ARGIRIS MANTIKOS/EUROKINISSI/AP
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Novas vestes

Para escritor, tráfico de pessoas, pirataria, escravidão e outros antigos dramas africanos continuam bem vivos - apenas trocaram de roupa

Entrevista com

Mia Couto

André de Oliveira, O Estado de S. Paulo

25 Abril 2015 | 16h00

Vicissitude. O dicionário define a palavra como uma sucessão de alternâncias, instabilidade que conduz à imprevisibilidade e condição que contraria ou é desfavorável a algo ou alguém. A história da África tem sido, por vezes, um vicissitudinário, em que parte de seu povo é levado a uma vida imprevisível de migrações em decorrência de uma série de alternâncias desfavoráveis: escravidão, colonização, estabelecimento de fronteiras artificiais, fome, doenças, guerras civis. Nas últimas duas semanas, 5 mil imigrantes ficaram desalojados e ao menos sete morreram na África do Sul, vitimados por uma onda de xenofobia que surpreendeu o mundo. Enquanto isso, no outro extremo do continente, num único naufrágio no domingo, o Mar Mediterrâneo virou cemitério para 850 imigrantes que, levados por traficantes, tentavam ir da Líbia à Itália em embarcações precárias. Segunda-feira, na mesma hora em que autoridades europeias discutiam “soluções” em Luxemburgo, pelo menos outros três barcos afundaram no Mediterrâneo. Mais 20 mortos.

Em 2014, estima-se que 200 mil pessoas, de diferentes nacionalidades, atravessaram o Mediterrâneo a caminho da Europa. Mais de 3 mil morreram. Apenas nos três primeiros meses deste ano, por volta de 35 mil cruzaram o mar, 1.800 nunca chegaram ao destino e o governo italiano diz que de 500 mil a 1 milhão de sírios e africanos estão esperando para se lançar ao mar a qualquer momento, aproveitando a calmaria das águas trazida logo mais pelo início do verão. 

Como resposta às mortes, a União Europeia anunciou um plano que se concentra em ações contra os traficantes, na proteção das fronteiras, mas não trata das causas que levam milhões de desesperados ao mar em busca de uma sobrevida. Para a ONU, as medidas são insuficientes. “Essas mortes são resultado de um fracasso contínuo de governança acompanhado por um fracasso monumental da compaixão”, resumiu o comissário de Direitos Humanos da ONU, Zeid Ra’ad al-Hussein.

Na África do Sul, que acaba de perder para a Nigéria o posto de maior economia do continente, os distúrbios começaram depois que o rei zulu Goodwill Zwelithini disse que estrangeiros deveriam deixar o país. Os imigrantes, oficialmente pouco menos de 2 milhões, estariam roubando postos de trabalho de sul-africanos - o país tem taxa de desemprego de 25% e vive momento de desaceleração econômica. Mas a economia sozinha não explica a perseguição aos imigrantes no país que há apenas duas décadas se livrou do cruel sistema oficial de segregação, o apartheid. 

“Não existe uma única razão para explicar esse fenômeno, algumas são mais conhecidas, outras menos”, comenta o escritor moçambicano Mia Couto, de 59 anos, que, em carta aberta ao presidente da África do Sul, Jacob Zuma, cobrou ações urgentes do governo sul-africano. “Não é possível que moçambicanos sejam perseguidos nas ruas com a mesma crueldade que os policiais do apartheid perseguiram os combatentes pela liberdade”, ele disse, lembrando que o próprio Zuma se exilou em Maputo nos anos 1980.

Falando ao Aliás de Maputo, capital do país, onde vive, o escritor reflete sobre as vicissitudes atuais e históricas do continente africano - que talvez ele já tenha brilhantemente resumido no livro de ensaios E Se Obama Fosse Africano: “Quem vive num labirinto tem fome de caminhos”. 

Em um ponto da África, pessoas vítimas da xenofobia; em outro, milhares morrendo em naufrágios. Como avalia esse momento?

Falamos orgulhosamente do nosso tempo como se não fosse a continuidade de outros tempos que acreditamos serem do passado. Pensamos que pirataria e escravatura são coisas de outros séculos. Mas elas estão aí, bem vivas, com novas vestes. 

A maior parte dos imigrantes que tentam cruzar o Mediterrâneo parte da Líbia. É só coincidência que tenha sido também um dos países da chamada “primavera árabe”?

Só quem tem uma ideia falseada e simplista do mundo poderia alguma vez imaginar que as revoltas nos países árabes eram um prenúncio de primavera. Mais uma vez se reduziu o outro a um estereótipo, mais uma vez se projetou num universo, que é muito diverso, o olhar de outra realidade. Sua pergunta pressupõe ter havido ou poder ter havido uma “primavera árabe”. Esse pressuposto parte da ideia de que existe um único mundo árabe. Parte também de outro princípio que reduz à dimensão da política aquilo que é uma combinação bem mais intrincada de componentes religiosos, culturais e históricos. Eu acho que a grande lição dos últimos anos é que temos que reaprender a olhar o mundo. O que implica aceitar que não sabemos ver. Comparar países de um mesmo continente só pode ser um risco. É obra de adivinho.

Há quem defenda a abertura das fronteiras europeias, pelo menos agora, para combater essa tragédia humanitária. O que acha? 

