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Novo livro de Michel Houellebecq aborda vício em antidepressivos

Polêmico escritor francês também foi apontado como um dos que previram o movimento dos coletes amarelos

Dirce Waltrick do Amarante*, Especial para o Estado

02 de fevereiro de 2019 | 16h00

Sérotonine (Flammarion), último romance do polêmico escritor francês Michel Houellebecq, ainda sem tradução no Brasil, foi lançado no início de janeiro na França e mereceu extensos comentários nos principais jornais daquele país, alguns entusiásticos, outros nem tanto, como o assinado por Antoine Compagnon, e espaço para debate em horário nobre nos noticiários televisivos. O fato é que as vendas do livro deslancharam. O título escolhido por Houellebecq não poderia ser mais atual; afinal, a falta de serotonina, “hormônio do bem-estar”, parece estar afetando boa parte da população mundial e causando o “mal” de hoje, a depressão, combatida com antidepressivos, como o que usa o protagonista da história: “Depois de dois ou três cigarros, tomo um comprimido de Captorix com um quarto de copo de água mineral – geralmente Volvic. Os primeiros antidepressivos conhecidos (Seroplex, Prozac) aumentavam a taxa de serotonina no sangue inibindo sua recaptura pelos neurônios 5-HT1. No início de 2017, a descoberta do Capton D-L abriu caminho para uma nova geração de antidepressivos.”

O protagonista cita com muita familiaridade marcas, não só de remédios, mas de outros produtos, como água, mala, carro, algumas bastante elegantes e caras, que traduzem o mundo e a classe social aos quais ele pertence: “Eu me dirigi para nosso quarto, arrastando minha Samsonite; ela me seguia, a cabeça audaciosamente erguida, tendo deixado as duas malas Zadig et Voltaire (ou melhor Pascal e Blaise, esqueci) bem no meio do hall da recepção”. O personagem divaga sobre os temas mais banais e, outras vezes, mesmo de maneira superficial, fala de assuntos importantes, como meio ambiente, política e economia, e cita, ao lado de pensadores clássicos e modernos, como Schopenhauer, Platão, Kant, Maurice Blanchot e Georges Bataille, informações que mais parecem ter saído da Wikipédia.

O fato é que o mundo de Florent-Claude Labrouste, o “herói” de Sérotonine, é politicamente incorreto, banal, superficial, frívolo. Ele passa grande parte do tempo preocupado com a qualidade dos hotéis, dos champanhes, e com o comportamento dos outros, em geral estrangeiros, vistos de forma preconceituosa e cheia de clichês: “Uma raça de comerciantes poliglotas e oportunistas, os holandeses.” Apesar de ter emprego fixo e vida fácil, Labrouste, depois de assistir a um documentário, Disparus Volontaires (Desaparecidos Voluntários), decide largar tudo: “Fiquei fascinado, e passei o resto da noite na internet para aprender mais, cada vez mais convencido que iria ao encontro do meu próprio destino: seria, eu mesmo, um desaparecido voluntário.”

Em Desaparecer de Si: Uma Tentação Contemporânea, livro lançado na França em 2015 e aqui em 2018, o antropólogo David Le Breton, conterrâneo de Houellebecq, afirma que “o desaparecimento pode ser um desgaste das significações que conservam o indivíduo no mundo, uma breve experiência de desresponsabilização”, que é o mote do romance. A necessidade de desaparecer, em suma, está relacionada à dificuldade de manter a personalidade social, pois a sociedade exige de todo cidadão que ele se mantenha permanentemente mobilizado, afirma Le Breton. 

Diante dessa pressão, o desnorteado Labrouste abandona sua antiga vida e recomeça do zero, em outro lugar, mas desaparecer não é tão fácil assim. Logo depois as mesmas pressões se impõem e as mesmas exigências voltam à tona.

Labrouste se assemelha muito a Hans Castorp, personagem de A Montanha Mágica, de Thomas Mann, e parece não ser descabida essa analogia, já que o próprio Houellebecq cita o romance de Mann nas últimas páginas do livro: “Tinha a intuição de que era um livro fúnebre, mas, afinal de contas, conveniente à minha situação.”

De fato, os dois protagonistas citados desaparecem para reaparecer em uma nova vida em outro local, com outras características, outra identidade, porém seguem em busca de um sentido às suas existências. Se Castorp envolve-se sem nenhuma convicção numa guerra e lá encontra um fim para a sua trajetória, Labrouste vai para o interior da França e se envolve em um movimento de agricultores, igualmente sem nenhuma ligação profunda com essa causa – para alguns leitores, Houellebecq anunciaria o movimento dos coletes amarelos que tomou as ruas de muitas cidades francesas. Mas, ao final, o que mantém em marcha o protagonista, esse “indivíduo hipermoderno”, para usar uma expressão de Le Breton, é mesmo o uso do antidepressivo.

*DIRCE WALTRICK DO AMARANTE É AUTORA DE ‘ASCENSÃO: CONTOS DRAMÁTICOS’ (ED. CULTURA E BARBÁRIE)

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