Ed Viggiani/Estadão
Ed Viggiani/Estadão

Novo livro do Nobel de Literatura J.M. Coetzee encerra sua trilogia

'A Morte de Jesus' encerra sua adaptação livre da história da natividade

Jon Michaud, The Washington Post

06 de junho de 2020 | 16h00

A obra mais recente de J.M. Coetzee, prêmio Nobel, é o terceiro romance, possivelmente o final, de uma série que é uma adaptação livre da história da natividade, recolocando-a num país de língua espanhola, sem nome, e que pode ou não ser uma visão da vida após a morte. 

Recém-chegados descem de um navio “muito limpo” das suas memórias onde recebem nomes e idades. O primeiro livro da série do escritor, A Infância de Jesus, conta como um homem chamado Simón assume a responsabilidade por uma criança aparentemente órfã chamada David. Juntos eles procuram pela mãe do menino até encontrarem uma mulher, Inês, disposta a assumir esse papel.

Simón é uma pessoa segura, prudente e reflexiva, mas aparentemente sem paixão ou imaginação. Inês é uma mulher resmungona e espalhafatosa devotada a David, mas sem vida interior. Mantendo uma união sem sexo, ela e Simón fazem o máximo para educar uma criança precoce, obstinada e frequentemente insuportável. Quando os professores de David ameaçam colocá-lo em uma “escola especial” para crianças insubordinadas, a família foge para a cidade provincial de Estrella. 

Ali, como é descrito em A Vida Escolar de Jesus, David se matricula em uma academia de dança cuja professora é uma mulher jovem e bela chamada Ana Magdalena, que é assassinada por um guarda de museu obcecado chamado Dmitri (Coetzee nem sempre dá sobrenome às pessoas, mas suspeita-se que o de Dmitri seja Raskolnikov). O violento, lascivo e talvez louco Dmitri disputa com Simón a afeição de David. E cada vez mais David vê Simón e Inês como obstáculos ao seu autodesenvolvimento.

O novo romance de Coetzee, A Morte de Jesus, é ambientada dois anos mais tarde. David, agora com 10 anos de idade, é um dançarino talentoso e jogador de futebol. O Dr. Júlio Fabricante, diretor de um orfanato local, separa David dos seus “pais” e recruta agressivamente o menino. “Ser um órfão, no nível mais profundo, é estar sozinho no mundo. Assim, num certo sentido, somos todos órfãos”, ele observa. David deixa Simón e Inês e se transfere para o orfanato. 

Não se passa muito tempo, porém, e o menino é acometido por uma “doença misteriosa” e levado para o hospital. Uma longa vigília começa, e o resultado dela é transmitido pelo título do romance. No hospital, David se reúne brevemente com o asqueroso, mas magnético, Dmitri, que, tendo terminado um tratamento psiquiátrico, agora é uma pessoa pacífica. Dmitri afirma que David passou a ele uma “mensagem” antes de morrer. Mas numa carta a Simón, Dmitri admite que “o conteúdo da mensagem ainda é obscuro...O próprio David pode ser a mensagem”.

A mensagem da trilogia de Coetzee é similarmente inescrutável. Os livros se situam numa zona entre alegoria e parábola, refutando a interpretação.

Ele usa o mínimo de palavras e o livro é quase totalmente despojado de metáforas. As tramas são superficiais e apenas em alguns momentos geram momentos de suspense. Passagens longas em todos os três volumes chegam à exaustão, mas com frequência são discussões filosóficas inconclusivas como uma entre Simón e David:

- “É contra as regras chamar as pessoas da sua outra vida de volta para esta”

- “Mas...como você sabe o que é permitido e não permitido?”

- -Não sei como seu sei, do mesmo modo que você não sabe como você sabe essas belas músicas que canta. Mas é como eu acho que as regras funcionam, as regras com base nas quais nós vivemos”.

- “Mas e se não existir nenhuma nova vida? E se eu morrer e não despertar? Quem serei eu se não despertar?”.

Muitas dessas discussões giram em torno de perguntas sobre moralidade, mortalidade e metafísica. Enquanto a maioria dos moradores de Estrella parece feliz em viver uma vida irrefletida, Simón, David e Dmitri compartilham um interesse insaciável que contraria a utopia monocromática onde residem, um país aparentemente sem religião, pobreza ou alegria. Simón, que não tem a convicção de David e Dmitri, às vezes se torna um substituto do leitor quando tenta juntar este quebra-cabeça com um número insuficiente de peças. A sensação é de que Coetzee, nesses romances, está contando uma espécie de lorota para os leitores, uma lorota que somente o autor realmente entende.

O solitário trabalho de ficção diretamente referenciado na trilogia é o Dom Quixote. “David aprende por si mesmo a ler uma cópia resumida do livro e acaba memorizando o livro inteiro. Mais tarde, no hospital, ele agrada um público de crianças com histórias do cavaleiro errante. Num ensaio sobre Cervantes, Milan Kindera propôs a ideia de que somos separados do mundo por uma cortina de preconceitos e interpretações. “Cervantes enviou Dom Quixote para uma jornada e para rasgar a cortina”, escreveu. Os romances de Jesus de Coetzee conseguem o oposto. Não revelam nada. / Tradução de Terezinha Martino

*Jon Michaud é autor do romance When Tito Loved Clara

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