Valentin Flauraud/ Reuters
Valentin Flauraud/ Reuters

Novo livro revela como Leonard Cohen foi à guerra em busca de respostas

Cantor, compositor e escritor canadense foi a Israel no ano de 1973

Diane Cole, Washington Post

06 de maio de 2022 | 10h00

Músicos, curem-se. Ao longo da vasta carreira, o cantor, compositor e poeta canadense Leonard Cohen (1934-2016) aperfeiçoou um estilo próprio que emaranhava alegria com melancolia e misturava calma com explosões de raiva num universo que não queria revelar seu significado. Ele tinha um dom para os versos hipnóticos e as letras sensuais que flertavam com o metafísico. Sempre atrás de consolo espiritual e inspiração artística, quando de sua morte ele foi celebrado no mundo todo como um sábio profeta cuja linguagem musical conseguia tocar a alma.

Mas o Leonard Cohen de 39 anos, a quem o aclamado autor canadense-israelense Matti Friedman nos apresenta em seu último livro, Who By Fire: Leonard Cohen in the Sinai, ainda não se tornou essa figura idolatrada. Ao contrário, é um artista que na meia-idade se sente preso, paralisado e dilacerado por seus próprios demônios.

A maneira como Cohen encontra seu caminho através deste impasse pessoal dá uma história intrigante, a parábola de um trovador pacifista que redescobre seu propósito no deserto do Sinai durante a Guerra do Yom Kippur de 1973. Mas é mais que isso. Vista através das lentes investigativas de Friedman, a jornada de Cohen também faz parte da saga histórica muito mais ampla de Israel e da diáspora judaica. E, como muitos fãs de Cohen podem atestar, a música que resultou dessa estranha interseção é quase reveladora.

Friedman monta o cenário nos lembrando que, bem antes de 1973, Cohen tinha a reputação de ser sombrio e inquieto, propenso à depressão e às drogas, um sedutor de mulheres, estivesse sóbrio ou chapado. Ainda assim, em 1973, a popularidade de canções como ‘Suzanne’ e ‘Bird on the Wire’ lhe trouxera prestígio profissional e segurança financeira. Para quem observava de fora, ele também parecia ter alcançado uma boa dose de estabilidade doméstica, talvez mesmo de felicidade, no lar que fizera para ele, sua parceira romântica, a fotógrafa Suzanne Elrod, e seu filho recém-nascido na idílica ilha grega de Hidra.

Para Cohen, porém, o lugar não era o paraíso, mas o purgatório. Publicamente, ele anunciou sua decisão de se aposentar da música. Em particular, ele atacava Suzanne, falava que se sentia preso pela paternidade e criticava suas próprias falhas com uma autodepreciação selvagem. Nas páginas brutalmente sinceras de um manuscrito inédito que Friedman teve permissão de usar, Cohen se mostra “rangendo os dentes de olhar para os destroços da beleza, vivendo dentro do ódio, preso ao meu lado da cama e sempre gritando não, isso não pode ser a minha vida”.

Ele também escreve que, em outubro de 1973, enquanto ouvia os relatos da eclosão da guerra entre Israel e uma coalizão de estados árabes liderada pelo Egito e pela Síria, “eu queria ir lutar e morrer”. Enfurecido e perturbado, num impulso ele decidiu – era um suicídio? – pegar o próximo voo para Tel Aviv.

Friedman não segue essa possível pista de pensamentos de automutilação. Em vez disso, enquadra o voo de Cohen para Israel como sua fuga do beco sem saída emocional e artístico que ele acreditava estar confinado. Mas, embora Cohen nunca tenha deixado clara qualquer intenção em seus textos inéditos, seu sombrio estado emocional parece desconfortavelmente próximo a uma depressão suicida. Partiu sem levar nada consigo, nem mesmo o violão. Foi apenas por acaso que, depois de chegar a Tel Aviv, sentado num café, exausto e sem saber o que estava por vir, ele foi reconhecido por um grupo de músicos israelenses. E foi apenas a persistência deles que o convenceu a se juntar ao grupo na apresentação para as tropas no front. Você pode chamar de intervenção, acidente ou milagre, mas o fato é que, depois que os músicos israelenses arranjaram um violão para ele, Cohen voltou a cantar e nunca mais parou.