Não creio que seja viável. Qualquer nação precisa ter normas para o fluxo de entradas e saídas. Para entrar no Brasil eu preciso pedir um visto, por exemplo. Uma medida de liberalização total pode reforçar uma reação xenófoba dos setores de extrema direita que olham a Europa como uma fortaleza. Custa-me estar a falar de longe, não sou europeu, não vivo por dentro a realidade da Europa. Mas eu creio é que não se pode fingir que nada se está a passar, deixando essa imigração entregue a traficantes que sacrificam vidas humanas às portas da Europa.

Uma espécie de Plano Marshall para a África seria uma solução viável?

Eu não sei se as soluções podem vir de fora. Não virão. Parte dos problemas estruturais que a África enfrenta resulta não apenas do passado colonial, mas do modo como essa relação colonial se prolonga até hoje. Os programas de reajustamento estrutural, por exemplo, criaram situações de fragilização do Estado em nações cuja circunstância histórica colocava o papel do Estado como um passo crucial. O Plano Marshall (programa de ajuda financeira dos Estados Unidos a países europeus destruídos na 2.ª Guerra Mundial) encontrou na Europa uma realidade que não se vive hoje em toda a África. As soluções para serem duradouras e verdadeiras precisam nascer dentro da África. E em alguns casos elas estão nascendo. Existe uma África positiva que é pouco reportada, mas é o estereótipo de um continente obscuro que prevalece. E, infelizmente, casos como a violência recente na África do Sul contra imigrantes só consolidam esse clichê.

Como explicar surtos de xenofobia na África do Sul, 20 anos pós-apartheid?

Não existe uma única razão para explicar esse fenômeno. São várias, umas bem conhecidas, de natureza política e social. Por exemplo, a governação pós-apartheid poderá não ter estado atenta aos segmentos mais pobres da sociedade. Digo “segmentos” com relutância, porque se trata da maioria dos sul-africanos. Criaram-se expectativas entre os pobres que não foram cumpridas. Mas essas razões só funcionam porque, por trás delas, existem outros motivos, menos visíveis. Um deles é o da manipulação, que dá jeito a encontrar um bode expiatório para expurgar esse mal-estar. Os culpados estão encontrados: são os que chegam de fora. Pouco importa que não seja verdade, que eles apenas ocupem um pequeno nicho do mercado de trabalho. 

A perseguição começou após um rei zulu dizer que estrangeiros deveriam ir embora.

É outra parte da explicação. Uma razão histórica. No passado, povos da África do Sul construíram um império que se estendeu sobre os territórios vizinhos, como Moçambique e Zimbábue. Esse império durou mais de um século e consolidou sentimentos de superioridade sobre os vizinhos, que eram os “bárbaros”. Estamos perante uma sociedade que se assenta (como todas as sociedades) entre a modernidade e formas mais antigas de poder. Essa linha fronteiriça atravessa a alma de muitos sul-africanos e os divide entre súditos e cidadãos. O rei dos zulus pode não ser reconhecido formalmente como um poder instituído na África do Sul. Mas está legitimado pela história e pelas pessoas. Pareceu muito estranho que o governo sul-africano insistisse tanto para que o rei viesse a público e acalmasse os ânimos.

Por quê?

Porque isso pode indiciar certa desistência de exercer a autoridade. Mas pode também traduzir o reconhecimento de que afinal essas formas mais antigas mandam mais do que as instituições políticas modernas. Acho que é preciso questionar essa prevalência dos valores morais e religiosos sobre o que acreditamos ser o domínio do quadro institucional moderno. O que manda em nós é sempre mais antigo, sujeito a outras racionalidades.

O PIB da África do Sul é um terço do PIB de toda a África subsaariana. O que o país representa para seus vizinhos?

Um poeta moçambicano já falecido, Rui Knoplfy, dizia que a África do Sul era a nossa Europa. Ele traduzia esse sentimento de periferia que olha para um lugar que atua como um centro. O caso da África do Sul coloca na mesa isso que chamamos de prosperidade. Essa prosperidade é um dado estatístico ou traduz-se em felicidade para todos? Os últimos anos mostram como o olhar economicista falhou na sua avaliação do mundo e nos seus prognósticos. À África do Sul falta, como à maior parte das nações, aliar a condição econômica à justiça social. Só isso poderá trazer estabilidade. Mas também esse meu juízo é incompleto, um discurso simplista, bom para sair à rua e fazer os outros saírem à rua. As coisas são sempre um pouco mais complexas.

Como o apartheid afetou Moçambique?

Causou uma guerra de agressão e desestabilização que demorou quase 20 anos. Foi o inimigo mais poderoso da nossa independência, proclamada em 1975. Os moçambicanos fizeram o que os outros antes tinham feito conosco: demos asilo aos combatentes pela liberdade sul-africanos. Tratamo-los como se fossem parte de nós mesmos. Eu estava, nessa altura, impedido de entrar na África do Sul. Mas convém dizer que esse racismo às claras não era um mal exclusivo do apartheid. Os Estados Unidos até recentemente praticaram uma discriminação bem semelhante. 

Que desdobramentos podemos esperar para a questão da xenofobia na África do Sul?

Os trabalhadores estrangeiros na África do Sul estarão sujeitos ao medo. Poderá não suceder na mesma escala, mas fenômenos pontuais de violência continuarão a acontecer. Pode haver, em cascata, uma resposta de vingança das nações africanas cujos cidadãos foram atingidos. Quando se deixa suceder uma coisa como essa as feridas são imprevisíveis e difíceis de curar. O problema não foi ter acontecido. Foi deixar que acontecesse.

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