Jessica Lehrman/The New York Times
Jessica Lehrman/The New York Times

Novo livro de Ottessa Moshfegh subverte a literatura policialesca

'Death in Her Hands' começa como um assassinato misterioso, mas o corpo desaparecido é irrelevante

Rosa Boshier*, The New York Times

27 de junho de 2020 | 16h00

“Seu nome era Magda”, assim tem início o mais recente romance de Ottessa Mosfegh, Death in Her Hands [Morte nas mãos dela, em tradução livre]. “Ninguém nunca saberá quem a matou”. Com isto, o leitor começa uma busca por uma possível vítima de assassinato conduzida pele idosa Vesta Gyk. Após a morte do marido, Vesta entra num acampamento de verão abandonado para meninas em Levant, pequena cidade distante na Costa Leste. Após encontrar um bilhete na mata afirmando que Magda foi assassinada, Vesta decide ir a fundo no mistério. “Não fui eu”, diz a nota anônima. “Aqui está seu corpo”. Mas o corpo dela, ou algum vestígio dele, não é encontrado.

Death in Her Hands satiriza o romance de detetive padrão usando seu modelo para contar uma história na maior parte estática. Por meio de um diálogo interior tortuoso que reflete as próprias escapadas solitárias e tropeços pelas matas de Levant, Vesta procura por Magda idealizando a sua existência. À medida que ela começa a inventar o passado de Magda, com ajuda de um computador de uma biblioteca pública da cidade e do mecanismo de busca Ask Jeeves, o leitor começa a saber mais sobre o passado da própria Vesta. Nascida de pais croatas adoráveis, mas rigorosos, e mais tarde vivendo no Ocidente com um marido acadêmico bruto e infiel da Alemanha, Vesta levou uma vida predeterminada. E enquanto investiga as possíveis vidas e assassinos de Magda, ela percebe que a sua vida passou por ela. “Outrora fui jovem”, ela lembra. “Tantos sonhos frustrados. Mas eu me frustrei porque queria me sentir segura, ter um futuro de certezas. Cometemos erros quando fazemos confusão entre um futuro de qualquer maneira e o futuro que desejamos”. À medida que começa a compreender melhor o seu próprio passado, ela se torna cada vez mais protetora de Magda, que imagina ser uma jovem de 19 anos do leste europeu morta no auge da vida.

As voltas mentais de Vesta podem parecer familiares. Death in Her Hands é um hino à atual situação de isolamento do mundo. Durante a quarentena muitos de nós vêm sofrendo com a mente abarrotada. Mas no caso de Vesta este confinamento psíquico é libertador. Depois de anos vivendo com um rígido e controlador Walter, ela finalmente está livre para exercitar sua capacidade usando a imaginação.

Este é um livro que coloca a solidão e a liberdade sob prismas inesperados. Vesta fica atormentada ao perceber que nunca fez suas próprias escolhas. “Vi claramente como abandonei minhas raízes para viver uma vida mais confortável com Walter”, ela reflete. Mesmo o seu fiel cão, Charlie, acaba por traí-la, mas essas traições acabam levando-a cada vez mais para o caminho da independência. Depois de anos a serviço das pessoas à sua volta, Vesta finalmente é livre para ficar sozinha e, também, inventar sua própria companhia: Magda.

 Moshfegh se tornou mestre das mulheres marginalizadas: isoladas, à deriva, insatisfeitas consigo mesmas e com o mundo exterior.

Seu livro de sucesso, Eileen, fala de uma secretária jovem e taciturna aterrorizada com sua própria sexualidade e fascinada com suas próprias fezes. No seu segundo sucesso literário, My Year of Rest and Relaxation [Meu ano de descanso e relaxamento, lançado no Brasil em 2019 pela editora Todavia], a bela, mas amoral, protagonista, imagina um coquetel de pílulas para dormir um ano inteiro. Esse “descanso” é filmado por um renomado artista conceitual. Comparada com esses personagens, as idiossincrasias de Vesta são controladas. Mas como suas contrapartes, ela é uma autoridade convincente da sua própria experiência, confiante na lógica do seu autoisolamento e visão de mundo. As afirmações e motivações dessas heroínas às vezes são atrozes, mas nunca totalmente irracionais ou sem fundamento. É difícil discutir com Vesta quando ela afirma que as pessoas “mentem o tempo todo. Isto faz parte daquilo que nos mantém como indivíduo por inteiro”.

Death in Her Hands não tem muito a ver com a solução de um crime, mas com a evocação de uma vida. Em sua aparente falta de trama esse livro postula questões filosóficas sobre o significado da mortalidade. Por meio da crise existencial que a suposta morte de Magda desencadeia, Vesta começa a compreender a diferença entre seguir o fluxo da vida e realmente viver. No fim do livro, vemos que Magda é meramente um portal para Vesta pensar em sua própria vida e no fim decidir sua própria morte. Na visão dela existe liberdade na escolha do seu próprio destino, mesmo na morte. “Seu nome era Vesta”, ela reflete no encerramento do livro. “Foi isto que eu quis escrever o tempo todo – minha história, minhas frases derradeiras”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*Boshier é escritora e artista cujo trabalho apareceu no Los Angeles Review of Books, Guardian e Vice, entre outras publicações

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