e do idealismo cartesiano, numa busca pela coexistência desses dois polos que resulta naquela tensão típica que nos faz descobrir um Ser incapaz de ficar estático, mas prenhe de dinamismo e que dialogue com uma unidade filosófica a ser decifrada de acordo com o rumo do curso histórico.

Contudo, nada disso teria um sentido luminoso se os escritos espalhados de Ortega não estivessem plenos daquilo que Julián Marías chamava de “conexão”, uma qualidade que só é possível se cada linha redigida por um filósofo estiver plena do amor intellectualis que Spinoza ensinou ao espanhol – e que foi registrado nas primeiras páginas de Meditações do Quixote. Por mais que a evolução da sua filosofia tenha lampejos cristalinos sobre a fragilidade da nossa existência, talvez Ortega tenha acertado no alvo logo nesse seu primeiro livro, quando escreveu que suspeitava que “a morada íntima dos espanhóis foi tomada há tempo pelo ódio, que permanece ali artilhado, movendo guerra ao mundo”. 

Risquem “espanhóis”, troquem por “brasileiros” – e, voilá, temos um diagnóstico preciso da nossa atual situação política e cultural, na qual desconhecemos que “o ódio é um afeto que conduz à aniquilação dos valores. Quando odiamos algo, colocamos entre nossa intimidade e o objeto uma impiedosa cortina de aço que impede a fusão, mesmo transitória, da coisa com nosso espírito. Só existe para nós aquele ponto onde se fixa nosso ódio; tudo o mais, ou nos é desconhecido, ou vamos olvidando, tornando-o estranho a nós mesmos. A cada instante vai sendo o objeto menos, vai-se consumindo, perdendo valor”.

Ao contrário de um Alexandre Kojève, que transformou o ódio em um sistema filosófico digno dos piores campos de concentração, Ortega y Gasset defende que só “o amor, pelo contrário, nos une às coisas, ainda que passageiramente. Pergunte-se o leitor que novo caráter sobrevém a uma coisa quando sobre ela se derrama a qualidade amada. Que sentimos quando amamos a mulher, quando amamos a ciência, quando amamos a pátria? O amado é, de pronto, o que nos parece imprescindível. Há, por conseguinte, no amor, uma ampliação da individualidade que absorve outras coisas dentro desta, que as funde conosco. Tal liame e compenetração nos leva a internar-nos profundamente nas propriedades do amado. Vemo-lo inteiro e nos revela em todo o seu valor. Então advertimos que o amado é, por sua vez, parte de outra coisa, que necessita dela e está ligado. Imprescindível ao amado, também se faz imprescindível para nós. Deste modo vai ligando o amor coisa com coisa e tudo conosco, em firme estrutura essencial. O amor é um divino arquiteto que baixou ao mundo, segundo Platão, ‘a fim de que tudo no universo viva em conexão’”. E arremata, igual aos toureiros virtuosos que tanto admirava: “A inconexão é o aniquilamento. O ódio fabrica inconexão”.

Entre o amor da verdadeira filosofia que molda a nossa alma e o ódio produzido pela filosofobia, o que Ortega defende, acima de tudo, é que não há outra salvação possível neste mundo exceto a de aceitar que ser um náufrago é algo muito mais apaixonante do que conversar com estátuas em um jardim silencioso e perfeitamente geométrico. Se algum brasileiro de bom coração entender isso, então talvez consigamos sair deste abismo de ódio onde vivemos há tanto tempo.

*MARTIM VASQUES DA CUNHA É AUTOR DE 'CRISE E UTOPIA – O DILEMA DE THOMAS MORE' (2012).

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