Ou talvez o desejo quase instintivo de Cohen ir a Israel também tenha sido motivado por um tipo diferente de compulsão. Friedman observa que a última visita de Cohen, em 1972, fora um fiasco: ele tomara ácido nos bastidores antes de subir ao palco em Jerusalém e acabou saindo no meio do show. Tempos depois, Cohen diria que se apresentar em Jerusalém o deixara nervoso e o fizera sentir que seu judaísmo era inautêntico. Isso apesar do fato de ele ter crescido numa proeminente família judia ortodoxa em Montreal, ser bem versado na tradição religiosa e no misticismo judaico e sentir que Israel era seu “lar mítico”. Ele também aprendera a levar a sério seu legado como um “Cohen”, um descendente dos sumos sacerdotes do antigo templo. Mas, no seu próprio julgamento, ele se sentia indigno, inadequado. Talvez esta visita lhe permitisse provar o contrário.

A primeira parada de Cohen e seus colegas foi a base aérea de Hatzor. Um piloto que estava descansando ali entre as missões de bombardeio disse a Friedman que saber que Cohen estava tocando na base “foi como ouvir a notícia de um pouso alienígena”. No entanto, vestido em seu traje de voo, ainda repassando as perdas do dia e apesar de não entender todas as palavras em inglês, ele sentiu que a música de Cohen “falava comigo, invadia meu coração”. Esse sentimento ecoou nas entrevistas de Friedman com muitos outros soldados que ouviram Cohen enquanto ele ia de uma base a outra. Era comovente, disseram eles a Friedman, “saber que alguém como Cohen tinha vindo até Israel e viajado para o Sinai e até atravessado o Canal de Suez para estar com eles”.

Além disso, escreve Friedman, a música de Cohen tocava seus ouvintes num nível emocional, “como as melhores orações. A melodia cumpria a função que os rabinos hassídicos atribuem à música, ou seja, deixar o sentimento e o significado à mão daqueles que parecem incapazes ou relutantes em entender as palavras, sugerir sentimentos e significados que vão além das palavras”. Cohen parecia estar provando ser realmente digno.

Entre as músicas que Cohen cantou estava a mais nova, composta entre os shows de sua primeira parada. Era uma versão inicial de ‘Lover Lover Lover’, que se tornaria uma de suas canções mais conhecidas. Ao reanimar os espíritos dos soldados, ele já estava começando a reanimar o seu. “Vim para elevar o ânimo deles, e eles elevaram o meu”, disse Cohen sobre seu tempo no Sinai.

Essa renovação continuaria depois do fim da guerra. Em 1974, ainda refletindo sobre a Guerra do Yom Kippur, ele iria compor ‘Who by Fire’. A expressão vem da prece solene entoada a cada Yom Kippur, o Unetaneh Tokef, que nos pede que reflitamos sobre o destino que o próximo ano pode reservar a cada um de nós, quem vai morrer e quem vai viver. Cohen estivera perto da morte e vira a morte no campo de batalha do Sinai. Mas ali ele não morreu: renasceu. Talvez até se possa dizer que ele escolheu a vida: voltou para sua parceira Suzanne, teve um segundo filho com ela e compôs uma canção atrás da outra, entre elas ‘Anthem’ e ‘Hallelujah’. É uma escolha que continua a nos dar motivos para cantar em agradecimento.

Who By Fire: Leonard Cohen in the Sinai

Matti Friedman.

Spiegel and Grau - 206 páginas - US $27

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Diane Cole é autora do livro de memórias After Great Pain: A New Life Emerges.

/ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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