ANNA LIMINOWICZ/THE NEW YORK TIMESS
ANNA LIMINOWICZ/THE NEW YORK TIMESS

Novo diretor de museu na Polônia quer promover arte 'conservadora, patriótica e pró-família'

Piotr Bernatowicz está no epicentro de uma guerra cultural no país europeu

Alex Marshall, The New York Times

17 de janeiro de 2020 | 17h09

VARSÓVIA, POLÔNIA - Piotr Bernatowicz é uma das figuras mais comentadas do mundo artístico da Polônia neste inverno, por um motivo: muitos artistas dizem que ele está prestes a destruir um importante museu de arte de Varsóvia. No dia 1º de janeiro, Bernatowicz, de 46 anos, tornou-se diretor do Centro de Arte Contemporânea do Castelo Ujazdowski, um palácio reconstruído no centro da cidade. Nos últimos 30 anos, o museu apresentou exposições dos principais artistas experimentais da Polônia e recebeu trabalhos de estrelas internacionais como Barbara Kruger, Nan Goldin e Kara Walker.

Suas exposições costumam ter uma dimensão política. Um programa atual, por exemplo – uma retrospectiva do trabalho de Karol Radziszewski (até 29 de março) – aborda as experiências de gays na Europa Oriental. Mas, em entrevistas, artistas e curadores disseram que consideram que a visão do novo diretor para o Castelo não se encaixa no histórico da instituição.

Bernatowicz está interessado em política, mas tem visões diferentes de muitos no mundo da arte, que, segundo ele disse em uma entrevista por e-mail, era “dominado por uma ideologia precisamente neomarxista de esquerda”. (Ele se recusou a dar uma entrevista pessoal). Dos artistas espera-se que trabalhem para combater a mudança climática e o fascismo, ou promovam os direitos dos gays, acrescentou. “Artistas que não adotam essa ideologia são marginalizados”, disse ele.

Bernatowicz quer mudar isso e promover artistas que têm outras visões: conservadora, patriótica, pró-família. Seus planos estão transformando o museu no mais recente campo de batalha das guerras culturais da Polônia, que colocam os liberais contra o populista e governista Partido da Lei e Justiça, além de outros grupos conservadores.

Piotr Rypson, presidente da filial polonesa do Conselho Internacional de Museus, disse que, por 30 anos, o Castelo foi “um verdadeiro centro de liberdade no meio de Varsóvia”. Ele acrescentou: “Colocar esse homem no comando é como colocar uma rolha na garrafa”.

O Partido da Lei e Justiça tentou orientar as instituições culturais da Polônia em uma direção nacionalista-populista desde que foi eleito em 2015. Piotr Glinski, ministro da Cultura da Polônia, que nomeou Bernatowicz para o Castelo, disse em um comunicado por e-mail que o governo estava “restaurando o equilíbrio certo e a construção de um sistema justo, no qual todo artista, independentemente de seus pontos de vista, pudesse contar com o apoio do Estado.”

Outros administradores de arte nomeados pelo governo também geraram controvérsias. Em abril, Jerzy Miziolek, diretor do Museu Nacional de Varsóvia, removeu três obras de arte contemporâneas, todas de mulheres, depois de receber um e-mail de um visitante que dizia que seu filho havia ficado traumatizado com elas.

As obras incluíam uma série de fotos de Natalia L.L., uma artista feminista cuja carreira começou na Polônia sob o comunismo, que mostrava uma mulher sedutoramente lambendo e chupando uma banana. Os manifestantes comeram bananas fora do museu em protesto por sua remoção. (Miziolek renunciou em dezembro depois de uma série de disputas trabalhistas no museu.)

A indicação de Bernatowicz pelo Ministério da Cultura em Ujazdowski trouxe preocupação porque abrange um período de sete anos – muito mais que o normal – e foi feita sem competição.

