Novo, mas nem tanto

Nelson Mandela simboliza um tipo de movimento social que fez história no século 20, com liderança fixa e causa clara. O movimento que tomou o Brasil nas últimas semanas é assim? "Rebelião", "revolução", "o povo acordou" - a variedade de termos testemunha a dificuldade explicativa. Há na mesa perguntas singelas, nem por isso de resposta trivial: o que, como, onde, quem, por quê.

ANGELA ALONSO,

30 de junho de 2013 | 02h13

O quê. Trata-se de movimento social. Manifestações públicas repetidas no espaço público por grande número de pessoas em desafio ao Estado (sem visar o poder, à diferença dos movimentos revolucionários) e em nome de ampliação de direitos de dada população, para usar a definição de Charles Tilly. Em levantamento preliminar, houve pelo menos 174 eventos deste tipo pelo país, 32 deles com mais de 5 mil presentes. Movimento tem fronteira fluída, gente entrando e saindo, flutuação de lideranças, mas não é rede virtual. Exige presença massiva e compromisso, do que apenas se tem certeza no confronto com a polícia, adversário inevitável, pois movimentos exploram o terreno do que é ilegal, mas legítimo. A repressão é sua prova de fogo: se reflui ou arrebata mais aderentes.

Movimento novo? Aí entra o "como". Há mudanças de repertório. As tecnologias digitais proveem comunicação, organização, propaganda instantâneas. E nova linguagem: os sites do movimento são imagéticos e sintéticos, recusam a verborragia e a estética da velha esquerda. A internet dá o parâmetro das manifestações, simultâneas em vários pontos, multiplicadas como as janelas do Windows. Policêntricas, grupos que se coordenam e se separam, sem rosto que os represente. Mas nem tudo é novo. O movimento não é apenas virtual - no Facebook, vale-se de velho método, a passeata. Usa o repertório de antecessores. O verde e amarelo nas faces e chamamento a uma cor nas roupas e janelas, como no impeachment de Collor. Recorre aos pontos de maior circulação das grandes cidades - Paulista, Brigadeiro, Sé - e aos símbolos nacionais, a Bandeira, o Hino, como no Diretas-Já.

Outra pergunta é sobre "quem". São comuns em movimentos os estudantes e os profissionais liberais altamente escolarizados de profissões mais novas. Mas movimentos sociais são sobretudo transclassistas. Quanto mais ampla a bandeira, mais variada a adesão. Foi o que se viu: até Paulo Skaff, da Fiesp - alvo das manifestações dos anos 1980. O vasto apoio tem a ver com a reação das autoridades. A mídia dividiu entre "pacíficos" e "vândalos", como se a forma da mobilização (o uso da violência) decorresse do caráter dos mobilizados. Contudo, desde as primeiras manifestações, em 25 e 27 de março, em Porto Alegre, e, em contagem imprecisa, em pelo menos 42 outras pelo País, a resposta foi policial. Estratégias de movimento e governo são especulares, precisam ser entendidas uma por relação a outra. Tratar manifestantes como criminosos suscitou o apoio de cidadãos que doutro modo não teriam se manifestado.

Tipicamente movimentos sociais surgem em crises políticas, vide o Egito. Aqui acontece em normalidade democrática e econômica e fora de período eleitoral. O movimento é mais causa que consequência de uma crise. Circunstância que dificulta responder "quando" e "por quê". Uma hipótese é o esgotamento do ideário socialista como orientador de movimentos; grupos com esse pendor viraram partidos (PSTU, PSOL, PCO, etc). Já causas "modernas", como a ambientalista, suscitam pouco apetite para o protesto, mais afeitas à "onguização". Há um vácuo e nele a mobilização se construiu como forma "moderna" com causa "antiga". Contra a tese de Touraine da substituição de pautas redistributivas por "pós-materiais", o estopim do protesto foi questão tangível, o transporte público.

Outra dimensão é a mudança geracional. Os jovens nas ruas cresceram em contexto democrático e sob economia estável. Não veem o Brasil sob o prisma da ditadura e da inflação, veem um Estado sem agilidade para responder às suas expectativas - tanto políticas como de consumo. E sofrem o efeito demonstração das mobilizações massivas na esfera internacional.

Terceiro elemento: a mudança na relação Estado/movimentos sociais. Enquanto Lula incorporou pautas e até ativistas dos movimentos, o governo Dilma se pretende "mais técnico", dialoga pouco: o protesto vira estratégia mais viável que a negociação.

Paradoxalmente, o problema do movimento passou a ser seu sucesso. Autoridades se acuaram e responderam atabalhoadamente. Vitória, mas e agora? O movimento tem dificuldade de controlar o imenso contingente que chamou às ruas e que não foi, à moda antiga, socializado nos mesmos métodos nem obedece a um único megafone. A horizontalidade da organização exibe seu preço: a perda do controle da mobilização. Vários movimentos há muito organizados - à esquerda e à direita - aderiram e trouxeram consigo as próprias bandeiras e métodos.

Grandes movimentos pendem, no longo prazo, para a partidarização, caso do movimento verde na Alemanha, e, no curto, para a expansão de demandas, o que se vê aqui na adição de educação, saúde, anti-homofobia, PEC 37, corrupção. Pauta que Executivos nacional, estaduais e Congresso, atarantados no início, fagocitaram essa semana. Especulações futuristas abundam, mas a lição que o fenômeno impõe aos analistas é de humildade diante do que não se cristalizou, do que ainda está em "movimento".

ANGELA ALONSO É PROFESSORA DO DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA DA USP E DIRETORA CIENTÍFICA DO CEBRAP  

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