JÚLIO CÉSAR BARROS/ESTADÃO
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Novilíngua ambiental

Quer provar que aquecimento global não existe? Estrangule a semântica

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

14 Março 2015 | 16h00

Em sua edição de domingo passado, o Miami Herald revelou que o recém-reeleito governador proibiu, sem deixar rastros, que em todo e qualquer documento oficial apareçam as expressões “mudança climática” e “aquecimento global”. Furo do jornalista investigativo Tristram Korten, do Florida Center for Investigative Reporting, a reportagem expôs o republicano Scott como um cético da hecatombe ambiental que recusa dizer seu nome. Sua proibição não foi por escrito, só de boca, na base da pressão interna, de modo a permitir desmentidos “por falta de provas”, como Scott passou a semana fazendo. Korten desmascarou a farsa, colhendo depoimentos de funcionários do governo e confrontando relatórios de agências ambientais do Estado cujas referências a mudanças climáticas desapareceram por completo nas atualizações dos últimos quatro anos.

Mais francas (ou descaradas) que a da Flórida, as legislaturas da Pensilvânia e da Carolina do Norte proibiram por decreto qualquer referência a desastre ambiental em sites do governo. Negar o aquecimento global e seus efeitos, sobretudo na Flórida, onde as marés vêm subindo a níveis preocupantes, virou um dogma entre os republicanos. 

Faz pouco tempo a diretora da Agência de Proteção Ambiental Gina McCarthy foi ao Senado explicar que a mudança climática “não é uma religião, não é uma crença, é um fato científico”. Deu em nada. Para a bancada republicana, é uma guerra ideológica. 

E pensar que a expressão “mudança climática” foi um eufemismo inventado pelo marqueteiro republicano Frank Lutz, durante o governo Bush, por assustar menos o eleitorado que “aquecimento global”. 

Quando há três meses anunciaram que o deputado Aldo Rebelo seria o novo ministro de Ciência, Tecnologia e Inovação, pensei tratar-se de uma pegadinha. Como a presidente Dilma podia escolher um sujeito tão velha guarda e caturra para cuidar da ciência, da tecnologia e da inovação? Rebelo, xenófobo protetor do idioma pátrio e da mandioca, revelou-se um dos mais irredutíveis luditas do Congresso ao lutar contra a adoção de inovação tecnológica pelos órgãos públicos, com o intuito de proteger o emprego dos nossos barnabés. Também repudia a tese (ou “doutrina”, como prefere qualificá-la) do aquecimento global, por considerá-la fruto do “cientificismo positivista”, mera “formulação baseada em simulações de computador”. 

Se apenas fosse mais um cético do aquecimento global, Rebelo não veria o movimento ambientalista internacional como uma grande conspiração geopolítica, “uma cabeça de ponte do imperialismo” e seus interesses agrícolas, visando ao controle dos padrões de consumo dos países pobres. Isso é papo de diretório acadêmico de 60 anos atrás. 

Em julho de 2011, no site do Instituto Socioambiental, o ex-deputado Márcio Santilli tachou Rebelo de “reacionário e predatório”, por ter sido ele relator do projeto de lei que culminou na restrição da proteção das áreas de cobertura vegetal nativa no Código Florestal. Seu relatório, acusou Santilli, foi “um tapa na cara dos inúmeros pesquisadores brasileiros que integram o Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas da ONU e de todos os nossos negociadores nos foros internacionais”. 

Ao defender-se do esbregue, nosso atual comissário para assuntos ligados à inovação científica empunhou o materialismo dialético como quem puxa uma réstia de alho para espantar vampiros. Ao acreditar numa “ciência da natureza” pautada pela dialética, não por fatos e dados acatados por 95% da comunidade científica mundial, confunde ciências naturais com filosofia. Daria um bom ministro na Oceânia.

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