A política na vida do diretor do museu nem sempre esteve à direita. Na universidade, estudou história da arte, escrevendo sua dissertação sobre a recepção de Picasso atrás da Cortina de Ferro. Depois de se formar, ele administrou uma revista mensal de arte e lecionou em uma universidade em Poznan, uma cidade no oeste do país. Ele era visto como um membro típico da cena artística da cidade, de acordo com Karol Radziszewski, o artista cuja retrospectiva está em exibição no Castelo. “Éramos amigos – ele estava nos meus filmes”, disse Radziszewski. “E ele ficou louco.”

Bernatowicz disse que já foi liberal, mas sua visão de mundo mudou em 2010, depois que o presidente da Polônia e dezenas dos principais líderes políticos e militares do país morreram em um acidente de avião na Rússia. Ele ficou preocupado com a interferência russa na Polônia e a posição da Polônia no mundo, disse. Na mesma época, disse sentir que “movimentos extremos de identidade” haviam ultrapassado o mundo da arte e que acusações de “discurso de ódio” estavam sendo usadas para censurar trabalhos contrários à sua ideologia. Isso o lembrou do regime comunista, , quando os artistas tinham que fazer o que lhes era ordenado.

Em 2014, Bernatowicz tornou-se diretor do Arsenal, um museu de arte em Poznan, e refletiu sua nova perspectiva em algumas exposições. Ele foi curador de várias mostras de pintores locais, mas também de um grupo – “Estratégias de dissidência” – que incluía pôsteres de Wojciech Korkuc, um designer cujo trabalho muitos consideraram ofensivo. Um cartaz, dirigido a homens gays, incluía o slogan “não torne menores homossexuais”. Outro dizia às feministas para “usar seu cérebro antes da relação sexual”. “Fui acusado de apresentar obras de arte ofensivas em uma galeria pública, mas e a liberdade de expressão e tolerância?”, disse Bernatowicz. “Ele não era homofóbico nem antifeminista”, acrescentou.

Bernatowicz apontou que um teatro de prestígio na Polônia havia recentemente apresentado uma peça, Curse, que ofendeu pessoas religiosas. (Apresenta uma cena em que uma mulher realiza sexo oral em um brinquedo sexual anexado a uma estátua do papa João Paulo II.) “Segundo eles, os católicos deveriam ser mais tolerantes e abertos à arte”, disse Bernatowicz. “Minhas exposições revelam a hipocrisia do mundo da arte.”

Bernatowicz ainda não revelou nenhuma exposição para o Castelo. Mas um manifesto, publicado em novembro, citou quatro “importantes artistas” que ele disse não estarem recebendo a atenção que mereciam. Eles incluíam Korkuc, o designer de pôsteres, e três artistas que foram figuras-chave no mundo da arte polonês nos anos 1980, quando crescia a oposição ao regime comunista.

Um deles, Jaroslaw Modzelewski, pintor que leciona na Academia de Belas Artes de Varsóvia, disse em um e-mail que não se sentia excluído do cenário artístico da Polônia. “Minha arte está envolvida em questões humanas, e não em preocupações políticas”, disse ele. Bernatowicz era um “curador interessante” cuja atitude era diferente da “sociedade artística de mentalidade unidirecional na Polônia”, acrescentou Modzelewski. 

“Não pretendo transformar o centro em uma espécie de gueto ideológico para ideias e artistas conservadores”, disse Bernatowicz. “Na minha opinião, a maioria das galerias de arte contemporânea se parece com guetos ideológicos de esquerda. É isso que eu quero mudar.” Mas algumas figuras do mundo da arte disseram que será difícil encontrar obras de direita suficientes para exibir. “Não sei o que é um artista conservador”, disse Malgorzata Ludwisiak, diretor anterior do Castelo. “Se isso significa pintar como no século 14 – uma dama em um cavalo – bem, não é arte contemporânea.”

Bernatowicz parecia perceber que poderia ter dificuldades em suas mãos. “Se você perguntar: ‘Quantos artistas de vanguarda conservadores existem agora?’ Minha resposta será: cinco na Polônia e talvez um na Bielorrússia”, disse ele, citando uma famosa observação de Marcel Duchamp. Mas, acrescentou, “espero que nos próximos sete anos a situação mude”. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZ

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